Memória e vigilância: Comitê em Defesa da Democracia celebra 10 anos de existência

Última edição em abril 21, 2026, 08:12

translate

Aniversário Comitê

Por Solon Saldanha *

Na noite da última sexta-feira, 17 de abril, um jantar marcado pela emoção de reencontros e pela reafirmação de princípios democráticos celebrou o décimo aniversário do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito. O evento ocorreu na capital gaúcha, berço do movimento fundado em 2016 como resposta ao processo de afastamento da presidenta Dilma Rousseff.


Com a presença de cerca de 70 dos seus membros, a noite foi conduzida com maestria pela advogada e anfitriã Jucemara Beltrame. Ela, em sua fala de abertura, destacou a importância da persistência. Para Jucemara, o Comitê prestou ao longo desta sua primeira década um serviço de fato inestimável, sendo que precisará continuar com sua luta cotidiana, agora diante dos novos desafios que se apresentam. Ela ainda lembrou que a data coincidia com os 30 anos do Massacre de Carajás e brincou com o fato de que naquela madrugada ainda estava previsto para ocorrer um alinhamento planetário, o que talvez de fato fosse uma coincidência que viesse a apontar para novos tempos.

Na sequência, falou o presidente do Comitê, Benedito Tadeu César, que fez um breve balanço de tudo o que ocorreu ao longo desses anos, isso depois de comunicar a todos os presentes que Jucemara estava de aniversário, o que era coincidência agradável. Ele também lembrou que mesmo o evento não sendo político partidário, uma série de lideranças estavam presentes, acrescentado que isso reafirmava todo o prestígio angariado pelo Comitê em sua relativamente breve história.

As esperadas manifestações políticas

Com o microfone à disposição, seguiram-se manifestações livres, sendo elas de apoio, reconhecimento e também propostas de postura para com os enfrentamentos que deverão ocorrer ao longo do ano. Destaque para falas como a de Paulo Pimenta, candidato a senador em outubro, pela frente ampla das esquerdas que está se consolidando no Rio Grande do Sul – estará postulando representar o Estado, ao lado de Manuela D’Ávila. Ele relatou ter acompanhado o processo de formação do Comitê desde o primeiro momento. E que via com alegria o fato de que cada um dos seus membros não foram meros espectadores nesse tempo. Que todos, da sua maneira, ajudaram escrevendo páginas da história. Citou momentos expressivos, como o golpe contra Dilma, a perseguição ao presidente Lula, a luta contra a Lava Jato, a retomada da capacidade de mobilização culminando com o terceiro mandato, entre outros. Ressaltou que se precisa estar outra vez todos prontos, para iniciar uma nova jornada que deve culminar com a derrota do fascismo, em outubro. “O que nos une é que somos pessoas determinadas a lutar por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa”, ressaltou Pimenta.

Olívio Dutra fez o que dele sempre se espera, sem nunca decepcionar a ninguém. Com sua conhecida humildade e profundo conhecimento, tanto da política quanto da vida, falou das necessidades de não apenas ser Lula reconduzido, como também de eleger o governo do Rio Grande do Sul, com a Juliana Brizola e o Edegar Pretto, além de dois senadores e a maior bancada possível. Com sua experiência, lembrou que para que o governo consiga levar adiante seu programa e seus projetos, tem que contar com apoio em diversos níveis. “Temos que fazer muito mais. Mais fundo e mais espraiado, tanta coisa que ainda não se conseguiu, apesar de não ter faltado vontade. Ciência, tecnologia, tanta coisa no interesse coletivo, da sociedade e não do capital”, conclamou ele, seguindo na sua manifestação com foco na ética e no protagonismo popular. Segundo o ex-governador a democracia só é plena quando as decisões políticas são permeadas pela participação direta do povo e pela busca incansável pela justiça social. “Eu saúdo as divergências, porque elas nos provocam para construir alternativas comuns, debatidas de baixo para cima” concluiu Olívio.

Coube a Pedro Ruas a fala mais esperada da noite. Isso porque, com as articulações recentes que levaram à união das chapas do PT e do PDT, chegou a ocorrer um ruído que poderia afastar o PSOL da frente ampla das esquerdas. Ele admitiu que isso chegou a criar certo desconforto, mas revelou que tudo já estava contornado. E antecipou que uma reunião interna do partido, na terça-feira, iria confirmar a posição de se manter a estrutura coesa. Que o apoio do partido não seria negado de modo algum, diante de valores maiores que estão em jogo. “Asseguro que o resultado favorável terá entre 75 e 90% dos votos. Vamos seguir juntos na busca pela vitória”, colocou com mais certeza do que esperança. E finalizou lembrando que se faz necessária uma representatividade grande e plural nas suplências que ainda serão discutidas.

Surpresa e emotividade no final

A última das falas reservou mais uma dose de emoção aos convidados. Isso porque quem falou foi Maria da Graça Pinto Bulhões e ela, apesar da forte atuação nos bastidores, não tem este hábito. Confessou mesmo que se tratava da primeira vez que fazia isso, assim em grande grupo. Relembrou dos tempos em que defendia que a primeira e principal das lutas deveria ser a democrática e não a socialista, o que lhe rendia uma certa dose de dissabores, com a resistência dos companheiros petistas. E que isso ocorria desde o movimento estudantil e o sindical. Com sua posição, contou ela, acaba sendo chamada de liberal, de populista e de um monte de outros adjetivos, dependendo do momento e de quais eram os seus interlocutores. “Quando eu cheguei neste Comitê, vim devagar. Isso porque aqui estavam muitos daqueles que me chamavam daquilo tudo”, confessou.

O que ela também disse é que leu e acompanhou tudo o que fez o PT e que o partido passou a assumir a questão da democracia a partir do momento em que ocupou espaços no Legislativo e em Executivos. Que ele dizia que não iria administrar o capitalismo, mas que depois que entrou para o espaço de poder entendeu que tinha sim que fazer isso. E que a melhor forma seria pela via democrática. “Também aprendi que este país é tão abissalmente desigual que o PT precisou – e era difícil para mim entender antes – organizar os trabalhadores numa estrutura que ainda é quase escravocrata”, revelou Maria da Graça.

 Um horizonte de lutas

O jantar não serviu apenas para recordar o passado. As manifestações deixaram claro que o Comitê projeta uma atuação intensa para o segundo semestre de 2026. Temas como a oposição à jornada de trabalho 6×1 e o monitoramento do uso de inteligência artificial nas eleições de outubro foram pontos centrais nos debates entre as mesas.

Dez anos depois de sua criação, o Comitê em Defesa da Democracia reafirma que sua fundação, ocorrida em um dos momentos mais conturbados da história recente do Brasil, foi apenas o início de um trabalho que se tornou permanente e essencial para a saúde da República. E que ele continuará, com total dedicação e resiliência.


* Solon Saldanha, jornalista e escritor

Foto: Confraternização. Crédito: divulgação Comitê

Sobre o autor

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático