Ciência Sem Fronteiras no Sul Global: a cooperação científica Brasil–Nigéria em debate

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Por RONALDO VIEIRA*

Entrevista com a cientista Ligia Passos Obi

Entrevista concedida pela Professora Lígia Passos Maia Obi, pesquisadora da Universidade Federal do ABC ao autor, Ronaldo Vieira, sobre “Cooperação científica Brasil-Nigéria: potencial versus e realidade”, para o LXXI CAE -Curso de Altos Estudos- do Instituto Rio Branco, Ministério das Relações Exteriores, com o tema: “64 anos de Relações Bilaterais Brasil-Nigéria: balanço e perspectivas”, setembro/2025. 


Agradeço, professora, por sua disposição em conceder esta entrevista, que será mito importante para discutir com a comunidade científica sobre política e ciência. Solicito, por gentileza, que a senhora compartilhe informações sobre as atividades desenvolvidas pela Universidade Federal do ABC (UFABC) em colaboração com a Nigéria.

Boa tarde! Agradeço igualmente pela oportunidade de apresentar o que temos realizado e relatar a minha vivência. Iniciando a apresentação, meu nome é Lígia Passos Maia Obi. Atuo como docente na Universidade Federal do ABC, na especialidade de ciência e engenharia de materiais e química. Possuo graduação em química ambiental pela Universidade de São Paulo e obtive meu doutorado em química, também pela Universidade de São Paulo. Considerando meu vínculo com a Nigéria, iniciei minhas interações com o país, em primeiro lugar, por meio de um contato pessoal, uma vez que meu cônjuge é nigeriano; assim, é um território que visito com regularidade. No âmbito da universidade UFABC, há uma vasta disposição para colaborações com diferentes países, independentemente de suas origens, desde que haja interesse mútuo e benefícios para ambas as partes; a universidade demonstra grande receptividade nestes aspectos. Devido à necessidade de estabelecer contatos e à quantidade reduzida de colaboradores disponíveis para atuar nesse tipo de interação internacional, o escritório de relações internacionais depende consideravelmente de docentes que já mantenham algum vínculo com o país em questão, que possuam esses contatos e que demonstrem interesse em que a universidade realize tais conexões. Portanto, sob essa perspectiva, ao considerarmos a Nigéria e eu apresentei essa possibilidade, a receptividade foi bastante positiva.

No que se refere ao projeto em andamento, iniciou-se com visitas acadêmicas realizadas por mim em diversas universidades da Nigéria. Universidades nas quais seria mais viável realizar visitas, considerando os períodos em que já estarei na Nigéria. Trata-se de um projeto que está apenas iniciado e para o qual não há nenhum tipo de recurso financeiro disponível. Realizaram-se visitas a várias universidades, com o objetivo de apresentar a Universidade Federal do ABC. Principalmente, ao dialogar com os indivíduos estratégicos das universidades, manifestaríamos nosso interesse em estabelecer interações, além de explorar as possíveis formas de colaboração e os benefícios envolvidos. A partir dessas visitas, houve uma aproximação maior com indivíduos fundamentais de distintas universidades. Por meio dessa interação com as universidades, divulguei os processos seletivos em andamento na UFABC, os quais eram apropriados para todos os indivíduos, incluindo estrangeiros. Assim, foi divulgado o processo seletivo do programa de pós-graduação em nanociências e materiais avançados, que permite a realização da prova do processo em inglês e a realização da prova de ingresso em local distinto da UFABC, inclusive fora do território nacional. Assim, com base na relação previamente estabelecida com as universidades, tornou-se viável organizar a aplicação da prova, uma vez que já contávamos com contatos e pessoas de confiança dentro das instituições. Dessa forma, a prova pôde ser realizada para candidatos localizados na Nigéria, resultando na seleção de cinco participantes que se destacaram, obtendo bolsas institucionais. O próximo passo consistiu na continuidade das ações de divulgação dessas oportunidades e na manutenção do contato com as universidades nigerianas. Assim, a etapa seguinte foi ponderar e debater sobre a construção de uma relação mais robusta, que transcendesse um mero processo seletivo de alunos que transitam de uma instituição de ensino superior para outra. O objetivo era estabelecer uma colaboração efetiva, não apenas recebendo estudantes da Nigéria, mas também promovendo ações conjuntas. Um aspecto central desse processo foi um evento realizado no final do ano de 2024 na Embaixada do Brasil na Nigéria, que ocorreu de maneira híbrida e contou com a participação de universidades nigerianas e brasileiras. Além de apresentar as instituições, foram discutidas diversas possibilidades de colaboração que beneficiariam ambas as partes. Simultaneamente, elaboramos acordos de colaboração.

Atualmente, já existe um acordo de cooperação formalizado, e agora elaboraremos outro que contemple detalhes voltados para o intercâmbio. A expectativa é que, com esses acordos, estejamos mais capacitados para obter financiamento para pesquisas internacionais, como, por exemplo, aquelas relacionadas a redes de cooperação sul-sul. Podemos demonstrar que já possuímos vínculos estabelecidos e, considerando que a maioria das oportunidades para projetos se abrem e se fecham rapidamente, é necessário ter algo previamente definido para facilitar conversas e direcionar o andamento, além de já contarmos com projetos que possamos desenvolver em conjunto para aproveitar essas oportunidades, correto? Portanto, já estamos inclusos em um pedido de financiamento para pesquisa, no qual sou considerada colaboradora de um grupo de pesquisa dessas instituições de ensino superior. Assim, acredito que há potencial para aprofundar e expandir essas iniciativas.

Professora Lígia, de que forma a senhora analisa a relevância do estudo do passado para a edificação do futuro? De que maneira as inovações do século XXI podem tirar proveito das experiências e conquistas do passado? Qual a importância de promover o desenvolvimento do conhecimento científico em parceria com a Nigéria?

 
A inovação, compreendida de maneira aprofundada e com base em um conhecimento histórico, não se caracteriza como uma ação de ruptura total, mas sim como um processo incessante que se nutre do passado para vislumbrar o futuro. A concepção de que o novo emerge do nada é, na verdade, um mito contemporâneo: cada descoberta científica, cada inovação tecnológica e cada mudança social fundamentam-se em camadas de saber acumulado, tradições antigas, observações coletivas e experiências transmitidas por diversas gerações. Em todas as sociedades, a memória científica — tanto a formal quanto a informal — atua como um repositório de métodos, intuições e soluções que foram previamente avaliadas em relação a desafios análogos aos que enfrentamos atualmente. Diversas respostas atuais surgem precisamente da habilidade de reinterpretar conhecimentos ancestrais, de analisar como nossos antecessores estruturaram a vida tanto material quanto simbólica, e de reconhecer que a criatividade humana constantemente se relaciona com o que foi concebido anteriormente. Assim, inovar não se limita a criar algo novo; implica também em reconhecer, valorizar e reorganizar o saber acumulado ao longo dos séculos, convertendo-o em uma base robusta para conceber soluções sustentáveis e inclusivas para o porvir.
Em resposta à segunda indagação, direcionarei minha atenção para a parte que questiona: “por que é importante fomentar o desenvolvimento do conhecimento científico em colaboração com a Nigéria?”. Além das conexões históricas que ambos os países compartilham, essas relações se tornam algo admirável, por assim dizer, ao se reunir para realizar atividades em conjunto. Sendo mais inclinada à área das ciências exatas, observo que diferentes países se encontram em distintos estágios, especialmente no que tange ao desenvolvimento científico, apresentando tanto aspectos positivos quanto fragilidades. Dessa forma, ao interagirmos com outras nações, temos a oportunidade de que uma fraqueza de um país seja compensada pela força de outro. De modo geral, é possível observar uma intersecção entre pontos fortes e fracos que contribui para a viabilidade de uma colaboração científica. Na Universidade Federal do ABC (UFABC), há como facilidades na área de Ciências Exatas uma infraestrutura de equipamentos de qualidade, por exemplo. Um dos nossos pontos vulneráveis é o baixo valor das bolsas de estudos, que não se apresenta como atraente para muitos alunos. Numerosos alunos estão concluindo sua graduação, estando, há 1, 2 ou 3 anos no mercado de trabalho, com uma remuneração que, para eles, não justifica a interrupção de suas atividades profissionais para obter uma bolsa para realizar um mestrado ou um doutorado. Excetuando-se os estudantes que realmente desejam prosseguir e possuem plena certeza de seu interesse pela esfera acadêmica, estes, na maioria das vezes, não se afastam, ingressando diretamente na vida acadêmica científica desde a graduação. Conforme observado, frequentemente há escassez de alunos interessados, o que se torna um entrave, pois enfrentamos dificuldades em obter bolsas institucionais, além de encontrarmos obstáculos para que essas bolsas sejam efetivamente utilizadas na referida solicitação. Há uma demanda moderada por estudantes e, ao mesmo tempo, é necessário contar com indivíduos que possuam um conhecimento aprofundado e estejam preparados para a pós-graduação. A realidade observada na Nigéria revela um expressivo interesse pela pós-graduação entre a população, que dispõe de um conhecimento avançado, enquanto, frequentemente, se encontra em ambientes com infraestrutura significativamente inferior àquela disponível em outras regiões. Em ambas as partes, existe a dificuldade em obter financiamentos; no entanto, diversos financiamentos reconhecem a importância da colaboração internacional. Alguns deles estão começando a prestar atenção nessa interação sul-sul. Assim, ao colaborar, existe um potencial de vantagem ligeiramente maior para esse tipo de convocação, uma vez que, ao trabalharmos em conjunto e considerando as dificuldades de cada parte, surge a possibilidade de contar com um maior número de alunos dispostos a participar de projetos colaborativos. Além disso, é viável estabelecer uma estrutura que possa proporcionar melhor sustentação para a pesquisa desenvolvida em conjunto por ambas as partes. É possível que estudantes realizem procedimentos conduzidos no exterior, e, ao serem enviados ao Brasil, possam efetuar as análises que não possuem disponíveis em seu local de origem.

Outro aspecto pertinente é que os países africanos já possuem uma rede de colaboração bastante internacionalizada. Assim, ao iniciarmos a cooperação com essas universidades, somos integrados a essa rede colaborativa. No Brasil, existem colaborações principalmente com a Europa e a América do Norte, enquanto os nigerianos, além dessas, mantêm fortes relações com a África do Sul e a China. Ao estabelecermos contato com universidades nigerianas, unimos essas conexões, formando redes de pesquisa que se revelam complementares. Trata-se de uma vantagem para ambas as partes. Ao refletir sobre a tendência dos brasileiros em buscar colaboração internacional com instituições acadêmicas dos Estados Unidos e da Europa, vejo que é importante ressaltar que frequentemente estamos em uma posição em que se espera que essas instituições nos auxiliem na execução de nossos projetos, em vez de estarmos inseridos como participantes significativos em iniciativas que estejam sendo desenvolvidas em conjunto de fato. Ao estabelecer interações com países africanos, incluindo a Nigéria, no contexto apresentado, surge a possibilidade de uma interação internacional com um papel consideravelmente mais significativo em comparação às relações mantidas com os países do Norte Global, caracterizando-se por uma atuação mais proeminente. Além disso, há a oportunidade de contribuir em iniciativas menores que estão sendo desenvolvidas por esses países. Isso resulta em uma multiplicação de nossas atividades, beneficiando ambas as partes envolvidas. Assim, sob a perspectiva da relevância, observamos que a interação se torna consideravelmente mais significativa quando estabelecemos relações com esses países. Além disso, os nigerianos têm se mostrado bastante proativos. Não afirmo que não somos proativos, mas, ao interagirmos com outras pessoas, é bastante proveitoso estabelecer conexões com grupos que são dinâmicos, os quais possuem diversas organizações ativas e bem organizadas.

Qual é a sua avaliação sobre o perfil profissional dos alunos e pesquisadores nigerianos com os quais você e sua equipe têm colaborado?

Acabei por responder à questão 3, enquanto comentava sobre a questão 2. Dessa forma, o perfil dos profissionais apresenta diversidade. Existem desde estudantes com pouca experiência, motivados a interagir, até pesquisadores com vasta vivência e grande capacidade de articulação. Independentemente do nível de experiência, foco e determinação têm sido sempre parte do perfil. Os alunos selecionados para os cursos de pós-graduação em nanociência já eram docentes em suas respectivas universidades de origem. Assim, eram indivíduos com maior vivência e um elevado nível técnico, contudo com experiência prática limitada. Ao nos depararmos com pesquisadores que possuem um maior tempo de atuação, observa-se um o perfil com experiência prática, resultante de suas vivências em diversos laboratórios, principalmente no exterior. Estes, atualmente, exercem a função de pesquisadores na Nigéria e se destacam pela habilidade de articulação que adquiriram nesse percurso.

Ronaldo Lima Vieira

A percepção que os brasileiros possuem sobre a África, e especificamente sobre a Nigéria, é fortemente moldada por estereótipos. Esses estereótipos frequentemente ressaltam aspectos negativos, como a pobreza e os conflitos, deixando de lado a diversidade cultural, a riqueza histórica, a produção de cientistas e as contribuições significativas que o país oferece. Além disso, a representação da Nigéria na mídia tende a reforçar essas visões limitadas, o que pode resultar em uma compreensão distorcida e superficial do país. Assim, a forma como os brasileiros veem a Nigéria é amplamente influenciada por generalizações que desconsideram a complexidade e a pluralidade da realidade nigeriana. Quais seriam esses estereótipos? De que maneira esses estereótipos promovem ou impedem que os brasileiros formem vínculos com a Nigéria?

Quanto aos estereótipos, observa-se que há uma percepção entre os brasileiros de que o continente é marcado pela pobreza. Como não mantemos contato com a ciência que está sendo desenvolvida naquele local, não nos ocorre ponderar sobre eventuais vantagens ou a existência de pesquisas relevantes que ali estejam sendo realizadas, tampouco sobre a presença de pesquisadores experientes atuando nesse ambiente. Portanto, não se considera que há um estereótipo relacionado à ciência, isto é, a percepção de que este é um espaço considerado subdesenvolvido. Por essa razão, parece não haver uma concepção de ciência na África que vá além de uma visão estereotipada. Assim, não ocorre com frequência a ideia de uma interação com as nações do continente africano. Portanto, considero que essa perspectiva impacta de forma prejudicial, uma vez que resulta na ausência de uma abordagem madura para a cooperação com países do continente africano. Quais são os aspectos interessantes que estão se desenrolando na UFABC? A existência de uma abertura, ou seja, caso um professor identifique algum aspecto que seja relevante, estamos dispostos a considerar essa possibilidade e explorar as opções disponíveis. Iniciamos a exploração das possibilidades e começamos a nos familiarizar com o que existe, não é verdade? Familiarizar-se com os pesquisadores, certo? Apreender a mentalidade, bem como as peculiaridades do que conhecem e do conhecimento que produzem, entre outros aspectos. Assim, após romper a primeira barreira e iniciar o processo de conhecimento, uma perspectiva acaba sendo formada, sendo esta, mais realista, por sua vez.

Ronaldo Lima Vieira

Quais seriam as recomendações para aprimorar os intercâmbios bilaterais?

No que diz respeito aos intercâmbios bilaterais, é imprescindível que se prossiga com a investigação acerca das contribuições que cada parte pode proporcionar. A isso chamo de política científica. O que observo é que a troca não ocorrerá necessariamente de forma equivalente, assim, o primeiro passo é compreender os ganhos, as necessidades e os interesses de cada parte, a fim de estabelecer intercâmbios que não sejam, necessariamente, equivalentes para ambos os lados, mas para que o benefício seja otimizado para ambas as partes. Considero necessária uma relação mais robusta entre os agentes que fornecerão suporte para tal proposta. Acredito que a função da embaixada é fundamental nesse aspecto, pois, ao restringir-se apenas ao diálogo entre uma universidade e outra, ainda que seja possível alcançar resultados, porém limitados.

Um aspecto importante é a contínua atenção e debate sobre os benefícios de cada parte. Por exemplo, se uma universidade brasileira inicia um processo seletivo destinado à pós-graduação, é necessário refletir sobre quais serão os ganhos técnicos, culturais, entre outros, para a universidade nigeriana que motiva um de seus integrantes, seja aluno, professor ou pesquisador, a realizar um curso no Brasil. O ganho técnico é mais simples de mensurar, uma vez que existe uma lista das disciplinas disponíveis, lista de professores e respectivas linhas de pesquisa, etc, mas além disso há a oportunidade de interagir com indivíduos de outros países e vivenciar uma nova cultura, sendo assim, há um acréscimo cultural relevante, especialmente dada à ligação histórica com o Brasil.

A questão logística também é importante. Creio que ainda precisamos dialogar mais a respeito. Quais são, de fato, as condições que garantem a segurança na Nigéria, ou como identificar momentos seguros para estar em cada localidade na Nigéria, e quais são as informações imprescindíveis para um estudante brasileiro que se dirige à Nigéria? No Brasil, quais são os requisitos para que um estudante chegue ao Brasil e se mantenha seguro no país, dada a criminalidade nos grandes centros? É fundamental identificar quais indicadores devem ser analisados para termos algum tipo de protocolo de segurança e recomendações formais do governo brasileiro (e nigeriano também) quanto a segurança de cada localidade em ambos os países e isso de forma realista.

No que diz respeito ao enriquecimento cultural, seria extremamente benéfico que os brasileiros experimentassem a verdadeira realidade africana, e não apenas por meio de relatos. Tal vivência representaria um avanço significativo para as diretrizes contemporâneas da educação, as quais buscam integrar o tema África em diversos aspectos do ensino, incluindo o âmbito científico. De maneira geral, considera-se que ainda é necessária uma quantidade significativamente maior de diálogo para compreender os potenciais e os problemas a serem superados.


Qual é a sua perspectiva sobre o que os brasileiros podem aprender com os nigerianos?

Em relação ao que os brasileiros podem assimilar dos nigerianos, ao considerarmos o aspecto das competências comportamentais, é pertinente destacar a atitude e a determinação. Ao mencionar postura, refiro-me ao ato de reconhecer e valorizar a si mesmo. Os nigerianos não apresentam a “síndrome do vira-lata” que, muitas vezes, é característica de nós brasileiros. Acredito que os brasileiros têm muito a aprender com os nigerianos no que diz respeito à autovalorização, à confiança no conhecimento adquirido e à valorização da educação recebida nas universidades. Nossa formação acadêmica é de alta qualidade; portanto, essa atitude de reconhecer o próprio saber, manter uma postura erguida e demonstrar coragem é um aspecto que podemos aprender consideravelmente com eles. Ao considerarmos um enfoque mais técnico, muitas ações têm sido realizadas por eles nas quais não possuímos experiência suficiente. Sob essa perspectiva, aqueles que detêm maior conhecimento prático tendem a ensinar, transmitir e compartilhar suas experiências de maneira mais eficaz.

Além da indagação sobre o que os dois lados podem obter como benefícios? No Brasil há professores e pesquisadores que se encontram em diversos níveis de suas trajetórias profissionais. É bastante recorrente que as oportunidades de cooperação internacional se tornem viáveis apenas para pesquisadores que já possuem uma carreira consolidada, ou seja, aqueles que apresentam um elevado número de publicações e um currículo excepcional. O que não corresponde à realidade de todos os pesquisadores brasileiros, uma vez que não se encontram no mesmo nível e não tiveram acesso às mesmas oportunidades. Esse modelo de cooperação internacional se revela consideravelmente mais acessível do que a tentativa de o pesquisador estabelecer uma interação com países mais desenvolvidos de forma independente. Além disso, trata-se de uma chance de obter exposição e visibilidade no cenário internacional e de colaboração em âmbito global mesmo antes da aprovação de um projeto de colaboração internacional. Portanto, trata-se de uma ocasião propícia para o desenvolvimento.

A Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) foi criada com o propósito de fortalecer os laços acadêmicos e culturais entre centros acadêmicos do Brasil e dos países africanos de língua portuguesa, promovendo intercâmbios, projetos conjuntos e formação universitária transnacional. Além da UNILAB, existem diversos institutos e centros de pesquisa no Brasil — vinculados a universidades públicas e fundações — que têm como missão articular redes internacionais de pesquisa em ciências humanas, com especial atenção às relações Sul-Sul e à produção de conhecimento em parceria com instituições africanas.

Nesse contexto, professora, gostaria de saber se existe atualmente uma rede estruturada de comunicação entre universidades e centros de pesquisa científica brasileiros com o objetivo de fomentar colaborações científicas e transferências de tecnologias com universidades e pesquisadores africanos, especialmente voltadas às ciências exatas e da natureza, que é a sua área?

Ainda não, mas é urgente! É possível destacar diversas vantagens de uma rede interna brasileira de instituições voltadas para países africanos. Primeiramente, essa rede pode promover o intercâmbio de conhecimentos e experiências, facilitando a transferência de tecnologias e a implementação de práticas eficazes em áreas como saúde, educação e infraestrutura. Além disso, ao fortalecer parcerias, é viável criar programas conjuntos de capacitação e desenvolvimento que atendam às necessidades específicas dos países africanos. Outra vantagem significativa seria o fortalecimento de laços diplomáticos e comerciais entre o Brasil e os países africanos, potencializando investimentos e iniciativas de cooperação mútua. Essa colaboração também pode contribuir para a promoção da cultura e valores, promovendo um entendimento mais profundo entre as sociedades. Ademais, a criação de uma rede interna permite a mobilização de recursos e esforços conjuntos para enfrentar desafios globais, como a mudança climática e a erradicação da pobreza. Por fim, uma abordagem cooperativa pode proporcionar visibilidade internacional ao papel do Brasil como um parceiro estratégico no desenvolvimento sustentável do continente africano.

No que diz respeito à rede, até o presente momento, conforme meu conhecimento, ainda não existe uma rede de contatos voltada para a colaboração com países africanos. O encontro ocorrido a respeito da educação, no final do ano, gerou a proposta de conectar os participantes. Esse processo está em andamento, contudo, ainda carece de uma estrutura mais definida. Entretanto, acredita-se que uma rede proporcione a disseminação mais ágil das informações sobre oportunidades, além de facilitar as interações para a identificação de afinidades. Com isso, os membros dessa rede estariam significativamente mais preparados para as oportunidades que possam surgir. Recordo-me do momento em que iniciei minhas visitas às universidades nigerianas; os representantes das universidades ficavam surpresos, questionando, por assim dizer, o que eu estava realizando ali. Iniciei essas interações com o intuito de compreender melhor o território. Eu não estava obtendo nenhuma vantagem, e, por isso, eles ficaram bastante cautelosos. Acredito que possuir uma rede facilita a demonstração das vantagens, proporcionando um ambiente de maior segurança e confiança, além de ser estratégico para a realização de tomadas de decisões mais ágeis.

Professora, há ciência de ponta sendo produzida na Nigéria ou por nigerianos? Os projetos internacionais podem se beneficiar da produção de conhecimento nigeriano já acumulado?

Sim, há produção científica de alto nível feita por nigerianos — e isso ocorre de duas maneiras complementares. Em primeiro lugar, muitos pesquisadores nigerianos atuam em instituições de ponta ao redor do mundo e mantêm colaborações contínuas com universidades e centros de pesquisa, inclusive quando permanecem na Nigéria. Em segundo lugar, embora a infraestrutura científica dentro da Nigéria seja desigual, existem equipamentos, laboratórios e grupos de excelência que, articulados a redes internacionais, conseguem produzir pesquisa de grande impacto. Na verdade, há muita falta de informação a respeito da ciência e dos cientistas nigerianos.

Ronaldo Lima Vieira

No entanto, quando falamos em “pesquisa de ponta”, é importante observar que, salvo em temas muito específicos da realidade nigeriana, não faz sentido tratar o conhecimento científico como algo estritamente “nacional”. Assim como ocorre em outras partes do mundo, a ciência produzida na Nigéria hoje é profundamente globalizada: utiliza literatura internacional como base, dialoga com agendas científicas amplas e publica em periódicos de circulação global.

Por isso, acredito que o valor dos projetos internacionais não está apenas no acesso ao conhecimento já produzido por pesquisadores nigerianos, mas sobretudo no que pode ser criado conjuntamente. Temas de interesse mútuo, problemas compartilhados e a riqueza das diferentes experiências e projetos científicos tendem a gerar contribuições mais relevantes do que a simples busca por um “estoque” de conhecimento nacional. A diversidade de perspectivas é, nesse sentido, um ativo fundamental para qualquer colaboração científica internacional.

Muito obrigado, professora Ligia. Para concluir a entrevista, a senhora. gostaria de fazer algum comentário adicional ou apresentar sugestões relacionadas à política externa brasileira em relação à Nigéria no século XXI?

Embora as atividades de colaboração científica já realizadas sejam pequenas, elas têm gerado resultados significativos. Até o momento, aproximadamente dez alunos estão a caminho da UFABC, frutos de uma iniciativa relativamente modesta. Além disso, a ação Fara-Faubai, que possui maior abrangência e envolve o TEtFund, também teve participação no evento promovido no final do ano, demonstrando que essas ações, ainda que pontuais, têm proporcionado resultados consideráveis. Portanto, considera-se que, caso a política externa do Brasil reconheça esse potencial, poderá haver um incremento no suporte disponível, gerando um maior número de ações que contribuirão para a multiplicação dos frutos que já começaram a surgir. É fundamental, inicialmente, reconhecer que existem oportunidades proveitosas para ambas as partes, assim como a possibilidade de uma interação autêntica entre elas. Esse reconhecimento proporcionará a motivação necessária para o governo brasileiro e àqueles que atuam no Consulado e na Embaixada dedicarem maior de atenção a tais ações, reforçando o suporte a essas iniciativas.

A embaixada e o consulado desempenham um papel fundamental na facilitação de projetos, na articulação de pesquisadores, na cooperação entre universidades e na organização de conferências com instituições brasileiras similares, na promoção de intercâmbios acadêmicos e de outras parcerias estratégicas, contribuindo assim para o avanço do conhecimento e a troca de experiências entre os dois países. Essa mediação é crucial para a construção de redes de pesquisa, a promoção de inovações e o desenvolvimento de soluções para desafios comuns, o que se reflete positivamente na formação acadêmica e na produção científica.

Constata-se que a diplomacia é uma atribuição de grande relevância, uma vez que proporciona uma fundamentação robusta para a interação. Quando há suporte do governo federal, a Universidade Federal da ABC, por ser uma instituição pública, será reconhecida, pois sua criação foi iniciativa do próprio governo, e além de ser reconhecida, ela é vista como confiável e a relação entre as instituições se torna significativamente mais segura, tanto para a instituição brasileira quanto para a instituição estrangeira. Ao chegar e me apresentar, sou a professora Lígia, representante do escritório de relações internacionais da Universidade Federal da ABC. A minha chegada e apresentação possuem um significado limitado. Porém, com o respaldo do representante do governo brasileiro, a Universidade Nigeriana tenderá a confiar mais nas iniciativas de aproximação. O evento para promover a interação entre as duas universidades teve sua parte física realizada na Embaixada do Brasil em Abuja. Sem dúvida, se não tivesse ocorrido na Embaixada, ou na ausência de sua participação, as universidades não teriam a segurança necessária para se envolver ou para considerar a relevância de participar. Portanto, considero que a Embaixada e o Consulado têm papel fundamental no estabelecimento de uma fé mútua.  

Adicionalmente, a confiança não se restringe apenas às universidades, mas também abrange diversos órgãos que integram, ou podem integrar essa interação e que são cruciais para a interação, como os ministérios da educação, os órgãos de fomento e grupos com foco na internacionalização no ensino superior.

É sabido que existem numerosos problemas a serem solucionados e que a equipe disponível é reduzida, o que faz com que questões consideradas menos urgentes acabem sendo negligenciadas. Mas trabalhando em conjunto, universidades, institutos de pesquisa, Ministério da Educação, CAPES com o Ministério das Relações Exteriores, tanto a sede em Brasília, quanto o Consulado-Geral do Brasil, em Lagos e a embaixada do Brasil em Abuja, estou segura que poderemos, como países em desenvolvimento, garantir uma agenda científica prolífica e proveitosa para ambos os países.


*Lígia Passos Maia Obi é docente na Universidade Federal do ABC, graduada em Química Ambiental e possui doutorado em Química pela Universidade de São Paulo, tendo realizado parte de sua formação na Universidade de Nottingham, na Inglaterra e pós doutorado na Universidade de Liège, na Bélgica. Possui expertise em Química Verde, utilizando o dióxido de carbono tanto como solvente quanto como reagente, além de experiência em Polímeros, com foco na investigação de materiais multifuncionais.

*Ronaldo Vieria é diplomata de carreira, mestre em Relações Internacionais e Mestre em Análise do Discurso.

Foto de capa: Ronaldo Lima Vieira

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