EUA jogam lenha na fogueira

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A ex-embaixadora da Palestina na França e na União Europeia, Leila Shahid, morreu dia 18 de fevereiro na França, aos 76 anos. Segundo o jornal Le Monde, Leila Shahid se suicidou depois de uma longa doença.

Entrevistei-a em Paris em 2004 quando ela era embaixadora da Palestina na França.

Intelectual de altíssimo nível, respeitada por judeus de esquerda e por seu povo, a palestina Leila Shahid  sempre esteve presente nos debates da imprensa francesa escrita e audiovisual quando o assunto era o conflito Israel-Palestina.

A seguir, o texto da entrevista que fiz com ela em Paris, para o site NoMínimo, em 2004.

EUA jogam pólvora no óleo

Leïla Shahid faz parte do cenário politico-midiático francês desde 1993, quando foi designada delegada-geral da Palestina na França. Única mulher entre os 90 representantes da Palestina no mundo, ela tem status de embaixadora, sem as imunidades diplomáticas, mas é muito bem protegida pelo governo francês. Na porta do prédio onde mora, num bairro nobre de Paris, não longe da sede da Unesco, um policial francês monta guarda 24 horas por dia dentro de uma guarita.
Memória prodigiosa, conhecimento profundo da história do Oriente Médio e uma extraordinária capacidade de argumentação fazem da poliglota representante de Arafat, nascida em Beirute em 1949 numa família palestina, uma debatedora de peso nos programas de TV sobre o problema israelense-palestino. 

Leïla Shahid tem aliados entre intelectuais israelenses, como o escritor Michel Warschawski, que, no momento, faz com ela um tour de conferências pela paz em várias cidades francesas, acompanhados do editor-adjunto do jornal Le Monde Diplomatique, Dominique Vidal. Apesar de moderada, a diplomata é temida pelos líderes conservadores da comunidade judaica por sua capacidade de persuasão na defesa do Estado palestino. Por pressões de associações judaicas, foi recentemente impedida de fazer duas conferências, com Warschawski e Vidal, em Nice. 

Leïla Shahid acompanhou os representantes do Parlamento Internacional dos Escritores que, em 2002, visitaram a Cisjordânia e Gaza para encontrar o poeta Mahmoud Darwish, sitiado em Ramalah, como Arafat. No grupo, havia dois prêmios Nobel, Wole Soyinka e José Saramago, além de Russel Banks, Breyten Breytenbach, Vicenzo Consolo, Bei Dao, Juan Goytisolo e Christian Salmon. Em 1982, ela já acompanhara a Beirute o escritor Jean Genet – que conheceu em Paris, quando fazia seu doutorado em antropologia. Na capital libanesa, presenciaram o massacre de Sabra e Chatila, sobre os quais Genet escreveu « Quatre heures à Chatila ».

Como Arafat recebeu as ameaças de Ariel Sharon, depois dos assassinatos do xeque Yassin e de Al Rantassi ?

Leila Shahid : As ameaças de Sharon não assustam Arafat. Há 30 anos, após cada ameaça, milhares de palestinos vão aclamá-lo. Mas ele leva as ameaças a sério. Sharon sabe que precisa se livrar de Arafat para se ver livre do projeto nacional palestino. Ele nunca aceitou a idéia de um Estado Palestino, sempre disse que o Estado Palestino não tinha lugar na Palestina, deveria ser na Jordânia, onde a maioria da população é de origem palestina. Este é o programa do Likud. Ele quer se ver livre do fato de que, desde os acordos de Oslo, o mundo inteiro fala de um Estado Palestino. Se não houver mais Autoridade Palestina, não há mais um símbolo para construir um Estado. Ele quer destruir o Presidente da Autoridade porque acha que depois não haverá ninguém para continuar a idéia de um Estado Palestino. Ninguém vai querer criar um Estado Palestino com os fundamentalistas islâmicos. Por isso, Sharon continua seu projeto. Claro, ele o esconde sob o discurso de que Yasser Arafat é um Bin Laden. As ameaças de Sharon não assustam Arafat do ponto de vista pessoal, mas ele as leva a sério porque sabe que, infelizmente, não há nenhum obstáculo para Sharon.

Por que ele não mandaria matar Arafat?


L. S. : Hoje, é o sinal vermelho de Bush. As relações entre Bush e Sharon estão um pouco problemáticas porque Bush apoiou o projeto de Sharon de retirada unilateral de Gaza e o Likud recusou. Bush ficou um tanto perplexo por ter aprovado um projeto que não era apoiado nem pelo governo israelense nem pelo partido no poder em Israel. Matar ou expulsar Arafat vai complicar ainda mais as relações com Bush no momento em que o presidente tem problemas suficientes no Iraque. Ele adia esse problema.


Os assassinatos dirigidos de líderes do Hamas foram condenados pela comunidade internacional, exceto pelos Estados Unidos. O que a senhora pensa desses atos?

L. S. : Os Estados Unidos fazem a mesma coisa, infelizmente. Eles chamam a isso self defense. No Iraque e no Afeganistão, os Estados Unidos assassinam dirigentes dizendo que é preventivo. Infelizmente, os americanos dão cobertura a esses atos. 

Benjamin Netaniahu propôs a Ariel Sharon cortar a água e a eletricidade de Gaza para vingar a morte dos soldados israelenses, na semana passada. A Faixa de Gaza tornou-se um gueto palestino, controlado totalmente por Israel?

L. S. : Não somente a Faixa de Gaza. Todos os territórios palestinos são guetos controlados pelos israelenses. A Faixa de Gaza tem 356 quilômetros quadrados e todas as fronteiras são controladas pelos israelenses – na terra, no céu e no mar. No céu, a aeronáutica israelense sobrevoa e bombardeia. No mar, os navios militares fazem a patrulha e bombardeiam e, por terra, há duas portas, ao Norte e ao Sul, ambas controladas pelo exército israelense. Portanto, é uma grande prisão. Na Cisjordânia, as sete grandes cidades palestinas são cercadas pelo exército israelense, que controla a entrada e a saída de qualquer pessoa em mais de 600 check-points num território de 5 mil quilômetros quadrados. Não há um só vilarejo em que as pessoas possam entrar e sair. Se o exército não gosta da cara de um palestino, não o deixa passar, mesmo se for mulher, criança ou velho. A eletricidade e a água são controladas pelo exército israelense. Os telefones idem. A recomendação de Netaniahu foi inspirada no que Sharon fez em Beirute, em 1982. Naquele ano, Sharon cercou a cidade, que continuou a resistir. Ele cortou a eletricidade de Beirute e a cidade acabou por se render. 

A organização israelense de direitos humanos HaMoked denunciou a existência de um centro de detenção secreto instalado no centro de Israel, o « campo 1391 ». Nem parlamentares israelenses nem o Comitê Internacional da Cruz Vermelha receberam autorização para visitá-lo. Israel estaria praticando tortura em prisioneiros palestinos num campo mantido em segredo por razões de segurança? 

L. S. : Claro. Há 7 mil prisioneiros palestinos detidos em Israel sem nenhum dos direitos de um prisioneiro político. Eles não foram julgados, não são acusados oficialmente de nada, não têm advogados nem direito de receber visitas das famílias já que são considerados detidos e não prisioneiros pois não foram julgados. Esses 7 mil estão em diferentes campos militares. Não estão em prisões oficiais. E em todos esses locais a tortura é empregada para obrigá-los a falar. Depois, são enviados a um juiz e são condenados. Muitos deles confessam qualquer coisa para se verem livres da tortura. 

Israel faz uso das leis britânicas de 1945, de emergência, que permitem prender um palestino sem acusação formal, sem julgamento nem advogado. É a « detenção administrativa ». Oficialmente, deve durar seis meses, mas eles prolongam de seis em seis meses durante anos. Eles utilizam essa lei militar britânica de 1945 para legitimar as prisões. A maioria dos prisioneiros sofre tortura psicológica ou física e a maior parte dos israelenses sabe disso, mesmo sem ter sido possível a visita da Cruz Vermelha e ainda que não se conheçam fotos. Agora, houve um grande escândalo em torno das imagens de torturas de prisioneiros iraquianos pelos soldados americanos e britânicos. É exatamente o que faz o exército israelense, mas não há fotos. Hoje, já existem militantes israelenses muito corajosos, advogados que foram à Suprema Corte há dois anos na tentativa de proibir o exército de utilizar a tortura. Antes, a Suprema Corte havia aceitado que os interrogatórios israelenses utilizassem « pressão » sobre os prisioneiros para arrancar confissões que pudessem impedir ações terroristas. Mas « pressão » quer dizer tortura e os advogados militantes da paz alegam que é uma vergonha que uma democracia justifique a tortura. Eles conseguiram anular essa permissão. Mas contra esse « campo 1391 », onde ninguém nunca pôde ir por razões de segurança de Estado, eles não puderam fazer nada. O exército israelense utilizou os métodos de torturas com cães no sul do Líbano, durante 20 anos, contra os palestinos e os libaneses. 

Os jovens palestinos que se explodem como bombas são mártires voluntários ou são manipulados por extremistas? São resistentes ou terroristas?

L. S. : Para mim, são resistentes que empregam métodos terroristas. Na minha opinião, terrorista é aquele que comete atentados contra civis inocentes numa situação de guerra. A OLP fez operações terroristas em 1970, 1971 e 1972, quando seqüestrava aviões em vôos comerciais. Quando atacaram os atletas em Munique, fizeram ação terrorista. Isso não quer dizer que a OLP é só terrorista. Mesmo o movimento sionista utilizou métodos terroristas: em 1948, duas organizações sionistas dinamitaram o hotel King David para matar a responsável britânica. Os chefes da ação, Menahem Begin e Shamir, foram procurados como terroristas. Hoje, a situação nos territórios palestinos é trágica: a população está completamente enclausurada, passa fome porque 60% não têm trabalho, sofre com o terrorismo de Estado, sofre bombardeios aéreos e navais e ataques de tanques. Essa população não tem meios de se defender, não há abrigos em Gaza para se esconder. 

Diante dessa violência do exército israelense, há movimentos políticos que dizem: « não temos bombas, não temos mísseis ». Então, encontram candidatos ao suicídio, os kamikazes. Em sua maioria, são totalmente desesperados, viram suas casas dinamitadas, seus amigos e parentes assassinados. Vão se explodir como bombas para fazer o maior mal possível ao inimigo. Há uma pequena minoria que pode ser manipulada, mas a maioria faz isso por desespero, porque não há nenhum horizonte político. Acho que, infelizmente, Sharon faz o possível para produzir esses kamikazes reagindo de maneira desproporcional. A repressão israelense, há três anos, não é absolutamente justificada. Não é normal dinamitar centenas de casas, destruir todos os meios de vida de uma população. Acho saudável que ela reaja, mas eu preferiria que, em vez de ir matar inocentes, mulheres e crianças em ônibus israelenses, eles atacassem o exército porque a resistência contra o exército israelense é totalmente legítima. Lamento que o alvo não seja o certo, mas não posso dizer que não são resistentes. São resistentes que se enganam de alvo e a Autoridade Palestina tenta convencê-los a escolher o alvo certo, o símbolo da ocupação militar, o exército. 

Como os palestinos vêem o plano Sharon para a retirada de Gaza, recusado pelo Likud?

L. S. : Seu aspecto mais negativo é o fato de ser unilateral, sem negociação com nenhum palestino. Se ele se retira assim, não reconhece a esse território nenhuma direção nacional, quer criar o caos total. É muito grave porque lutamos 40 anos para que a OLP seja o representante do povo palestino, para que o governo israelense, em 1993, com Rabin, reconhecesse a OLP como representante que deve falar e negociar em nome dos palestinos. Sharon nos faz voltar 15 anos, dizendo que os palestinos não têm representantes, que não há interlocutores. Mas ele não tem esse direito, a OLP é o interlocutor do mundo inteiro. Os palestinos decidiram que é a OLP que os representa, todos os países do mundo recebem os representantes da OLP. O único que recusa é o governo Sharon. 

E essa retirada unilateral de Gaza não vai permitir a instauração de uma autoridade nacional. É uma situação de caos total, prova de que Sharon não quer um Estado palestino. Qual o interesse de deixar Gaza sem discutir com a parte que vai gerenciar a circulação de pessoas, as colônias, as habitações, a eletricidade, a água, os movimentos de população? Ele procura criar o caos após a retirada, uma política muito perigosa. Ele se retira da Faixa de Gaza, que tem 356 quilômetros quadrados habitada por um milhão e 200 mil pessoas, mas há 5.000 quilômetros quadrados ocupados na Cisjordânia com 2 milhões de pessoas. Se ele vai se retirar de Gaza para pôr a mão na Cisjordânia, como está fazendo com o muro, é muito perigoso. Ele se retira de um pequeno espaço para melhor dominar o outro. E é por isso que dizemos que ele deve se retirar no contexto do mapa da paz – uma primeira retirada, seguida da Cisjordânia. E isso deve ser feito em negociação com os palestinos. 

O que a senhora pensa do projeto do Grande Oriente-Médio de George Bush?

L. S. : É um projeto oportunista e fundamentalmente desonesto, porque os americanos passaram 50 anos dando apoio às forças integristas islamistas, forças conservadoras, contra o comunismo… 

Inclusive os talibãs…

L. S. : Inclusive os talibãs, inclusive Bin Laden. Os americanos deram apoio aos talibãs, a Bin Laden, aos islamitas em todos os países árabes contra os comunistas árabes. Diziam que o Islã era um escudo contra o comunismo. Agora, que não há mais União Soviética, dizem se interessar pela democracia, que intervinham contra Saddam Hussein para levar a democracia. Não que Saddam Hussein fosse nosso amigo, era também um regime sanguinário e antidemocrático. Mas veja o regime que eles puseram no lugar, a tortura do povo iraquiano. Sob o pretexto de levar a democracia, os americanos escondem seus objetivos hegemônicos para a região, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Mas ninguém se engana, nem mesmo a opinião pública americana. 

O mundo árabe passa por uma crise existencial de busca da democracia e, se não reformar o sistema político para permitir às forças democráticas uma real participação nas decisões políticas, se não promover eleições realmente democráticas, não haverá mudanças. Se tiverem uma posição unida, os países árabes podem ajudar muito a Palestina. Há os países produtores de petróleo, com grande peso no cenário internacional. No total são 21 países, 22 com a Palestina. Se esses 21 defendem uma mesma posição nas Nações Unidas, podem ter um peso, pois a ONU é dividida por regiões e eles podem se aliar aos países europeus, à América Latina, à África.

E por que não fizeram isso até hoje?

L. S. : Porque os americanos quebram a unidade, dividem para reinar. Os americanos têm muita influência sobre a Arábia Saudita, o Egito, o Marrocos. E hoje a situação está desestabilizada, a União Soviética acabou e os Estados Unidos têm a impressão de não terem um contra-poder. Fazem o que querem. Deram o sinal verde total aos israelenses e, cada vez que um Estado árabe se comporta de maneira que não lhes agrada, ameaçam com uma intervenção, como no Iraque. Ontem, eles votaram sanções contra a Síria. 

Num artigo no « Le Monde Diplomatique », o filósofo Étienne Balibar diz que nenhuma mediação é possível « se os mediadores são os protetores dos invasores ». Quem são os possíveis mediadores desse conflito atualmente?

L. S. : Balibar tem razão. Até agora, os mediadores eram os americanos e europeus. No dia 14 de abril, com a posição defendida pelo presidente Bush, os americanos se alinharam totalmente à posição de Sharon. O mais grave é que o senhor Bush decidiu com o senhor Sharon o estatuto da fronteira, das colônias, do muro que separa Israel da Palestina e do futuro do povo palestino sem a presença de um negociador palestino. É muito grave, uma volta a 50 anos atrás, quando não se tinha um representante para os palestinos. 

Os que podem ter hoje uma posição imparcial são os europeus, por razões históricas. Israel e a Palestina são o produto de um conflito que pertence à história da Europa por causa da Segunda Guerra Mundial, do genocídio dos judeus, da colonização britânica e do fracasso da independência da Palestina. A Europa tem, assim, uma responsabilidade histórica. E além do mais, está muito próxima de Israel e da Palestina, do Mediterrâneo. Qualquer guerra ou desestabilização nessa região têm influência direta na Europa. A política do presidente Bush de três anos para cá não combateu o terrorismo; ao contrário, espalhou o terrorismo que atacou de forma terrível os Estados Unidos no 11 de setembro. Mas a guerra que o presidente Bush fez no Afeganistão e no Iraque espalhou as ações terroristas até a Turquia, Indonésia, Arábia Saudita e Espanha. Hoje, o Iraque, que não era um trampolim da Al-Qaeda, tornou-se um quartel-general da organização por causa da estupidez da política americana. Se o resto do mundo quiser preservar a segurança, os europeus e os povos de outros continentes devem fazer uma política multilateral de pacificação, porque os americanos estão jogando pólvora no óleo e isso é muito perigoso.

Étienne Balibar diz que « a causa palestina é uma das que permitem avaliar a dignidade e a responsabilidade de um discurso político ». Por que essa causa foi considerada secundária por tanto tempo? Por que os palestinos esperam há 50 anos a criação de um Estado?

L. S. : Porque os palestinos têm a infelicidade de ser inimigos do Estado de Israel. E o Estado de Israel é o Estado do povo judeu e o povo judeu foi vítima de um genocídio. E quando se foi vítima de um genocídio na Europa, isso dá à Europa, ao mundo branco, um sentimento de culpa que fez que durante anos o mundo ocidental, que se sente responsável pelo genocídio, pensar de o Estado dos sobreviventes do genocídio não poder ser tratado como um Estado normal, ele estava acima da lei. E por lhe permitirem fazer tudo o que quer, tornou-se um Estado fora da lei. Na Europa, a culpa gerou o sentimento de que, para ser perdoada pelo crime do genocídio, era preciso fechar os olhos para a existência de um povo palestino. 

Durante anos, os europeus comportaram-se como se não houvesse um povo na Palestina. O slogan do sionismo era « Um povo sem terra para uma terra sem povo ». Não era verdade. A Palestina tinha um povo e os europeus sabiam, mas fecharam os olhos. Somente quando os palestinos insistiram em afirmar sua existência por todos os meios, inclusive com o seqüestro de aviões, a Europa reconheceu sua existência. O mundo americano considerou, durante todo o período da guerra fria, que Israel era um trunfo para o imperialismo americano. Eles viam os soviéticos como os amigos dos países árabes e Israel era amigo dos americanos e funcionava como mais um estado dos EUA, ajudando a fazer o papel de polícia no Mediterrâneo. Israel controlava o petróleo da Arábia Saudita, a situação na Jordânia e na Síria, como um posto avançado da presença americana no Oriente Médio. 

Por isso, seja pelos objetivos imperialistas americanos ou pela culpa européia, durante anos esqueceram os palestinos. Até o momento em que a resistência os impôs de novo no cenário midiático. Hoje, a pressão vem da opinião pública internacional, não dos dirigentes internacionais. 

Quais serão as conseqüências para os palestinos do muro que Israel está construindo na Cisjordânia?

L. S. : Muitíssimo graves. Primeiramente, esse muro tem 730 metros de comprimento – parte em concreto armado, de 8 metros de altura; parte em arame farpado eletrificado, com monitores. Quem se aproximar muito morrerá eletrificado. Ele é construído dentro do território palestino, não na fronteira, e anexa 15% da fronteira da Cisjordânia. Mas como não é reto, entra e sai para poder integrar as grandes colônias israelenses, vai dividir a Cisjordânia – 42% ficarão intramuros e o resto, 58%, vai ser anexado por Israel. O Estado Palestino será, literalmente, uma prisão com três enclaves que não serão interligados, já que o muro vai anexar completamente Jerusalém Leste e Oeste. Não haverá mais Jerusalém para os palestinos. Ora, a capital dos palestinos é Jerusalém. É assim que ela funciona no plano sociológico, político, econômico, comercial, como capital. 

O muro impede a criação de um Estado palestino. Foi por isso que eles o construíram. Para vendê-lo à opinião pública, Sharon diz que é um muro de segurança, mas isso mostra bem o estado de patologia dos membros do governo e do exército israelense que, depois de terem sofrido com os muros de Varsóvia e dos campos de concentração, constroem um muro que vai pôr os palestinos dentro de um gueto, mas também vai encerrar Israel num gueto.


Publicada no site NoMinimo, 20.05.2004.

Foto de capa: Franck Fife / AFP

Sobre o autor

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Leneide Duarte-Plon
Jornalista internacional. Co-autora, com Clarisse Meireles, de Um homem torturado – nos passos de frei Tito de Alencar (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, lançou A tortura como arma de guerra – Da Argélia ao Brasil: Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado. Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.

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