Ruptura Jurídica, Instabilidade Internacional e Fratura da Soberania: Desafios à Ordem Global no Século XXI

Última edição em abril 18, 2026, 11:52

translate

33-1280x640

Iniciamos nossa reflexão pelo trauma coletivo da Covid-19. Com o triste marco de mais de 716 mil óbitos no Brasil e 7 milhões no mundo, a pandemia não foi apenas uma crise sanitária; foi o estopim de uma “ebulição política” global.

O período pós-pandêmico, em vez de gerar solidariedade, revelou um mundo em fragmentação. Dados das principais agências internacionais confirmam um aumento alarmante no número de conflitos armados. Segundo Eugenio Bucci, em artigo no Estadão, “2024 foi considerado o ano mais mortífero desde 1945, com 129 mil mortes em 61 conflitos armados envolvendo 36 países.”

Esses dados indicam que as ferramentas diplomáticas do século XX já não conseguem conter os impulsos bélicos do século XXI. Assistimos à persistência da guerra entre Rússia e Ucrânia e à perigosa escalada entre Índia e Paquistão, ambos detentores da temida bomba nuclear.

No entanto, nada fere mais a consciência jurídica internacional do que o dramático genocídio em Gaza, denunciado pelo Presidente Lula na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, em 2025. O desumano massacre da população palestina — vitimando milhares de mulheres e crianças — ocorre sob um silêncio institucional ensurdecedor.

O cenário se agrava com as posturas imperiais da atual presidência de Donald Trump. Observamos indícios claros de que os Estados Unidos entram em um processo de declínio, possivelmente vivendo um “momento Suez”, como o que atingiu a Inglaterra em 1956, perdendo sua liderança internacional histórica, inclusive perante os países da comunidade europeia.

Além disso, apoiando bombardeios contra o Irã — uma guerra que beira o surrealismo geopolítico, carecendo de respaldo até mesmo entre as populações das potências ocidentais que a financiam —, testemunhamos o despejo aleatório de bombas que matam civis, mulheres e crianças, e destroem hospitais. No primeiro dia dessa guerra insana, um míssil  matou instantaneamente 168 pessoas — a maioria meninas estudantes — numa escola na cidade de Minab, no sul do Irã.

Recentemente, um ataque aéreo atingiu o prédio histórico do Instituto Pasteur de Teerã, instituição centenária de pesquisa do sistema de saúde iraniano. Imaginem toneladas de bombas lançadas sobre nosso Templo da Ciência, a Fundação Oswaldo Cruz, o Hospital das Clínicas da USP ou o Instituto Butantan, em São Paulo.

A recente manifestação do presidente americano, ao vaticinar o fim de uma “civilização persa inteira” e impor prazos fatais sob a retórica da mudança de regime, representa o sintoma máximo de insanidade e da fratura da soberania, onde a linguagem da força suprime os tratados internacionais. A instabilidade deixa de ser um risco para se tornar o novo paradigma da governança mundial, exigindo uma análise profunda sobre a sobrevivência das instituições em tempos de radicalismo algorítmico e geopolítica do ultimato.

Caros leitores, como sabem, corremos o risco de uma desestabilização internacional de proporções catastróficas.

Diante do ataque sistemático ao multilateralismo — com o esvaziamento da ONU, a saída do Acordo de Paris e o abandono da OMS —, surge o questionamento: qual o papel dos BRICS, especialmente China, Índia e Brasil, nesta alteração da geopolítica mundial? Enquanto os EUA recuam de acordos globais, os BRICS emergem como um bloco de contrapeso, mas enfrentam suas próprias contradições internas e desafios de governança. A ascensão dessas potências redesenha o mapa do poder, mas resta saber se essa nova configuração fortalecerá o direito internacional ou apenas criará novas zonas de influência num mundo já fragmentado.

Internamente, nos Estados Unidos, as fissuras em instituições como os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), e a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), provocaram uma diáspora científica sem precedentes. Pesquisadores de excelência se aposentam ou abandonam o país rumo à Europa, China, Austrália e outros lugares, enfraquecendo o polo que outrora liderava a inovação global.

Segundo a revista Science, o governo americano perdeu mais de 10 mil doutores nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) desde que Trump assumiu o poder. Essa erosão do conhecimento é, por si só, uma ruptura ao progresso humano e um sintoma direto da perda de prestígio das instituições americanas.

No entanto, parece surgir uma resistência no cenário estadunidense, com o movimento No Kings , que recentemente paralisou o país de costa a costa, reunindo mais de 3.200 cidades e 9 milhões de pessoas nas ruas contra o governo de Donald Trump.

A ruptura jurídica atinge seu ápice na ameaça direta à soberania nacional. Desde declarações anacrônicas sobre a anexação da Groenlândia e do Canadá até ações concretas de força — como a recente intervenção na Venezuela, o sequestro de seu presidente e o bloqueio desumano imposto a Cuba. Este último, segundo o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES), causa apagões prolongados devido ao desabastecimento energético, comprometendo o funcionamento de UTIs e serviços de emergência.

Somam-se a isso ameaças de intervenção sob o pretexto do combate às drogas ou ao terrorismo. Este “novo expansionismo” ignora tratados e fronteiras, agravando-se pela interferência digital nas democracias do Sul Global. A manipulação de processos eleitorais tornou-se uma ferramenta de controle, e o Brasil, em 2026, posiciona-se como o próximo alvo dessa orquestração que visa desestabilizar nossa autonomia.

É a implementação da imperiosa e perigosa Doutrina Donroe, que já mostra seus tentáculos no acordo militar com o Paraguai — autorizando a presença de tropas estrangeiras sem submissão às leis locais — e no alinhamento ideológico radical entre Javier Milei e o recém-empossado governo de José Antonio Kast, no Chile. Trata-se de uma arquitetura de poder que desafia a autodeterminação dos povos e a ordem global no século XXI.

Nesse cenário, não podemos ignorar o papel e o potencial risco das Big Techs. Alinhadas ideológica e economicamente aos interesses do governo americano, essas corporações detêm hoje um poder transnacional que desafia o Estado-nação. Por meio do controle de algoritmos, da disseminação da desinformação e da vigilância de dados, agem como agentes de uma “soberania digital externa”, representando um risco iminente para a integridade das eleições presidenciais que se aproximam em outubro.

O uso dessas plataformas como armas políticas é a face invisível, mas devastadora, da ruptura da nossa independência.

Conforme debatemos recentemente em nosso Núcleo de Estudos Avançados, com a jornalista Natalia Viana, da Agência Pública, “A Mão Invisível das Big Techs” nunca foi tão presente.

Diante desse cenário, a resistência é fundamental para impedir o avanço dessas nuvens sombrias sobre o nosso país e salvaguardar nossa soberania.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

Foto Renato Cordeiro 2026 1 DSC_8870 (2).JPG
Renato Cordeiro
Pesquisador Emérito da Fiocruz e Membro do Conselho da SBPC.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático