O paradoxo do século da informação: quanto mais sabemos, menos pensamos?

Última edição em abril 25, 2026, 04:50

translate

1722003106857

Nunca foi tão fácil acessar o conhecimento — e nunca foi tão comum desprezá-lo. Em segundos, qualquer pessoa pode consultar artigos científicos, bibliotecas inteiras, dados oficiais, aulas de universidades de ponta. O saber, que durante séculos foi privilégio de poucos, tornou-se ubíquo. E, ainda assim, cresce um fenômeno inquietante: a recusa deliberada de pensar. Não é ignorância no sentido clássico. É algo mais sofisticado — e mais perigoso. É a escolha de não saber.

Se, no passado, o fanatismo encontrava abrigo na falta de acesso ao conhecimento, hoje ele se revela por algo mais grave: a rejeição ativa daquilo que está disponível. E essa rejeição não é difusa — ela segue padrões claros. O primeiro deles é o ataque frontal às instituições do saber. Universidades deixam de ser espaços de produção científica para serem rotuladas como centros de doutrinação. Pesquisadores passam a ser vistos com desconfiança não pelo conteúdo de suas pesquisas, mas pelo simples fato de produzirem conhecimento. Livros, antes símbolo de emancipação intelectual, passam a ser tratados como instrumentos de manipulação. Não se trata de crítica — que é essencial à própria ciência. Trata-se de deslegitimação. A história mostra onde esse caminho leva. A queima de livros na Alemanha nazista não começou com fogo, mas com o descrédito sistemático do pensamento divergente. Antes de queimar livros, é preciso convencer as pessoas de que eles não têm valor. No Brasil contemporâneo, esse movimento assume formas mais sutis, mas igualmente preocupantes. Durante a pandemia de COVID-19, assistiu-se à proliferação de teorias conspiratórias, à rejeição de vacinas amplamente testadas e à desconfiança aberta em relação a instituições científicas como a Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan. Não faltavam dados, estudos ou evidências. Faltava disposição para aceitá-los.

O segundo padrão é a substituição da verdade pelo pertencimento. A informação deixa de ser analisada por sua consistência e passa a ser julgada por sua origem: “é do meu lado ou não?”. Nesse ambiente, o erro deixa de ser corrigido — ele passa a ser defendido. Como advertia Hannah Arendt, o problema não é a existência da mentira, mas o momento em que a sociedade perde a capacidade de distinguir entre fato e opinião. Quando tudo vira narrativa, a realidade deixa de ser um ponto comum e se transforma em um campo de disputa emocional. O terceiro elemento é a inversão completa da lógica racional. Exige-se da ciência uma certeza absoluta — que ela, por método, nunca prometeu — enquanto se aceita, sem qualquer filtro, afirmações sem evidência alguma. O rigor passa a ser visto como suspeito; a ignorância, como autenticidade. Esse fenômeno ficou evidente em debates públicos recentes, em que dados técnicos foram descartados com base em “intuições” ou “experiências pessoais”, como se percepção individual pudesse substituir conhecimento acumulado. A recusa em aceitar consensos científicos básicos — do funcionamento de vacinas à própria forma da Terra, em casos extremos — revela não uma falta de informação, mas um rompimento com a própria ideia de verdade verificável.

Por fim, há um traço talvez ainda mais inquietante: o desprezo pelo esforço intelectual. Ideias complexas são rejeitadas não por serem falsas, mas por exigirem tempo, estudo e disposição para o desconforto. Em seu lugar, prosperam explicações simples, imediatas e emocionalmente satisfatórias. O pensamento crítico, nesse cenário, deixa de ser valorizado — ele passa a ser visto como ameaça. Não estamos, portanto, diante de uma sociedade desinformada. Estamos diante de uma sociedade em que parte significativa escolhe não saber. E essa escolha não é neutra. Ela corrói o debate público, enfraquece instituições e abre espaço para todo tipo de manipulação.

O fanatismo do século XXI não precisa censurar livros. Não precisa fechar universidades. Não precisa proibir a ciência. Ele opera de forma mais eficiente. Ele convence. Convence de que estudar é suspeito. De que especialistas não são confiáveis. De que a própria realidade pode ser moldada à vontade. E, quando isso acontece, não há mais necessidade de impor o silêncio porque o próprio pensamento já foi abandonado. Talvez o maior risco do nosso tempo não seja a falta de informação. Seja a perda do desejo de compreendê-la. Porque, quando uma sociedade deixa de valorizar a verdade, ela não se torna apenas mais ignorante. Ela se torna mais vulnerável a tudo aquilo que a verdade sempre impediu: o abuso, a manipulação e, no limite, a própria erosão da liberdade.

Essa degradação do compromisso com a verdade não é apenas um problema cultural ou educacional. Ela tem implicações institucionais profundas. Porque uma sociedade que abandona a racionalidade não enfraquece apenas o debate público, ela fragiliza o próprio Estado que deveria garantir as condições de liberdade.

E aqui é preciso fazer uma distinção essencial: não se trata de defender um Estado autoritário, mas de reconhecer que a liberdade não sobrevive sem estrutura. Como já apontava Thomas Hobbes, a ausência de um poder capaz de organizar a vida em comum não produz liberdade, mas insegurança e, em última instância, submissão à força difusa. Em termos contemporâneos, isso significa que quanto mais fracas são as instituições, menor é a capacidade de proteger direitos, conter arbitrariedades e assegurar um espaço público minimamente racional.

A própria tradição jurídica reforça esse ponto. Para Norberto Bobbio, o Estado de Direito não é a negação da liberdade, mas sua condição de possibilidade: não há liberdade real onde não há garantias institucionais que a sustentem. Liberdade sem estrutura é apenas uma promessa abstrata  facilmente capturada por discursos simplistas e, muitas vezes, autoritários.

Nesse sentido, o enfraquecimento deliberado das instituições, acompanhado da deslegitimação da ciência, da educação e do conhecimento,  não amplia a liberdade. Ele a corrói. Porque, quando desaparecem os referenciais comuns de verdade e as estruturas capazes de protegê-los, o espaço que resta não é o da autonomia individual, mas o da manipulação.

E talvez resida aí o paradoxo final do nosso tempo: em nome de uma suposta liberdade absoluta, abre-se mão das próprias condições que tornam a liberdade possível.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

WhatsApp Image 2026-02-21 at 17.42.19
Lucas Tedesco
Bacharel em Comunicação Social pela UFSM e graduando em Direito pela UFRGS. Atua na área pública com experiência em comunicação institucional e governança.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático