Dizem que voltou mais obediente.
Mais manso.
Aprendeu a falar baixo diante dos homens da bufunfa.
O reino comemorou.
Os mercados respiraram.
Os jornais saudaram a maturidade.
Alívio pairava no ar.
Finalmente, um príncipe responsável.
Agora compreendia os limites.
Falava em estabilidade com a serenidade dos que aprenderam a conter a própria vontade.
O reino seguia desigual.
Mas organizado.
As muralhas financeiras não esmaeceriam.
Os salões continuavam iluminados.
E a fome, marginalizada.
Outra carta foi enviada.
Pedia para continuar.
Os homens do mercado a leram como quem reconhece antigos pactos.
Falava em responsabilidade.
Compromisso.
Nenhum excesso seria tolerado.
Nenhum avanço ultrapassaria a corte.
O príncipe atravessava corredores ladeados por intérpretes da prudência.
Todos lhe acariciando a prudência.
Crescer, sim.
Mas sem afrontar.
Distribuir, talvez depois.
Desde que a corte permanecesse intacta.
Às vezes, o príncipe observava o povo ao longe.
Via corpos exauridos carregando marmitas.
Prometia reconstrução.
Entregava acomodação.
O desenho original deveria permanecer reconhecível.
Houve aqueles que chamassem isso de conciliação histórica.
Outros, responsabilidade fiscal.
Os mais tacanhos falavam em realismo.
Mas o reino era incapaz de vislumbrar além de seus limites.
Tudo precisava caber.
O salário.
O investimento.
O futuro.
O príncipe conhecia a pobreza.
Talvez por isso doesse menos observá-la à distância controlada do poder.
Já não prometia ruptura.
Administrava contenções, como poucos.
E era justamente isso que tranquilizava os homens do mercado.
No fundo, admiravam nele a capacidade rara de governar sem deslocar a corte.
O príncipe envelheceu.
Os discursos tornaram-se mais lentos.
Mais moderados.
Ainda era ovacionado nas praças.
Mas algo havia mudado.
Já não ameaçava os donos do reino.
Apenas administrava os limites permitidos pela corte.
E o reino, acostumado à contenção, passou a chamar limitação de responsabilidade.
Até que um dia todos esqueceram que horizontes foram feitos para ser atravessados.
Foto de capa: IA





