A China não é passiva — é seletiva

Última edição em abril 12, 2026, 10:45

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Na guerra no Oriente Médio, Pequim não se omite: atua com cálculo, limites e visão de longo prazo, em contraste com a escalada liderada por Estados Unidos e Israel.

Em meio à escalada no Oriente Médio, cresce a leitura de que a China estaria ausente ou hesitante. Mas essa percepção confunde ausência com estratégia. Pequim não está fora do tabuleiro — está jogando de outra forma, e talvez de forma mais inteligente.

A guerra no Oriente Médio voltou ao centro do sistema internacional em um momento de extrema fragilidade global. A escalada envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã — agora estendendo-se ao Líbano — preocupa não apenas pelo número crescente de vítimas, pelo impacto imediato sobre os preços do petróleo e pelo risco inflacionário global. Ela amplia, sobretudo, a possibilidade de um conflito regional de grandes proporções e expõe, mais uma vez, a erosão dos mecanismos multilaterais e a incapacidade da Organização das Nações Unidas de conter ações unilaterais.

Em um cenário em que rotas energéticas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, tornam-se pontos de tensão permanente, a pergunta central deixa de ser apenas quem intervém — e passa a ser como e sob quais limites essa intervenção ocorre.

É nesse contexto que se intensificam as críticas que retratam a China como “passiva” diante da crise. Essa leitura, no entanto, ignora uma dimensão central do seu pensamento estratégico. A questão não é a ausência de ação, mas sim como, quando e dentro de quais limites essa ação deve ocorrer.

Declarações recentes do Ministério das Relações Exteriores da China têm sido inequívocas. Pequim condenou os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel como violações do direito internacional, realizados sem autorização das Nações Unidas, reafirmou seu apoio à soberania e à integridade territorial do Irã e insistiu que a diplomacia — e não a guerra — deve permanecer como o principal caminho.

Mais do que retórica, a China tem se engajado em esforços diplomáticos e de coordenação regional. Em conjunto com o Paquistão, apresentou uma iniciativa de cinco pontos voltada à restauração da estabilidade no Golfo e no Oriente Médio. A proposta inclui cessar-fogo imediato, início de negociações de paz, proteção de civis, garantia da segurança das rotas marítimas e respeito estrito à Carta da ONU — uma reafirmação clara do multilateralismo em um momento em que ele vem sendo sistematicamente esvaziado.

Ainda assim, a aparente contradição permanece: palavras firmes, mas ausência de envolvimento militar direto. Para alguns observadores, essa diferença é interpretada como sinal de passividade.

Essa leitura, no entanto, confunde visibilidade com eficácia.

Uma interpretação mais precisa pode ser encontrada no que se poderia chamar de uma “teoria do sinal vermelho” da governança. Progredir, nessa perspectiva, não significa avançar continuamente, mas saber quando parar, quando esperar e quando agir com cautela. Maturidade estratégica não se mede pela velocidade, mas pelo controle.

Sob essa ótica, a abordagem da China em relação ao Irã não é hesitante — é calibrada. Pequim se opõe abertamente às ações dos Estados Unidos e de Israel e apoia a soberania iraniana. Ao mesmo tempo, evita deliberadamente transformar esse apoio em uma aliança militar que ampliaria o conflito e poderia levá-lo a uma dimensão sistêmica.

Contenção, nesse contexto, não é fraqueza. É política.

O que, de fora, pode parecer distanciamento é, na verdade, uma forma de engajamento disciplinado — que busca influenciar os desdobramentos sem ser absorvida por eles.

Essa postura também revela uma concepção mais sofisticada de lealdade estratégica. Ela desafia uma suposição recorrente na política internacional: a de que parceria implica alinhamento automático. A China sugere o contrário. Apoiar um parceiro não significa assumir todos os seus riscos. Significa oferecer respaldo político e diplomático dentro dos limites da legitimidade, preservando ao mesmo tempo a estabilidade do sistema como um todo.

Em um plano mais profundo, essa abordagem dialoga com elementos do pensamento clássico chinês. Na tradição confuciana, yi (retidão) remete à correção moral, enquanto li (propriedade) define a forma adequada de agir. Não basta estar certo — é preciso agir da maneira correta. A ênfase da China na soberania, nos marcos legais e nos procedimentos diplomáticos reflete essa herança intelectual.

De modo semelhante, o conceito taoísta de wuwei — frequentemente mal interpretado como inação — pode ser compreendido como agir de forma eficaz sem forçar resultados que desestabilizem o equilíbrio. Essa ideia remonta ao pensamento de Laozi, figura semilegendária situada entre os séculos VI e IV a.C., tradicionalmente considerada o fundador do daoismo e autor do Daodejing. Seu pensamento exerceu profunda influência sobre a filosofia, a política e a visão de ordem na China, ao sustentar que a ação mais eficaz é aquela que respeita o fluxo das circunstâncias, em vez de tentar dominá-las pela força. A preferência chinesa por diplomacia, coordenação regional e mecanismos de estabilidade econômica, em vez de intervenção militar direta, expressa esse princípio na prática contemporânea.

Do ponto de vista estratégico, essa postura também dialoga com a tradição clássica do pensamento militar. Como observou Sun Tzu, autor de A Arte da Guerra e um dos mais influentes pensadores da estratégia na história, a forma mais elevada de vitória é aquela alcançada sem combate, enquanto o maior erro estratégico é a escalada descontrolada.

Para a China, os riscos vão muito além da posição do Irã. Eles incluem a segurança do fluxo energético global, especialmente pelo Estreito de Ormuz, o risco de fragmentação regional e a possibilidade de envolvimento prematuro em uma confrontação direta entre grandes potências.

Nesse contexto, classificar a política chinesa como “passiva” não é apenas simplificador — é analiticamente equivocado. Pequim não está ausente nem indiferente. Está ativamente engajada, mas em seus próprios termos: privilegiando o controle sobre o impulso, a legalidade sobre o unilateralismo e a estabilidade de longo prazo sobre demonstrações imediatas de força.

A China não ignora o cruzamento. Ela se aproxima dele com cautela.

Não avança o sinal vermelho — mas também não abandona a estrada.


Foto de capa:  Andy Wong / AP

Sobre o autor

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Maria Luiza Falcão
PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É membro da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED). Entre outros, é autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England/USA.

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