Por Solon Saldanha *
Em um movimento que reorganiza – ou pelo menos altera – as peças do tabuleiro político para outubro, Aécio Neves formaliza convite a Ciro Gomes. Articulação busca reeditar o reformismo tucano sob uma nova roupagem econômica e social.
A cúpula do PSDB surpreendeu o cenário político nesta quarta-feira, em Brasília, ao oficializar o convite para que o ex-ministro e ex-governador cearense, Ciro Gomes, dispute a Presidência da República pela legenda. O anúncio ocorreu durante a abertura da reunião nacional do partido, realizada na Câmara dos Deputados, e marca uma tentativa agressiva da sigla de voltar ao centro do debate executivo federal, utilizando a densidade e a experiência de um de seus quadros históricos.
O retorno às origens e a “nova agenda”
Ciro Gomes, que retornou aos quadros tucanos em outubro de 2025, possui uma trajetória intrinsecamente ligada à fundação do PSDB em 1988, tendo sido o primeiro governador eleito pela sigla no Ceará. Ao formalizar a proposta, o deputado federal e presidente nacional do partido, Aécio Neves, destacou que o Brasil atravessa um momento de exaustão de modelos, sugerindo que o país necessita de uma atualização profunda — comparável ao impacto do Plano Real nos anos 90 — para lidar com as transformações nas áreas do trabalho e da economia globalizada.
“Não encontro hoje no quadro político nacional alguém com tantas qualificações e tão atualizado em relação à realidade brasileira”, afirmou Aécio, sinalizando que a escolha de Ciro foi consensual após diálogos com lideranças como Marconi Perillo.
A resposta de Ciro: entre o Ceará e o Planalto
Ciro Gomes, atualmente com 68 anos e sem exercer cargo público, recebeu o convite com cautela. Embora tenha demonstrado honra com a proposta, o político evitou uma resposta imediata, citando a complexidade do cenário local em seu estado de origem.
“Minha angústia com o Brasil não me permite descartar a candidatura, mas meu respeito e deveres com o Ceará não me permitem aceitar prontamente”, explicou Ciro.
A ausência de mandato atual joga a favor de uma eventual candidatura, uma vez que Ciro não está sujeito aos prazos de desincompatibilização que atingem governadores e prefeitos. Legalmente, o PSDB tem até o dia 15 de agosto para registrar o nome junto à Justiça Eleitoral.
Estratégia partidária e desafios regionais
A investida em um nome de peso nacional como Ciro Gomes ocorre em um momento de reconstrução para o PSDB. Aécio Neves admitiu que o partido ainda busca consolidar sua força em redutos tradicionais, confirmando que a legenda projeta disputar sete governos estaduais em 2026, mas deve se ausentar de palcos históricos como o estado de São Paulo.
A possível candidatura de Ciro também carrega o peso de suas experiências anteriores. Esta seria sua quinta tentativa de chegar ao Palácio do Planalto, após quatro disputas frustradas (a última em 2022, pelo PDT). Além disso, as recentes articulações de Ciro no Ceará, que envolveram diálogos com o PL em busca de apoio para uma possível vaga ao Senado, geraram ruídos internos e críticas da ala bolsonarista, especificamente da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que manifestou preferência por outro nome no Estado.
Cenário de incerteza
Para a cúpula tucana, a eleição de 2026 está “longe de estar definida”. A aposta em Ciro Gomes é vista como um movimento para romper a polarização vigente, apresentando um projeto que una o suposto rigor técnico do PSDB histórico à veia desenvolvimentista que Ciro defendeu em suas últimas campanhas. Resta saber se o “namoro” político resistirá às pressões das bases regionais e à necessidade de coligações em um Congresso cada vez mais fragmentado.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Aécio Neves e Ciro Gomes. Crédito: reprodução CBN




