Além de futebol, cinema e música, quais outras vivências político-culturais teve um passageiro do tempo, desde 1951 até 2026? Foram leituras de literatura de não-ficção ou palestras de notáveis intelectuais públicos? Foram artes plásticas? Foi a imprensa alternativa?
Para alguém nascido na geração baby-boom, tendo atravessado a vida intelectual brasileira até hoje, a formação político-cultural não decorreu de uma única fonte, mas de uma longa sucessão de camadas históricas superpostas. A experiência acumulada dessa geração 68 envolve ter vivido diferentes regimes de sensibilidade, linguagens políticas, meios de comunicação e formas de sociabilidade intelectual.
Essa trajetória produziu algo historicamente inédito: uma memória viva da transformação do Brasil agrário-urbano-industrial em sociedade financeirizada, digitalizada e algorítmica. Cada fase deixou marcas culturais específicas.
A infância dos anos 1950 foi memorizada pela lembrança de rádio, futebol e nacional-desenvolvimentismo. Ao escutar junto com os adultos, ainda pertenceu parcialmente ao Brasil do rádio, das radionovelas, dos auditórios, do futebol como epopeia nacional e do otimismo desenvolvimentista.
A Copa de 1958 e depois a de 1962 tiveram impacto formador gigantesco. Pelé tornou-se um mito como símbolo de modernidade popular, ascensão negra, orgulho nacional e projeção internacional do Brasil. O futebol ainda parecia produzir comunidade nacional relativamente transversal.
A adolescência nos anos 1960 foi de uma politização acelerada. Foram anos marcados por uma explosão mundial de cultura juvenil e consciência política.
A televisão começou a integrar imaginários nacionais. Os festivais de música funcionavam quase como parlamentos emocionais do país.
Ao mesmo tempo, a Revolução Cubana, a Guerra do Vietnã, o maio de 68 em Paris, a luta anticolonial por independência nacional, o golpe de 1964 e o AI-5 em 1968 produziram uma percepção precoce da história como conflito. A juventude universitária passou a viver simultaneamente esperança revolucionária, medo da repressão, descoberta sexual e experimentação estética.
A literatura de não-ficção possibilitou uma formação paralela para muitos futuros intelectuais públicos. A formação decisiva veio tanto de leituras autônomas quanto da universidade formal.
A universidade ensinava técnica ortodoxa. A formação crítica vinha “por fora”. A leitura tinha algo de iniciação clandestina.
Autores como Karl Marx, Antonio Gramsci, Louis Althusser, Herbert Marcuse, Frantz Fanon, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Ruy Mauro Marini, Paulo Freire e Ernest Mandel funcionavam como abertura de horizontes históricos. Muitos jovens descobriram, através das leituras de suas obras, teoria da dependência, imperialismo, luta de classes, ideologia, alienação, colonialismo cultural, racismo estrutural e capitalismo periférico.
A leitura era coletiva por meio de grupos de estudo, xerox, livros emprestados, debates em bares, círculos políticos e assembleias estudantis.
A imprensa alternativa foi decisiva e uma das experiências mais formadoras. Sob censura, jornais alternativos adquiriam aura de verdade subterrânea.
O Pasquim misturava humor, crítica política, irreverência, comentários sobre comportamento e antiautoritaríssimo.
Opinião e Movimento foram jornais alternativos fundamentais para universitários críticos. Publicavam interpretações críticas (algumas interditadas pela censura governamental), denúncias, análises internacionais, debates da esquerda e reflexões culturais.
A imprensa alternativa ensinava leitura crítica da mídia, desconfiança do discurso oficial, articulação entre cultura e política.
As palestras presenciais eram formadoras de opinião crítica. Antes da internet, assistir presencialmente à conferência de um grande intelectual tinha enorme impacto simbólico.
Era um acontecimento social. Os estudantes ficavam em êxtase ao ouvir Milton Santos, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Francisco de Oliveira, Fernando Henrique Cardoso (antes de presidir um governo neoliberal), Antônio Barros de Castro, Carlos Lessa e Maria da Conceição Tavares.
Podia transformar trajetórias intelectuais como a minha. Vim para fazer o curso de Mestrado em Economia na Unicamp quando soube a minha mentora Conceição, A Professora estava vindo para cá, depois do golpe no Chile em 1973.
A oralidade importava muito ao demonstrar carisma, indignação, humor, erudição e capacidade narrativa. A universidade era um espaço de mitologia intelectual.
As artes plásticas e a crítica visual também tiveram importância central, sobretudo, para quem viveu tropicalismo, contracultura e crítica da cultura de massas.
Hélio Oiticica misturava favela, samba, participação corporal, antiacademicismo e experimentação. Cildo Meireles inseria mensagens políticas em circuitos cotidianos como cédulas, garrafas e objetos de circulação.
Arte era espécie de guerrilha semiótica. As artes visuais ensinaram crítica da mercadoria, crítica da representação e questionamento institucional.
A experiência urbana influenciou a formação política. Um intelectual dessa geração também foi moldado pela própria transformação das cidades brasileiras por meio de verticalização, periferização, explosão automobilística, surgimento de shopping centers, espraiamento da violência urbana, favelização na periferia com segregação espacial.
A experiência cotidiana do Brasil urbano tornou-se pedagogia política involuntária.
A geração baby-boom foi a primeira moldada pela televisão. Ela provocou uma ambiguidade histórica, porque integrou o imaginário nacional, popularizou cultura, difundiu consumo, fortaleceu hegemonias conservadoras, mas também boicotou debates políticos ao só apresentar o “lado oficial”.
As novelas, o jornalismo e os programas humorísticos tiveram influência cultural gigantesca. Infelizmente, espelhou (e espalhou) o baixo nível cultural da população brasileira.
Essa geração 68 ainda viveu a passagem para o mundo digital. Passou do uso de carta, telefone fixo, mimeógrafo, máquina de escrever, vinil, VHS para o usufruto de computador pessoal, internet, redes sociais, smartphones e IA generativa.
Isso produziu um tipo singular de consciência histórica comparativa. O intelectual formado nessa trajetória consegue perceber: o que se perdeu; o que se democratizou; o que se mercantilizou; o que se acelerou; o que se fragmentou.
Talvez o traço mais profundo dessa geração seja este. Ela foi formada quando cultura ainda parecia capaz de transformar consciência histórica coletiva.
Cinema, música, imprensa, literatura, universidade, arte e política não apareciam como esferas separadas. Tudo parecia fazer parte de uma mesma luta para compreender o país, interpretar o capitalismo, resistir ao autoritarismo e construir formas mais amplas de emancipação humana.
Foto de capa: IA





