O DNA do Sertão

Última edição em abril 29, 2026, 01:41

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A história da transposição do Rio São Francisco é um exame de DNA.

De um lado, temos Marcos Antônio de Macedo, um intelectual de casaca e monóculo que, em 1847, olhou para o mapa do Império e teve um estalo de gênio.

Do outro, um retirante de Caetés, que décadas depois decidiu que a ideia do doutor só funcionaria com muito concreto e um bocado de teimosia política.

​A concepção foi aristocrática, perfumada e totalmente teórica. Macedo foi o pai de “home office” antes da internet existir.

Ele desenhou o futuro com a elegância de quem nunca carregou uma lata d’água na cabeça, propondo um desvio monumental enquanto o Brasil ainda discutia se a iluminação a gás era moderna demais.

Era o projeto perfeito: tecnicamente visionário, politicamente correto e emocionalmente engavetado.

O Império adorava a ideia, desde que ela ficasse restrita ao papel timbrado, pois mover o São Francisco exigia uma força que o café não dava e uma vontade que a corte não tinha.

​Pulando para o século XXI.

Entra em cena o Lula.

A ironia aqui é tão espessa quanto a lama do fundo do rio: foi preciso um homem que saiu do Sertão fugindo da seca para, ironicamente, voltar a ele trazendo o rio atrás de si.

Enquanto Macedo idealizou o projeto por um excesso de intelecto, o retirante o executou por um excesso de memória.

​Há uma justiça poética — ou uma ironia cruel, dependendo de quem olha — no fato de que o “doutor” do século XIX não conseguiu mover uma gota, enquanto o ex-retirante, que a elite jurava não entender de engenharia, resolveu brincar de Moisés com verba do PAC.

O projeto que nasceu nos salões imperiais como um exercício de retórica tornou-se, nas mãos do retirante, um canteiro de obras infinito, recheado de aditivos contratuais e inaugurações por etapas.

​O retirante não queria apenas o DNA da ideia; ele queria o registro civil completo.

Ele pegou o plano de Macedo, tirou a poeira de um século e meio e disse: “Se o Imperador não fez, o retirante faz”.

E fez, transformando o “Velho Chico” em um rio com crise de identidade, que agora sobe escadas (as estações de bombeamento) e atravessa túneis, tudo para provar que, no Brasil, uma ideia pode levar 180 anos para nascer, mas quando nasce, vem com sotaque de Pernambuco e sede de palanque.

O pai é o intelectual, mas quem carregou o filho no colo — e pagou a pensão com o dinheiro do contribuinte — foi o retirante.


Foto de capa: Cânions no Rio São Francisco, na cidade de Canindé de São Francisco, Sergipe | Crédito: Cleferson Comarela

Sobre o autor

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Gastão Bertim Ponsi
Advogado, escritor e ensaísta gaúcho, com atuação destacada na região das Missões, especialmente em São Borja, onde construiu uma carreira marcada pela defesa de trabalhadores, pela reflexão crítica sobre as instituições brasileiras e pela observação atenta das dinâmicas sociais da fronteira. Paralelamente à advocacia, desenvolveu uma produção intelectual que transita entre o ensaio, a crônica e a análise estrutural do Estado brasileiro.

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