Celso Amorim para ajudar a entender o mundo em carne viva

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O primeiro trimestre de 2026 registra acontecimentos sem precedentes na história recente da política internacional. Em curto espaço de tempo os Estados Unidos, por um lado, sequestrou o presidente venezuelano Maduro, na Venezuela e assassinou o chefe de Estado do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Por outro, ameaçou tomar a Groenlândia, território que pertence à Dinamarca e articula uma reorganização da governança global sob sua liderança e orientada pelo princípio da força. A esses episódios somam-se outras violações de soberania nacional e territorial, como o crescente cerco a Cuba e a continuidade do genocídio na Palestina.

Analisar essa conjuntura de acirramento bélico e profunda incerteza foi objeto de entrevista de Maria Sikorki e Hugo Fanton, com Celso Amorim, reconhecido internacionalmente por carreira diplomática e de homem público.

O conteúdo e a forma como o Amorim analisa a confusa conjuntura internacional, contribuem para seu entendimento de maneira mais orgânica do que é permitida pelo acompanhamento do noticiário nos grandes veículos de comunicação e nas redes sociais. A seguir algumas reflexões trazidas na entrevista.

. Os ataques ao Irã, bem como a resposta iraniana à ofensiva dos Estados Unidos e de Israel, representam um agravamento significativo das tensões regionais em um contexto internacional já marcado por graves instabilidades. Em um curto intervalo, passou-se de sinais de progresso em conversas indiretas a uma operação militar de grande escala. As consequências dessa dinâmica ainda são difíceis de mensurar, mas é pouco plausível supor resultados rápidos ou de baixo custo, considerando as dimensões demográficas, históricas e políticas do Irã.

. O assassinato de um chefe de Estado ou de governo constitui uma violação grave do direito internacional. Geopoliticamente, o deslocamento do conflito para o plano da eliminação de lideranças tende a ampliar a instabilidade. No plano diplomático, compromete as possibilidades de interlocução ao abalar a confiança entre as partes.

. Considero o sequestro de Maduro e o assassinato do aiatolá Ali Khamenei injustificáveis. É uma violação do direito internacional em seu sentido mais antigo, do direito das gentes.

. É possível buscar brechas, promover mudanças graduais, tentar influenciar os acontecimentos, mas não se pode ignorar a realidade. A questão é como lidar com ela, e esse é um desafio para o qual ainda não temos uma resposta plenamente definida.

. A ausência de uma reação mais firme do sistema multilateral está ligada ao fato do próprio sistema multilateral ter sido moldado ao final da Segunda Guerra Mundial em torno das grandes potências vencedoras. Ele continua condicionado por essa estrutura. Cada uma delas atua até o limite de seus próprios interesses. Nenhuma está disposta, ao menos por enquanto, a assumir o risco de um confronto direto com os Estados Unidos que ainda é a maior potência militar do mundo.

. Vivemos em um mundo muito difícil. Há duas décadas, eu dizia que vivíamos em um mundo de oportunidades. Hoje, vivemos em um mundo de dificuldades. Essas dificuldades se intensificaram significativamente diante da crueza que passou a marcar a política externa norte-americana recente.

. O Brasil tem que continuar trabalhando pela multipolaridade e deve manter boas relações com os Estados Unidos. Mas não pode, ao mesmo tempo, deixar de cultivar relações sólidas com a China, com a Rússia, com outros países. Inclusive porque, para fazer ponderações, é necessário preservar canais de diálogo com todos os lados.

. Vivemos uma realidade com aspectos profundamente negativos, mas também um momento em que as tensões aparecem sem mediações. É um mundo em carne viva. Talvez nunca tenhamos experimentado uma situação internacional tão desnuda, e isso, ao mesmo tempo que aumenta os riscos, também elimina ilusões sobre o funcionamento real da política internacional. É um mundo sem ilusões.

. O Brasil deve continuar contribuindo para a construção de uma ordem internacional multipolar mais equilibrada, capaz de permitir relações externas baseadas na autonomia e não em alinhamentos ideológicos automáticos. Talvez seja esse o caminho: combinar capacidade dissuasória com atuação diplomática em favor de um sistema internacional mais aberto e cooperativo. Agora, se me perguntarem se há garantias de sucesso, a resposta honesta é não. Não há certezas. Estamos lidando com um momento histórico profundamente incerto.

. Tenho a percepção—ainda que possa estar enganado—de que os Estados Unidos tratam o Brasil com certo grau de cautela, em razão de sua dimensão territorial, populacional e potencial econômico e energético. Precisamos ter plena consciência desse lugar. O Brasil não pode adotar uma política externa marcada, como se disse no passado, por ‘vira-latismo’.

. Independentemente das simpatias ou discordâncias políticas que se possa ter, a trajetória histórica de Cuba é própria: houve uma revolução, os invasores foram expelidos. Pode-se discutir, e muitos discutem, os erros e limitações do sistema político que se consolidou a partir dali. Mas não é matando um povo de fome com sanções e isolamento que a situação política será alterada.

. O Brasil é um país ocidental e também é um país do Sul. Em última instância, nossa orientação deve ser guiada pelos interesses nacionais em cada circunstância concreta. Em algumas questões, votaremos ao lado dos Estados Unidos; em outras, poderemos convergir com a China. Essa é a lógica do não alinhamento ativo.

. A questão da desdolarização pode estar relacionada ao BRICS, mas não se limita a ele. Uma moeda internacional é, essencialmente, uma questão de confiança. Quando surge a percepção de que essa moeda pode ser utilizada como instrumento político, seja para fins próprios, seja para restringir transações entre terceiros, os países naturalmente começam a buscar alternativas.

. A própria erosão das regras internacionais contribui para esse movimento. Não é possível fragilizar seletivamente normas do sistema internacional e, ao mesmo tempo, esperar que a confiança nas instituições, inclusive monetárias, permaneça intacta. A forma como sanções e instrumentos financeiros vêm sendo utilizados tende inevitavelmente a afetar a percepção de segurança associada ao dólar.

. Caminhamos para uma ordem mais multipolar. O grande risco é que essa multipolaridade venha a se confundir com uma lógica de áreas de influência. Isso é algo que o Brasil não pode aceitar. Um país com relações econômicas diversificadas—cerca de 35% do comércio com a China e pouco mais de 12% com os Estados Unidos—não pode ser enquadrado dentro de uma esfera exclusiva de influência.

. O Brasil não pode ser reduzido a uma identidade geopolítica única. Somos parte do Sul global, embora profundamente marcados por múltiplas influências culturais—europeias, africanas, indígenas, árabes, entre outras. A política externa brasileira precisa refletir essa pluralidade e preservar autonomia de julgamento, evitando reproduzir visões importadas que não correspondem plenamente à nossa realidade histórica e social.

. Em um eventual cenário de tensão internacional entre terceiros, no qual o acesso a minerais estratégicos brasileiros se torne relevante, o país deve ser capaz de defender seus interesses e sua soberania. Esse é apenas um exemplo, mas ilustra um ponto mais amplo: defesa nacional, desenvolvimento tecnológico e segurança econômica passaram a ser dimensões inseparáveis.

A entrevista completa pode ser acessada aqui.


Foto de capa: BBC News Brasil

Sobre o autor

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Arlindo Villaschi
Professor de Economia.

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