Da Redação*
A brasileira Marina Lacerda, que denunciou ter sido abusada sexualmente por Jeffrey Epstein quando tinha 14 anos, afirma que passou a viver sob constante sensação de insegurança após tornar pública sua história. Segundo ela, ameaças e ataques virtuais se intensificaram nos últimos meses, levando-a a adotar medidas de proteção e a conviver com o medo de uma possível agressão.
Em setembro de 2025, Marina participou de uma entrevista coletiva com outras vítimas para pressionar autoridades norte-americanas pela divulgação de documentos relacionados ao caso Epstein. A partir dali, relatos de intimidação começaram a surgir. Comentários em redes sociais sugeriam que ela seria silenciada ou eliminada por ter se manifestado.
Exposição e assédio
A situação se agravou quando o nome de Marina apareceu dezenas de vezes em documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Na internet, ela passou a ser alvo de ofensas e acusações. Além disso, sua filha de 12 anos também teria sofrido constrangimentos na escola em razão da repercussão do caso.
Hoje, Marina afirma morar em um condomínio fechado e diz dormir com uma arma ao alcance da mão. Ela relata viver em estado permanente de alerta e teme que desconhecidos possam invadir sua residência.
Segundo levantamento realizado pela agência Reuters, pelo menos 23 mulheres que acusaram Epstein de abuso sexual relataram ter sofrido ameaças, assédio ou intimidação após se identificarem publicamente ou terem seus nomes expostos nos documentos oficiais divulgados pelo governo norte-americano.
Advogados que representam vítimas afirmam que milhares de informações pessoais teriam sido divulgadas sem a devida proteção, incluindo nomes, endereços, telefones e datas de nascimento. O Departamento de Justiça reconheceu que houve falhas na censura de parte dos documentos e informou ter adotado medidas para corrigir os erros.
Medo compartilhado entre vítimas
Os relatos coletados pela Reuters apontam que diversas mulheres passaram a adotar medidas de segurança após a divulgação dos arquivos. Algumas adquiriram armas, contrataram vigilância privada ou deixaram de circular sozinhas. Há também casos de pessoas que afirmam ter visto desconhecidos fotografando suas residências ou monitorando seus deslocamentos.
Muitas vítimas disseram ter procurado autoridades policiais, mas relataram dificuldades para identificar os responsáveis pelas ameaças. Outras optaram por não registrar ocorrências, alegando desconfiança nas instituições após experiências anteriores relacionadas às investigações sobre Epstein.
As acusações dirigidas às sobreviventes variam entre teorias conspiratórias, ataques pessoais e tentativas de descredibilizar seus relatos. Algumas foram chamadas de oportunistas ou acusadas de buscar ganhos financeiros. Mulheres originárias da Rússia e do Leste Europeu também relataram ter sido apontadas como supostas agentes estrangeiras.
Processos e consequências
As falhas na proteção de dados motivaram ações judiciais. Em março, uma das acusadoras ingressou com uma ação coletiva contra o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e contra o Google, alegando divulgação indevida de informações pessoais de sobreviventes.
O processo sustenta que dados de aproximadamente uma centena de vítimas foram expostos em desacordo com a legislação federal de privacidade. A ação pede a remoção definitiva das informações divulgadas e o pagamento de indenizações.
Jeffrey Epstein foi condenado em 2008 por crimes relacionados à exploração sexual de menores. Em 2019, voltou a ser preso por acusações federais de tráfico sexual envolvendo adolescentes. Ele morreu em uma prisão de Nova York enquanto aguardava julgamento. A investigação oficial concluiu que a morte ocorreu por suicídio.
Desde então, centenas de vítimas receberam compensações financeiras por meio de acordos judiciais e fundos de indenização criados para reparar parte dos danos causados pelo esquema de abusos.
* Redator: Solon Saldanha
Foto: Marina Lacerda. Crédito: reprodução Folha de São Paulo




