A história da transposição do Rio São Francisco é um exame de DNA.
De um lado, temos Marcos Antônio de Macedo, um intelectual de casaca e monóculo que, em 1847, olhou para o mapa do Império e teve um estalo de gênio.
Do outro, um retirante de Caetés, que décadas depois decidiu que a ideia do doutor só funcionaria com muito concreto e um bocado de teimosia política.
A concepção foi aristocrática, perfumada e totalmente teórica. Macedo foi o pai de “home office” antes da internet existir.
Ele desenhou o futuro com a elegância de quem nunca carregou uma lata d’água na cabeça, propondo um desvio monumental enquanto o Brasil ainda discutia se a iluminação a gás era moderna demais.
Era o projeto perfeito: tecnicamente visionário, politicamente correto e emocionalmente engavetado.
O Império adorava a ideia, desde que ela ficasse restrita ao papel timbrado, pois mover o São Francisco exigia uma força que o café não dava e uma vontade que a corte não tinha.
Pulando para o século XXI.
Entra em cena o Lula.
A ironia aqui é tão espessa quanto a lama do fundo do rio: foi preciso um homem que saiu do Sertão fugindo da seca para, ironicamente, voltar a ele trazendo o rio atrás de si.
Enquanto Macedo idealizou o projeto por um excesso de intelecto, o retirante o executou por um excesso de memória.
Há uma justiça poética — ou uma ironia cruel, dependendo de quem olha — no fato de que o “doutor” do século XIX não conseguiu mover uma gota, enquanto o ex-retirante, que a elite jurava não entender de engenharia, resolveu brincar de Moisés com verba do PAC.
O projeto que nasceu nos salões imperiais como um exercício de retórica tornou-se, nas mãos do retirante, um canteiro de obras infinito, recheado de aditivos contratuais e inaugurações por etapas.
O retirante não queria apenas o DNA da ideia; ele queria o registro civil completo.
Ele pegou o plano de Macedo, tirou a poeira de um século e meio e disse: “Se o Imperador não fez, o retirante faz”.
E fez, transformando o “Velho Chico” em um rio com crise de identidade, que agora sobe escadas (as estações de bombeamento) e atravessa túneis, tudo para provar que, no Brasil, uma ideia pode levar 180 anos para nascer, mas quando nasce, vem com sotaque de Pernambuco e sede de palanque.
O pai é o intelectual, mas quem carregou o filho no colo — e pagou a pensão com o dinheiro do contribuinte — foi o retirante.
Foto de capa: Cânions no Rio São Francisco, na cidade de Canindé de São Francisco, Sergipe | Crédito: Cleferson Comarela





