Por que a reeleição do presidente Lula está subindo no telhado?

Última edição em abril 23, 2026, 11:46

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Historicamente, os incumbentes têm larga vantagem nas tentativas de reeleição. No caso dos EUA, o índice de reeleição envolvendo cargos na Câmara dos Deputados, no Senado, nos Governos de Estado e na Presidência da República chega a impressionantes 90% de média. Os números são tão contundentes que a bibliografia especializada consagrou um termo para o fenômeno: “incumbency advantage”, ou “a vantagem do incumbente”, no belíssimo idioma de Machado de Assis e Guimarães Rosa.

Em relação ao Brasil, estudos desenvolvidos por especialistas da FGV, do IESP/UERJ, da UFMG, da USP e outras instituições de prestígio mostram que as vantagens são observadas, sobretudo, nas eleições para os Poderes Executivos Estaduais e Federal. Basta lembrar que desde que existe reeleição para a Presidência da República, somente Jair Bolsonaro não teve sucesso na tentativa de renovação do mandato. Isso poderia sugerir um amplo favoritismo para o presidente Lula nas eleições que serão celebradas em outubro, mas os ventos políticos não são mais os mesmos, no Brasil e no mundo.

A guinada foi tão radical que especialistas já falam em uma “onda anti-incumbente” nas democracias ocidentais, um ciclo de “anti-incumbency global”, como vem sendo destacado na bibliografia. Indicadores recentes publicados pelo V-Dem Institute demonstram que, desde 2020, partidos incumbentes perderam 40 das 54 eleições realizadas em países ocidentais. Em 2024, mais de 80% das democracias registraram perda de apoio aos incumbentes. Alguns exemplos se notabilizaram como emblemáticos dessa tendência: EUA em 2020 e 2024, Brasil em 2022, Argentina em 2023 e Reino Unido em 2024. Trata-se, portanto, de um fenômeno global que, à direita e à esquerda, está colocando os governos sob constante desconfiança das sociedades, impulsionado pelo que vem sendo definido como “Voto de Castigo”, em que o eleitor pune o governante de ocasião sem maiores preocupações com o que se oferece como alternativa no mercado político.

Desconfiança e rejeição aos governos. É exatamente isso que pesquisas de opinião e eleitorais demonstram estar acontecendo com o governo do presidente Lula. Os motivos podem ser encontrados nessa interação entre fatores globais e nacionais, hierarquizados da seguinte maneira, em ordem crescente de importância:

– O fator Janja:

Longe de ser apenas uma posição alegórica, a primeira-dama costuma desempenhar papel importante na mediação simbólica entre governo e sociedade. Nesse aspecto, a senhora Janja da Silva colabora muito pouco para o governo do seu marido ao protagonizar episódios que desgastam da imagem do presidente Lula: o xingamento direcionado a Elon Musk no G20, o envolvimento com o desfile da Escola de Samba que debochou da tradição conservadora do povo brasileiro, o empenho em disputar o controle da comunicação institucional do governo e a ideia de publicar na internet o preparo de carne de paca, iguaria nobre e cara, justamente quando a população está mal humorada porque a picanha e a cervejinha prometidas na campanha de 2022 não foram entregues. Portanto, ao transitar entre o protagonismo político e o ativismo digital sem um cargo eletivo, a primeira-dama acaba absorvendo e amplificando a rejeição que alimenta a “onda anti-incumbente”. Em vez de servir como ponte para o eleitorado conservador ou moderado, suas ações têm reforçado a percepção de uma elite governante desconectada das prioridades populares.

– Os ativismos identitários.

Um dos principais dramas enfrentados no Ocidente é o colapso das relações formais de trabalho e, consequentemente, o enfraquecimento da organização sindical. Isso afeta especialmente partidos políticos e movimentos sociais que tinham os sindicatos como sua principal base de apoio organizado, como é o caso do PT. Com esvaziamento estrutural dos sindicatos, sobraram os ativismos identitários como possibilidade de apoio organizado, capazes de garantir mandatos e uma fatia do eleitoral que mantém a relevância do partido. O problema é que a retórica identitária é acolhedora para nichos específicos e agressiva para o restante da sociedade, o que provoca um fenômeno que vem sendo definido na bibliografia como “backlash” cultural. Ou seja, transformados em adversários, os grupos não contemplados pelo acolhimento simbólico se organizam em nichos identitários rivais, reagindo na dinâmica de uma intensa guerra cultural. Assim, os governos progressistas vão perdendo a capacidade de consolidar apoio junto às maiorias numéricas. As polêmicas envolvendo a deputada Erika Hilton (PSOL/SP) são emblemáticas do desgaste provocado pelo ativismo identitário aos governos de orientação progressista. Desde sua controversa nomeação para presidir a Comissão de Mulheres da Câmara dos Deputados até a tentativa de censurar as críticas ao PL da Misoginia acionando instituições de Estado como a Polícia Federal e a Advocacia Geral da União. Estimada apenas na bolha da elite cultural progressista e rejeitada pelo restante da população, Hilton está se tornando um personagem tóxico para a esquerda brasileira e para o próprio presidente Lula, que parece subestimar a gravidade da situação.

– O tema da segurança pública.

A esquerda brasileira contemporânea se formou como campo organizado no final da ditadura militar, quando o aparelho repressivo do Estado foi utilizado para matar e torturar adversários políticos. Isso faz com que esse campo político veja com desconfiança o preceito do monopólio da violência legitima, sem o qual não existe o Estado de Direito. Há, então, uma rejeição às polícias como premissa, o que leva as esquerdas a adotaram um discurso que soa leniente com os criminosos. Enquanto o crime estava limitado ao tráfico varejista de drogas, o problema era menor, mas o drama da segurança pública escalou nos últimos anos com as organizações criminosas tornando-se corporações capitalistas com agentes treinados, com fuzil na mão, dominando territórios, monopolizando serviços e oprimindo comunidades inteiras. É certo que apenas a repressão policial não é a solução, mas também é verdade que sem a força policial não é possível retomar os territórios ocupados. Apesar de grave, a violência policial não é o principal problema da segurança pública no Brasil. Por isso, soa ofensivo quando a esquerda utiliza o termo “chacina” para definir eventos em que os mortos eram criminosos dispostos a enfrentar as forças do Estado com tiros de fuzil. Ao parecer leniente com criminosos ou excessivamente crítica às forças de segurança, a esquerda entrega à direita o monopólio de um tema que, hoje, é a maior angústia do eleitor brasileiro, superando até a economia em certas regiões.

– O escândalo do Banco Master

Quem acompanha com atenção a crônica política sabe que o “caso Master” implica os três poderes da República, à direita, à esquerda e ao centro. Mas é inevitável que um escândalo dessa magnitude respingue com mais intensidade em quem está no governo, exatamente aqueles que têm mais a perder com a atmosfera de fim de mundo. A esquerda reagiu muito mal à situação, ao tratar o caso como se fosse a reedição do lavajatismo, como se a Malu Gaspar tivesse inventado o contrato da esposa do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vórcaro ou tivesse obrigado o ex-ministro Guido Mantega a atuar como lobista levando o banqueiro investigado ao gabinete do presidente da República, em uma reunião fora da agenda oficial. Soma-se a isso tudo o escândalo do INSS, com o filho do presidente voando na companhia de lobista, com direito à passagem executiva. Parte da esquerda embarcou muito rápido na defesa dos acusados e na desqualificação das denúncias, como se fosse mais uma “conspiração da grande mídia”. O efeito político mais danoso está no envolvimento de ministros do STF, o que entrega para a extrema-direita o argumento de desqualificação das decisões da corte, incluindo aquelas relativas ao Inquérito do Golpe.

Os limites do reformismo petista

O sucesso eleitoral do Partido dos Trabalhadores foi pavimentado por um projeto reformista que garantiu o combate à pobreza e a redistribuição de renda, sem desestabilizar a estruturas do capitalismo periférico brasileiro. Foi o que de mais próximo o Brasil chegou da experiência da social-democracia. O arranjo foi sustentável porque as expectativas de consumo e ascensão social eram compatíveis com os limites do reformismo petista: três refeições por dia, luz elétrica, água encanada, acesso à universidade, compras no varejo, casa própria em conjunto habitacional popular. Mas o acesso à internet na palma da mão teve um efeito cultural que ainda não é bem compreendido pela maioria dos analistas: os estímulos diários de dopamina estimulam um padrão de consumo insustentável no atual estágio da acumulação capitalista, ainda que as métricas macroeconômicas (desemprego, inflação, crescimento do PIB, renda média) sejam relativamente positivas. É pouco. As pessoas querem mais, tentam ter mais e acabam se endividando, o que instaura uma situação de mal-estar social que tem como resultado a insatisfação com o governo, com a realidade objetiva, com o a vida. Quando o governo não consegue viabilizar o “sonho do consumo infinito” prometido pelo feed do Instagram, o afeto gerado é a frustração, que se converte em ressentimento político. Essa é uma realidade global. Frustração e ressentimento são os afetos que estão derrubando governos mundo a fora.

Quem arriscar qual será o resultado da eleição não fará nada mais além disso: chute, palpite, torcida. Parece não existir mais tempo para que o governo resolva os dilemas estruturais que apresentei neste ensaio. Restará a polarização com o bolsonarismo em termos semelhantes aos que pautaram a disputa de 2022, como defesa da democracia, condução temerária da pandemia, acrescidos do tema da soberania nacional, trazido ao debate pela aliança entre os Bolsonaro e o governo Trump. A ver se funcionará. Certo mesmo é que a vitória do PT em uma tentativa de reeleição não é mais favas contadas. O tempo passa e o mundo mais que gira: capota.


Foto de capa: Evaristo Sá/AFP – 29/7/2

Sobre o autor

Rodrigo Perez
Doutor em história social pela UFRJ, com pós-doutorado na Universidade Complutense de Madrid. Professor do departamento de história da UFBa.

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