O escândalo Master vai esfriar? A nova fase da crise política e moral do capitalismo brasileiro | Por Tarso Genro

Em reflexão contundente, o autor sustenta que o caso Master tende a perder centralidade midiática não por falta de gravidade, mas porque expõe uma engrenagem estrutural entre capital financeiro, crime organizado, extrema direita e desagregação democrática.
Última edição em May 26, 2026, 01:18

translate

O escândalo Master vai esfriar 3

O jogo da informação conduzido pela “grande mídia” vai mudar a partir de agora. O que vai ser privilegiado pelas editorias da grande imprensa e nas redes não será mais o “escândalo” Master.

Neste episódio já está exposta, de maneira escancarada, a “essência” do sistema financeiro global, que não é especificamente brasileiro e cujo núcleo racional está situado mais além da cotidianeidade opressiva das massas: no sistema global “total”.

Este sistema envolve as relações permanentes entre os subterrâneos do crime organizado, mundialmente, e as estruturas legais — reguladas e “normais” — do capital financeiro globalizado.

A lógica do capital financeiro sem fronteiras morais

Também temos que atentar para o fato de que os banqueiros sequer “escolhem” esses caminhos de acumulação e suas decorrências criminosas.

Os banqueiros, no seu mundo social e prático, apenas optam por alternativas: “mais” ou “menos” rentáveis; mais ou menos “seguras”, conscientes ou não, que frequentemente atravessam os limites entre a legalidade e a ilegalidade.

Esses limites hoje, aliás, são meramente formais e, na prática, já não existem mais.

E eles entendem também que isso não lhes diz respeito diretamente.

É a fase de desordem natural, financeira e militar completa: nela, quem faz a lei pode violar a lei. E este é justamente quem está preparado para a guerra. O resto é adequação.

Fascismo cotidiano e violência política

A amoralidade, a loucura senil e a tentação fascista do principal dirigente político do capitalismo mundial furam todos os bloqueios ético-políticos da democracia moderna e liberam, também, os “guardas de esquina” para qualquer tipo de violência.

São eles os que se acham — como Bolsonaro — eleitos para exercer todos os tipos de violência material e simbólica, que recaem sempre sobre os mais pobres e os mais fracos.

O capitalismo globalizado do mundo de hoje é o da “acumulação primitiva” do capital financeiro elevada à enésima potência.

Não apenas porque o próprio processo de acumulação opera com novas materialidades — como as chamadas “terras raras” —, mas igualmente pelas suas formas imateriais expressivas: sinais, dados e fluxos digitais que representam o dinheiro e transitam do clandestino para o legal com um desembaraço espantoso.

A banalização do escândalo

Nestes novos tempos de barbárie estão unidos tanto os agentes dolosos quanto os culposos, além daqueles que simplesmente não querem saber — ou não sabem — onde estão se metendo.

Não há outra alternativa: a grande questão é vencer ou vencer.

Por que o escândalo Master, então, vai esfriar?

Simplesmente porque ele não terá fim e será, em breve, mais uma notícia “vulgar”, sem muitos atrativos como mercadoria jornalística, soterrada por outros fatos “mais graves”, que também atingirão apenas parcialmente a consciência social fragmentada na qual navegam os principais políticos da extrema direita.

E também os da direita conservadora, além dos desavisados e oportunistas de todas as latitudes.

A nova etapa da crise política

Vejam a nova situação.

Ronaldo Caiado entrou na linha de tiro, mas não passou ontem pelo Jornal Nacional.

Waldemar da Costa Neto, fazendo-se de “vesgo para beber em dois copos”, entre risos e afagos, entregou na GloboNews, no dia 25 de maio, seu amigo Flávio Bolsonaro, informando que ele teria ido “re-roubar” a gorjeta do “banqueiro” encarcerado.

Cláudio Castro, politicamente, está mais morto do que vivo, mas passará a ser apenas um resto na varredura limitada dos comandos criminosos do Rio de Janeiro.

Enquanto isso, a gangue golpista do BRB continua navegando e se divertindo nas boas festas da capital nacional.

Todas as notícias e descobertas de crimes passarão agora para uma nova fase, à medida que a verificação dos delitos for se ampliando no espectro da extrema direita e da direita tradicional.

O “udenismo” renovado

A campanha que virá — impulsionada por parte significativa da grande imprensa — será a do “udenismo” renovado.

Ela se baseia no seguinte mantra: “ninguém presta”, “a política democrática é essencialmente corrupta”.

Como não conseguiram construir uma terceira via viável, procurarão uma saída no autoritarismo estável, preparando um golpe futuro e buscando compor uma maioria no Senado, onde os golpes começam.

O desafio estratégico da esquerda

Nestas circunstâncias, basear a campanha do presidente Lula exclusivamente na corrupção das “elites” fascistas e/ou conservadoras é insuficiente para enfrentar a desagregação moral, política e até religiosa que se espalha pelo Brasil e pelas principais democracias do mundo.

A questão central não é ir mais para a “esquerda” ou mais para o “centro”.

A tarefa estratégica é desenhar, no coração da política, um programa factível para uma sociedade mais integrada, mais segura, mais generosa e mais igualitária.

Num longo ciclo histórico em que o presente parece perpétuo, a problemática é outra: retirar a utopia dos longínquos imprevistos da História e trazê-la para a centralidade cotidiana do presente.

Democracia, memória e reconstrução histórica

É aí que venceremos — e vencerá a democracia.

Isso não é uma questão de marketing, mas de capacidade histórica do núcleo dirigente da esquerda reerguida, que se apropriou das lições da vida, onde todos já apanhamos, mas também já vencemos.

E quando vencemos, nunca estivemos sós.


Ilustração da capa: Imagem gerada por IA ChatGPT.

Sobre o autor

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático