Enfim, ela, a praia

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“Eu sei o que eu tenho que fazer agora. Eu tenho que continuar respirando, por que quem sabe o que a maré me trará amanhã?” Chuck Noland, interpretada por Tom Hanks, na cena final do clássico Náufrago (2000), após anos isolado em uma ilha deserta.

Caminho pela praia de Cidreira. O meu olhar contempla a vastidão do mar.  Por que ele nos fascina? Lembro das cenas de cinema em que os personagens se impressionam quando veem pela primeira vez o mar.  A imagem mais remota que tenho de uma praia é a do filme que assisti na infância na sessão da tarde, o fundo da famosa cena envolvendo Burt Lancaster e Deborah Kerr do filme A um Passo da Eternidade, dirigida por Fred Zinnemann em 1953. Os personagens não estavam contemplando as areias da praia maravilhosa de Halona Cove, no Havaí, estavam se beijando apaixonadamente deitados nela enquanto as ondas do mar os cobriam.  Entrou para a história. Assim, a primeira praia que vi no cinema foi como pano de fundo. Eu ainda estava na infância, então estava mais atento à praia do que ao beijo, e não conhecia nenhuma praia como aquela.

Pesquiso na internet e descubro que Halona Cove é conhecida como Eternity Beach ou Cockroach Cove, uma pequena praia pitoresca no sudeste de Oahu, Havaí, assim como Cidreira é conhecida como Princesinha do Mar. Penso, entretanto, que elas não são tão diferentes entre si, já que tanto Cidreira como Halona Cove compartilham uma areia dourada fina, ainda que os únicos penhascos íngremes que tenho de atravessar são os que contornam o valão da Rua Parque V quando chega à praia, verdadeiros penhascos que os passantes precisam atravessar com cuidado. E é claro, raramente temos a água turquesa de Halona Cove, variando a água de Cidreira, nos dias bons, de azul celeste e, nos dias normais, ao famoso chocolatão. Tanto Cidreira como Halona Cove têm espaços ideais para fotos, com ondas fortes e correntes que em alguns pontos as tornam perigosas, como qualquer outra praia; ambas têm piscinas de maré, como também ambas são frequentadas por peixes à beira-mar; ambas atraem aves marinhas, ainda que raramente, sejam vistas baleias como em Halona Cove, ainda que algum pinguim possa vir a falecer nas áreas de Cidreira.   Não se pode ter tudo, mas se você pensar bem, a praia do famoso beijo cinematográfico tem muito de Cidreira e não tem salva-vidas, como leio no site turístico da região (disponível aqui). Cidreira ao menos tem no verão. Ponto para Cidreira, meu caro Burt.  ,

Praias de cinema

Por sua beleza, as praias são regiões quase míticas e, por isso, muitos filmes mostram a sensação de estar nelas. François Truffaut, em Os 400 Golpes, de 1959, conta a história do protagonista Antoine Doinel, um adolescente rebelde de Paris, que foge de um centro de observação juvenil e corre até o mar, que sempre sonhou ver. A sequência final mostra-o chegando à praia, tocando a água e olhando diretamente para a câmera em uma imagem. Mario Handler, em Uruguai, de 1973, mostra um grupo de moradores rurais de Minas que viaja de caminhão para o litoral pela primeira vez, culminando na emocionante visão do oceano. A cena central revela suas histórias autênticas durante a jornada e o encontro com o mar, adaptando assim um conto de Juan José Morosoli. Danny Boyle, em A Praia, de 2000, mostra Richard, interpretado por Leonardo DiCaprio, emergindo com amigos da selva tailandesa numa praia paradisíaca isolada com águas turquesas e falésias.

Em todos estes filmes, olhar o mar é um momento de puro êxtase, que acontece normalmente após uma jornada exaustiva, com trilha sonora etérea intensificando o impacto visual. Chegar as praias gaúchas também exige uma longa jornada e quando comecei minha jornada para ver o mar de Cidreira, não havia som algum, exceto das ondas e do vento. Era, assim, quase puro silêncio. Foi assim na Cidreira de minha adolescência, quando ia à casa de minha amiga sorridente e de meu colega explorador e, é claro, abomino o barulho da praia atual consumida no verão, regada a cerveja e caixas de som alto na beira do mar, preferindo a do inverno, muito mais calma silenciosa. O oceano, para mim, é lugar de contemplação, como é minha piscina, como já relatei em RED. Não há como comparar a cena de James Cameron, em Titanic, de 1997, onde Kate Winslet é a personagem Rose que experimenta o mar da proa do navio na cena que todos conhecemos e que representa liberdade com a imagem de quando tentei fazer o mesmo do alto de um Dindinho em Tramandaí durante o Carnaval: o vento que sopra nos cabelos da personagem foi substituído por lança-perfume na minha careca projetado por algum cidadão já bêbado do outro lado da rua. Nem sempre dá para fazer comparações do cinema com a praia, o que lamento.

A diversidade de praias

Ver o mar pela primeira possui interpretações diferentes na filosofia, psicologia e sociologia porque representa um encontro com o desconhecido e o sublime. Você olha o mar em silêncio e seu lado filósofo lembra da noção de sublime de Kant. O sentimento estético de que o mar é sublime surge, diz Kant, sempre quando estamos diante de objetos ou fenômenos da natureza que desafiam nossa imaginação por sua imensidão absoluta. Tenho a mesma sensação quando, à noite, olho com minha esposa o céu límpido de Cidreira. Ele é sublime pois é diferente do céu urbano, mais acinzentado pela poluição: em Cidreira, você pode ver mais estrelas. Minha esposa me aponta a constelação Cruzeiro do Sul, a mesma que via em sua adolescência no bairro Jardim Botânico e que só voltou a ver em Cidreira. Sublime é uma definição, entretanto, contraditória, já oculta também uma sensação de desprazer: o mar é sublime, mas tememos que ele avance nos dias de tempestades exatamente como os gauleses dos quadrinhos Asterix que lia na infância, de Goscinny & Uderzo, temiam que o céu caísse sobre suas cabeças. O poder esmagador do mar já se manifestou em Cidreira em dias de grandes ressacas, quando destrói tudo na faixa de praia e ficamos a imaginar, em tempos de aquecimento climático, que mesmo a casa a seis quarteirões do mar algum dia será invadida por um tsunami, nos restando apenas o colchão inflável da piscina como refúgio como a tábua de madeira que salva Rose em Titanic.  

O mar é mais que belo, é sublime porque nossa imaginação falha em entender como é possível algo ser tão grande e infinito. Eu o admiro, mas temo o mar e, por isso, diz Kant, o sublime nos faz transcender os limites da razão. É como a criança que olha o avião e ainda pergunta: como algo tão pesado pode voar? Ela recebe a resposta, mas seu sentimento é de fascinação. Já Nietzsche via o mar como metáfora do caos criativo e da eternidade, que discute principalmente na seção “Das três metamorfoses”, de Assim Falou Zaratustra (1883-1885), quando fala do espírito do camelo, do leão e da criança e evoca o mar como abismo dionisíaco de forças primordiais e devir eterno. Olho o mar e vejo como Nietzsche viu nele o caos quando vejo suas ondas que se cruzam em minha frente; quando viu nele o gerador de vida, quando olho os mariscos que se escondem na terra. No ciclo do eterno retorno do mesmo, uma de suas ideias centrais, eu contemplo o mar como se eu fosse o seu Zaratustra praiano, que vê o mar de Cidreira sublime como lugar de criação e destruição.  

Entre o sublime e a metáfora do real

A perspectiva psicanalítica da contemplação do mar é diferente da contemplação romântica. Ele não é algo sublime, mas um espelho de nosso próprio vazio traumático e caótico. O mar é a metáfora de nós no mundo. Quando olhamos o mar, também, de certa forma, estamos confrontando nós mesmos. Nessa linha, para o filósofo esloveno Slavoj Zizek, as ondas imprevisíveis que tememos em Cidreira, ou mesmo os ventos fortes que já presenciei em minha casa de praia, são outras formas de ver o que nossa psicologia formada pelo capital recusa a aceitar, de que dependemos inevitavelmente do meio ambiente. Nesse caso, o que Zizek quer dizer é que devemos sair das respostas emocionais que o mar provoca, essa sensação de conexão cósmica, para seu exato contrário, de que o mar que está diante de nós não está aí para mostrar-se como algo puro ou regenerador, mas, ao contrário, nos mostrar a imagem violenta de como se dará o fim da natureza.

É que a perspectiva de Zizek funde abordagens psicanalíticas com sociais. De fato, a sociologia tradicional brasileira, que se debruçou a descrever quem nasce na cidade e no campo, o interior é o lugar dos sem-litoral, que se distinguia dos praianos, os com litoral. Para quem é do interior, atravessar meio mundo para chegar ao mar simboliza superar barreiras geográficas, mais ou menos como o pessoal da serra parte em direção ao litoral durante o verão ou como se vê no próprio filme Uruguai. É, nesse sentido, um rito de passagem coletiva – também feito por argentinos nas praias brasileiras – que reforça a própria identidade desses grupos pelo espanto de ver em grupo que o mar provoca. O tema aparece em diversos momentos da obra de Zizek. Em A visão de paralaxe (2006), Zizek usa o oceano como metáfora, comparando a descoberta cartesiana do cogito a um marinheiro que, após vagar pelo vasto oceano, avista terra firme – simbolizando a passagem do caos simbólico instável para um “lar” racional ilusório; em Em Defesa das Causas Perdidas (2008), evoca naufrágios e o mar como abismo da ideologia falida e em Violência (2008), o oceano simboliza a violência objetiva sistêmica em contextos de degradação ecológica caótica. Por isso, Zizek politiza o mar que vemos romanticamente: o mar de Zizek é o lugar onde refugiados são abandonados no caos, forma que o autor tem de criticar a “Europa dos direitos humanos”.  

Origem etimológica

A praia tem, por isso, sentidos diferentes e, por isso, voltar às origens da palavra pode ajudar a entendê-lo.   A palavra “praia” tem origem etimológica no latim tardio plagia, derivada do grego plágios ou plágia, que significa “oblíquo” ou “lateral”, referindo-se inicialmente a uma encosta ou declive suave. É exatamente assim a praia de Cidreira, uma longa faixa de terreno em declive e digo longa, pois vejo nisso uma vantagem. Há praias badaladas em Santa Catarina, como Ingleses, com um declive acentuado e curto; há praias no Rio de Janeiro, que, como no Leme, basta você dar alguns passos para dentro do mar e já ficar com a água na altura do pescoço. Cidreira não. O declive é acentuado fora e dentro do mar, e, portanto, é ótima como exemplo. No português, o conceito de praia evoluiu, desde o período medieval, para designar a faixa de terra à beira-mar ou de corpos d’água, com variações mínimas na forma. Essa raiz reflete a ideia de uma inclinação transversal junto à costa, distinta do uso moderno como área de areia ou lazer (disponível aqui).

Gosto do declive da praia de Cidreira mais do que de muitas outras praias famosas. Mas a coisa fica mais interessante quando vemos as outras palavras e seus outros sentidos que plágio (“oblíquo, lateral”) adotou, especialmente no campo das palavras portuguesas que incluem “plágio do latim plagium, ou sequestro ou roubo de escravos, mantendo a ideia de sentido de desvio oblíquo, ou plagiário, aquele que usa meios indiretos ou trapaceiros.” Por alguma razão, só agora vejo outro argumento para meu ensaio anterior. Se o radical de praia também evoluiu para os conceitos de fraude, isso também pode sugerir que praias podem querer roubar uma a imagem das outras, serem umas melhores que outras, como desenvolvi no ensaio anterior. Mas como isso seria possível?

Origens das praias gaúchas

Hotel da Saúde em Tramandaí, [191?].  Fonte: Revista Kodak, 16 de março de 1918. De propriedade de Leonel Pereira Souza, foi a primeira hospedaria de Tramandaí, inaugurada no ano de 1888. O aspecto é semelhante a muitos dos hotéis construídos a partir de então. Era um sobrado em madeira, com avarandado com guarda corpo em madeira torneada ocupando toda a frente do edifício, telhado de duas águas coberto de palha e com bordas adornadas com lambrequins também de madeira. Fonte: As sociedades praianas na arquitetura do litoral norte do Rio Grande do Sul, de Marione Denise Otto. Disponível em https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/151339/001011335.pdf?…1

Primeiro porque as praias do litoral do Rio Grande do Sul têm ligação com a colonização portuguesa, ganhando relevância na segunda metade do século XIX. Elas se desenvolveram primeiro para banhos de mar, e depois, para banhos terapêuticos, como recomendados pelos médicos para a cura de doenças. Luis Sugimoto, em matéria ao Jornal da Unicamp (disponível aqui), resume o argumento de História do veraneio no Rio Grande do Sul (Paco Editorial, 2013), de Joana Carolina Schossler. Ela estudou os balneários de Cidreira, Tramandaí, Capão da Canoa e Torres na sua história da vida junto ao mar em um território lembrado quase que exclusivamente pela imensidão de seu pampa. Seu foco é a talassoterapia, os banhos de mar terapêuticos. “A visão paradisíaca de águas claras, quentes, coqueiros e céu azul é um ideal de litoral que a indústria turística passou a vender depois de descobrir as belezas das praias mediterrânicas. Porém, muito antes de as águas claras e quentes se tornarem desejo social, eram as praias frias de Dieppe, Trouville, Ostende e Scheveningen que atraíam turistas e banhistas para a prática dos banhos terapêuticos”, conta Joana Schossler. O litoral gaúcho muito se assemelha a algumas praias europeias e suas águas frias também tiveram finalidades terapêuticas a partir do final do século 19”, finaliza. O que era valorizado no passado, a água fria, hoje é desvalorizado.

Segundo a autora, as águas de nossas praias são frias devido às águas oceânicas provenientes das correntes das Malvinas e ela afirma que elas nunca serão transparentes por causa da formação geológica de nosso litoral, dos ventos fortes e das algas que influenciam na sua coloração. “Não é um litoral muito atrativo em termos turísticos, mas é o destino de muitos gaúchos, que todos os anos repetem a prática de passar um tempo junto ao mar. Existe até uma piadinha contando que Deus vinha desenhando o litoral brasileiro com todo o capricho, até a praia de Torres, onde interrompeu o trabalho para um descanso – foi sugestão do diabo, que aproveitou para surrupiar a caneta e traçar um retão no resto da costa.” No começo até ria desta piada, mas depois me dei conta que fazia parte de minha baixa estima estrutural praiana.

O mar cura

Segundo ela, os banhos de mar para cura de doenças vêm do século XIX, por recomendação de médicos europeus imigrantes ou brasileiros formados na Europa. Falei dessa geração de médicos em meu livro Saber e Moralidade (Clube dos Autores), quando analisei o discurso que produziam em seus trabalhos de conclusão na Faculdade de Medicina da UFRGS entre 1890 e 1940. Schossler afirma que naqueles primórdios, o transporte era feito em carroças de boi, pois não havia estradas ou mesmo caminhos formados, muito menos a constituição de balneários como conhecemos hoje. “O aumento da demanda levou ao aprimoramento dos serviços, até o surgimento de hotéis.   O primeiro hotel do litoral norte, em Tramandaí, veio a se chamar Hotel da Saúde, justamente pela prática dos banhos terapêuticos nessa praia. Os hoteleiros tiveram intensa participação na formação dos balneários e de seus melhoramentos, ajudando na construção de estradas e criando atrativos para os banhistas – a linha entre a terapia e o prazer de estar junto ao mar ainda era tênue.”

Esse movimento é diferente da cultura balneária que surgiu entre os anos 20 e 40, ligada, esta sim, à apreciação do mar. “Os gaúchos passaram a ir à praia também para se divertir. Já era oferecido o transporte combinado – parte de trem e parte de serviço a cavalo – e os empreendedores instalavam trilhos de madeira nos caminhos entre as dunas para que os carros não atolassem; encontrei até mesmo a notícia de um hidroavião da Varig acidentado.” Os hotéis que garantiam terapia passam a oferecer diversão com almoços, jantares, saraus e bailes em seus salões.    “Houve uma mudança de comportamento à beira-mar. No princípio, ia-se à praia somente antes do nascer ou no pôr do sol, por período breve, e muitas vezes sem imersão na água, apenas para respirar o ar salino; usavam-se roupas grossas e compridas para esconder o corpo e não bronzeá-lo. Com o tempo, já se percebe uma evolução nas vestimentas: maiôs e biquínis para os banhos e trajes apropriados para o footing à beira-mar.”

Respirar o ar do mar

Gosto dessa origem de ir à praia para respirar o ar salino. É exatamente isso que eu e minha esposa fazemos. Caminhamos pela beira da praia ao entardecer para respirá-lo, o que é notável para minha rinite. Ambos fazemos isso também como um ritual de estar na praia, que é, em nosso entendimento, caminhar por ela (falarei disso em outro ensaio).   Schossler aponta uma segunda mudança decorrente da urbanização do litoral pelos órgãos públicos, a substituição da dinâmica hoteleira por uma dinâmica comunitária constituída pelos próprios veranistas. “Eles compraram residências no litoral e passaram a gerir o seu tempo e espaço, permanecendo o quanto desejassem na praia. Formaram-se núcleos comunitários de pessoas vindas tanto de Porto Alegre como do interior do Rio Grande do Sul, criando-se uma linguagem comum durante o período de veraneio.” Estou nessa etapa, com minha casa particular na praia, aproveitando a aposentadoria. Eu já fazia isso, como diz Schossler, pelo simples fato de passar minhas férias da Câmara Municipal nela, a que ela chama de vilagiatura.

A Vilegiatura é uma expressão que se refere a uma temporada de férias ou lazer passada fora das grandes cidades, geralmente no campo, em praias ou estações balneárias. É um termo de origem italiana (villeggiatura), comum na língua portuguesa para descrever o verão ou tranquilidade sazonal dos urbanos em locais de lazer, diz a autora. Eu nunca ouvi falar, mas isso não quer dizer grande coisa, não sei tudo mesmo. Deriva do italiano villeggiatura, que significa “estadia no campo” ou “férias rurais”, e entrou no português adaptado, evocando tradições europeias de veraneio no século XIX. Schossler diria ‘vilegiatura’ em Cidreira: eu prefiro simplesmente férias em Cidreira. Elas ficaram mais populares graças à concomitância das férias trabalhistas com as escolares.

Aqui mesmo, em minha casa de praia, meus familiares são assim: a minha concunhada que fala muito e que cria três filhos, o pequeno colorado, a grudada no celular e a aspirante a advogada da família, os traz no mesmo período de suas férias escolares. Fico feliz em ver que, antes de conhecer a obra de Schossler, já concordamos em uma coisa: o fato de que as praias se tornaram espaços de distinção social, com elitização de alguns balneários e estigmatização de outros, conforme a origem social de seus veranistas, o que contestei em meu último ensaio a RED. “A elite frequentava a praia de Torres, por exemplo, que possuía atributos naturais semelhantes aos de praias europeias, se caracterizava por ser a mais distante de Porto Alegre, o que dificultava o acesso popular.   Os trabalhadores, por sua vez, passaram a contar com as colônias de férias construídas pelas empresas.” O ponto de diferença entre minha argumentação e a da autora é que, enquanto para mim a distinção é baseada num aspecto simbólico, a autoimagem, a da autora é num aspecto concreto: o conforto. “Mas o conforto só foi possível por um processo de homogeneização, que tornou tudo, mesmo as vivendas e o cotidiano nas praias de mar, como algo familiar. O estranhamento que se tinha ao rumar para as praias, e do qual deriva em grande parte o sentimento de encantamento, foi sendo anulado pela modernização.” E ainda assim, nisso, concordamos. Mas a modernização também é ascensão da praia mercadoria, transformada em investimento. É neste ponto que a praia assume o sentido de fraude, somos que roubados pelo capital de seu uso e sentido original.

A praia é um mundo

A praia é um mundo. Nascem como espaços públicos democráticos para fomentar interações, mas estão em processo de predação como as grandes cidades. Eu me lembro das primeiras interações com os vizinhos logo que adquiri a casa de praia, das caminhadas na areia e a conversa com quem passasse pela orla caminhando. Há, no entanto, na era das temporadas, uma corrosão dessa cultura, com uma massa que aflui para Cidreira para o consumo, seja do Natal, seja do Carnaval. A areia propriamente dita também começa a escassear, já se vendo disputa, ao menos nas areias perto do centro, por espaço entre jogadores de bola, ambulantes e banhistas. Provavelmente, hoje Cidreira é o que Copacabana foi ontem. Mesmo a modernidade não deixa de chegar a Cidreira, com grupos das redes sociais que compartilham memórias da praia. Cidreira não é referência para vôlei de praia como Copacabana é, mas há inúmeros jogadores anônimos em suas areias; podemos ver em menor número ao longo da praia os mesmos vendedores de sorvetes e bebidas que transformam a praia em espaço de comércio informal como no Rio de Janeiro. É claro que outras praias têm problemas urbanos bem maiores ligados à verticalização extrema, como Balneário Camboriú, e a luta para chegar à praia nas festas de temporada transforma em caos viário as BRs 101 e a RS 040, com excesso de veículos. Cito sempre os mesmos balneários por causa de minhas lembranças, o que peço que me perdoem.

Mesmo nesse mundo caótico, ainda há cenas e personagens que valem a pena. A socialidade, como diz Mafessoli, continua vibrante. Ambulantes, mas também os atletas de final de semana e as famílias numerosas, existem tanto em Copacabana, Camboriú como em Cidreira. Você olha do alto e em todas estas praias vemos quem esteja jogando futebol na beira da praia, seja improvisando com chinelos de dedo os limites do campo, como em Cidreira, ou em vistosas construções de Copacabana ou Camboriú. Com estes, surfistas dividem a praia pegando ondas, praticando surf ou bodyboard, e claro, sempre eles, os comerciantes informais. Curiosamente, vi vendedores de mate em Copacabana, algo que jamais veria em Cidreira simplesmente porque aqui se leva o próprio mate para a beira da praia. Há, com certeza, mais cachorros na praia de Cidreira do que pude ver em Copacabana, ainda que, nas ruas da cidade, eu visse cães também.   Diferente do Rio, você não vê influencers com suas câmeras na praia de Cidreira, talvez porque possam ser apontados com os dedos os que fazem isso na praia, como o Guri de Uruguaiana.  

A praia nos afeta

A praia é um tipo de mundo. Sim, mas qual? Um mundo capaz de afetar nossa mente, penso. Por acaso, rolando entre uma e outra postagem do Instagram, encontro a Blue Mind Theory, ou teoria da mente azul, desenvolvida pelo biólogo marinho Wallace J. Nichols que me chama a atenção. Ela explora como a proximidade com a água – oceanos, rios ou lagos – induz um estado mental de calma, reduzindo estresse e promovendo bem-estar. Pronto, eu sei que estou de novo diante dessas novas formas que, como diz Zizek, estão aí a venda apenas para justificar nossa submissão subjetiva ao capital, como certa filosofia zen oriental, mas ainda assim, penso, esse ainda é um dos pontos para pensar como o mar nos afeta, ainda que eu volte ao início da minha exposição. Nichols popularizou a ideia em seu livro Blue Mind (2014), argumentando que ambientes aquáticos ativam respostas neuroquímicas com a liberação de dopamina e oxitocina, levando a maior criatividade e foco mental. Estar junto ao mar nos deixa melhor. Eu entendo isso.

Estudos em psicologia ambiental corroboram que até imagens de água têm efeitos relaxantes semelhantes à meditação. O argumento me dá certeza de que é mais uma dessas teorias de autoajuda, é claro, uma espécie de determinismo natural que faria corar o mais conservador dos filósofos. Mas continuo a leitura. A postagem recupera, de uma forma fragmentada, as propostas da  teoria: “Terapia para ansiedade e depressão, com ‘banhos de mar’ como intervenção simples; [propostas de] arquitetura urbana: projetos que integram água para saúde coletiva, como parques à beira-rio; Bem-estar diário: 20 minutos perto d’água já melhoram humor, segundo pesquisas citadas por Nichols”, diz a postagem que também afirma que “essa teoria conecta ciência cognitiva com ecopsicologia, sugerindo que humanos evoluíram com afinidade pela água (biophilia)”.

Buscando um novo sentido para o mar

Pesquiso um pouco mais e encontro que a teoria é respaldada parcialmente por evidências científicas de psicologia ambiental, neurociência e estudos observacionais, embora não seja uma “teoria formal” testada em ensaios clínicos randomizados de grande escala. Tudo bem, nem toda teoria é perfeita. Eu sei que não preciso de estudos de neuroimagem para saber que a visão ou sons da água, como as ondas do mar, provocam um relaxamento em mim semelhante à meditação. Num mundo em que a ansiedade é a regra, qualquer coisa que traga tranquilidade é bem-vinda.

A conclusão é que prefiro pensar que o mar, e não o homem, é a medida de todas as coisas. Vivemos unicamente em centros urbanos, mas nossa espécie vivia há pouco tempo imersa na natureza, e o mar fazia parte dela. Deixamos de viver em qualquer lugar, inclusive à beira-mar, para ficarmos nas cidades. Deixamos de viver junto à praia e perdemos ou esquecemos seus efeitos sobre nossa vida. Tudo parece funcionar bem numa cidade, mas esquecemos que nela nos afastamos de nosso lar natural. Stefano Mancuso, em Fitópolis (Ubu, 2025), propõe que a cidade se reconcilie com a natureza reintroduzindo-a em seu interior, com 86,7% de plantas contra 0,3% de animais, destinando assim, mais uma vez, a cidade às plantas, exatamente o oposto do que acontece. Já eu, prefiro propor que deixemos as cidades e vamos para as praias. Se as plantas, diz Mancuso, são nossa casa, porque nossos ancestrais eram seres arborícolas – e ele se refere aos nossos parentes primatas mais próximos que andavam nas copas das árvores – eu proponho que demos ainda mais um passo atrás nessa perspectiva, indo aos ancestrais que estavam, por assim dizer, na beira da água. Afinal, não foram os oceanos os berços prováveis das primeiras moléculas orgânicas hão cerca de 4 bilhões de anos? Não duvido que num futuro distante, ou não tanto, por tamanha destruição da natureza e do mundo, possamos voltar a ser, de novo, moléculas orgânicas de um mundo que um dia foi uma grande civilização. Aí, a praia, de novo ela, será um bom lugar para viver em paz. Mas talvez possamos antecipar só um pouco isso.


Foto de capa: Pintura de Pedro Weingärter  – Praia de Cidreira, 1913.Fonte: SHOSLLER, 2010, citado por  Marione Denise Otto. Disponível em https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/151339/001011335.pdf?…1

Sobre o autor

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Jorge Barcellos
Graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21 livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524

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