Uma vice católica para Flávio Bolsonaro?

Última edição em abril 22, 2026, 02:10

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Texto do seu parágrafo (23)

Na corrida presidencial deste ano, todas as posições já estão ocupadas, com exceção de uma. Lula (PT) tentará seu quarto mandato com Geraldo Alckmin (PSB), o elemento surpresa de 2022 que permanece na chapa. Do outro lado, Flávio Bolsonaro (PL) ainda busca um nome para compor a vice. Entre os que despontaram nas últimas semanas está o de uma mulher, católica, próxima de Frei Gilson: a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP).

Neste mês de abril, a direção paulista do Partido Progressista divulgou nota afirmando trabalhar intensamente para viabilizar Marquetto como vice na chapa de Flávio. Ciro Nogueira e Guilherme Derrite seriam alguns dos empenhados na empreitada. Entre os principais argumentos que credenciariam Marquetto ao posto está justamente o fato de ser católica e ter acesso a esse campo religioso. Em suas redes sociais, ela aparece rezando o terço, carregando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, em missas ao lado de bispos e padres e beijando a mão do papa Leão XIV.

A movimentação encontrou eco no PL. O diagnóstico interno é o de que com os evangélicos, o terreno está ganho. Com os católicos, não. O próprio líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcanti, foi explícito em declaração recente: “Vamos precisar mudar a tática com os católicos porque estamos perdendo terreno com eles. Dá pra mudar essa relação, inclusive com a vice.”

Os números explicam a urgência. O último Datafolha, divulgado em abril, mostrou que entre os eleitores católicos Lula lidera com 43% das intenções de voto contra 30% de Flávio. Entre os evangélicos, a situação se inverte e Flávio abre vantagem. Ocorre, como Sóstenes bem diagnosticou, que a estratégia para entrar no campo católico é diferente da evangélica. E é aí que Flávio ainda patina.

Com os evangélicos, o bolsonarismo opera por meio das lideranças das igrejas. Busca respaldo e diálogo com os pastores das maiores denominações e atrai para seus próprios quadros legislativos candidatos oriundos desses grupos.

No campo católico, essa estratégia encontra um obstáculo estrutural. A Igreja é mais hierárquica e centralizada que as denominações evangélicas, e sua cúpula institucional não está disponível para negociação. A CNBB mantém distância e bispos progressistas são refratários. O que sobra e agora emerge como estratégia são intermediários avulsos: parlamentares com trânsito em comunidades carismáticas, influenciadores digitais devotos, sacerdotes com presença midiática relevante.

A estratégia de Flávio para a aproximação com os católicos parece se mover nessa direção. Já que não é possível operar como se faz no campo evangélico, a presença no campo católico passará pelo apelo a influenciadores e lideranças do catolicismo digital. O próprio deputado destacado pelo PL para construir essas pontes é sintomático dessa aposta. Trata-se de Eros Biondini, parlamentar do partido, cantor católico, membro da Renovação Carismática e nome com forte presença nas redes. É por esse catolicismo midiático e emocional, e não pelo catolicismo institucional, que Flávio pretende disputar esse campo com Lula.

O campo progressista brasileiro pode desconfiar dessa saída. Afinal, ela aponta para um caminho muito distante daquele que aproximou católicos da esquerda política no último quarto do século XX. A teologia da libertação, que sustentou parte desse processo, foi um fenômeno de massa enraizado na própria estrutura da Igreja, nas comunidades de base, nas pastorais sociais. Nada a ver com influenciadores digitais agindo de forma autônoma, fora de qualquer hierarquia institucional.

Ocorre que a Igreja mudou. O próprio Vaticano tem prestado atenção crescente aos chamados missionários digitais. A canonização de Carlo Acutis, o primeiro santo da internet, como esta coluna já mostrou, é sintomática desse processo. É aqui que a estratégia de Flávio pode funcionar. Com vice católica ou sem ela.


Foto de capa: Reprodução | Redes sociais

Sobre o autor

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Rodrigo Toniol
Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências.

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