Este Manifesto Teórico defende já existir uma Nova Ciência Econômica (NCE) com capacidade de síntese sistêmica, histórica e transdisciplinar. Apresenta-a de forma sistemática, com ontologia (sentido abrangente do ser), epistemologia (teoria do conhecimento), método e programa de pesquisa. Evita o ecletismo e preserva uma coerência interna.
Como princípio ontológico, sugiro passar a ver a economia (atividade com minúscula) como sistema adaptativo complexo. Não deve ser apresentada como fosse um mecanismo de equilíbrio geral à la Física newtoniana. É um sistema histórico aberto, composto por agentes cognitivamente limitados, estruturado por instituições, organizado por relações monetárias e financeiras, atravessado por conflito distributivo, sujeito a dinâmicas não lineares e emergentes.
O sistema econômico-financeiro evolui, transforma suas próprias regras, produz estabilidade temporária e instabilidade recorrente. Equilíbrio é “casual”, não fundamento ontológico.
Como princípio epistemológico, a NCE adota um pluralismo. Significa adotar transdisciplinaridade estruturada com base em Psicologia Econômica (formação de expectativas sob incerteza), Sociologia Econômica (enraizamento institucional), Biologia Evolutiva (adaptação e seleção), Teoria da Complexidade (emergência a partir de interações de componentes diversos e não linearidade).
A Econofísica aplica métodos, teorias e ferramentas da Física, especialmente a física estatística e sistemas complexos, para analisar fenômenos econômicos e financeiros, como flutuações de mercado, distribuição de renda e comportamento de agentes. Surgida nos anos 90, ela modela mercados como sistemas complexos para prever crises e entender dinâmicas de preços.
Não se trata de soma de áreas, mas de integração sob um núcleo organizador. Demonstra a reprodução e a transformação sistêmica das relações econômico-financeiras.
Quando falo em superação dos reducionismos, significa a NCE rejeitar quatro deles: reducionismo individualista (agente isolado), reducionismo mecanicista (equilíbrio automático), reducionismo monetário–neutro (como a moeda não importasse), reducionismo estático (ausência de história). Em lugar disso tudo, adota causalidade circular, feedbacks positivos e negativos, dependência de trajetória e múltiplos níveis de análise (micro–meso–macro). A NCE faz reinterpretação das grandes tradições ditas “heterodoxas”, porque não pertencem à autodenominada “corrente principal” (mainstream) da história do pensamento econômico. A herança de Karl Marx mantém-se como análise estrutural do capitalismo, seu conflito distributivo e a dinâmica histórica.
Ela reformula a Teoria do Valor-Trabalho como estrutura relacional, acrescentando a Teoria do Valor-Financeiro. Este interpreta o enriquecimento pessoal, inclusive de trabalhadores de alta renda, com formação universitária. Isso era inexistente em escala massiva, na época de Marx.
A acumulação de capital financeiro como um processo sistêmico não linear não é um novo fenômeno social? Não aconteceu no pós-guerra, um século após a época do Marx?
A contribuição de John Maynard Keynes é incorporada na NCE, de acordo com a reinterpretação pós-keynesiana da incerteza radical, do papel das expectativas, da instabilidade financeira etc. Amplia-se com modelagem de redes financeiras e com análise de novos comportamentos coletivos emergentes.
Na NCE, há centralidade da moeda, notadamente da multiplicada pelo crédito. A moeda deixa de ser mero véu, simples meio de troca e variável neutra.
Ela passa a ser instituição social, símbolo de soberania nacional, unidade de conta estruturante, elo entre expectativas e poder, coordenadora intertemporal e geradora de ciclos endógenos.
A análise monetário-financeira torna-se núcleo articulador entre os comportamentos, as instituições e a dinâmica macroeconômica. Bancos e empréstimos, para a alavancagem financeira da rentabilidade patrimonial dos tomadores de crédito, com lucro operacional superando as despesas financeiras, passam a ser instituições e procedimentos fundamentais para entendimento do capitalismo financeiro contemporâneo, resumido na expressão “financeirização”.
Quanto ao método, a Nova Ciência Econômica combina modelagem de sistemas complexos, simulações baseadas em agentes, história econômica comparada, análise institucional, formalização matemática não linear, Economia Política do conflito distributivo, seja na renda, seja na riqueza.
Não tem um método único dominante. Tem sim uma coerência ontológica comum.
Seu Programa de Pesquisa Científica envolve o estudo das crises como fenômenos emergentes, a análise das redes financeiras, a investigação da formação social das expectativas, a dinâmica evolutiva das instituições monetárias, a interação entre desigualdade social e instabilidade financeira, a transformação estrutural sob inovação tecnológica.
Por tudo isso, é aprovada pelo critério de cientificidade. Uma teoria econômica é científica se explica dinâmicas observáveis, incorpora instabilidade endógena, reconhece historicidade, produz previsões condicionais e permite refutação empírica.
Sua finalidade maior é reconectar teoria e realidade histórica, bem como economia e sociedade. Ela reintegra ética, poder e instituições. Abandona o formalismo vazio. Reconstrói a Economia Política em chave sistêmica.
Em síntese, se o paradigma neoclássico foi a ciência do equilíbrio à la Física newtoniana, o keynesianismo a ciência da instabilidade e o marxismo a ciência da estrutura capitalista, a Nova Ciência Econômica se propõe a ser a ciência da complexidade histórica das relações econômicas em evolução. Vamos a divulgar!
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