Meu mestre Raimundo Pereira | Por Flávio Aguiar

A trajetória do fundador do Movimento revela um jornalismo guiado pela convicção política, mas ancorado na apuração rigorosa e na defesa intransigente da informação.
Última edição em maio 8, 2026, 03:39

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Da liderança no jornal Movimento à formação de novos quadros, a trajetória de Raimundo Pereira exemplifica a fusão entre a paixão política e a ética inegociável da informação fundamentada

“Ele era grande, mesmo quando exagerava” (Machado de Assis, no elogio fúnebre de José de Alencar”.

1.

Tive confrontos épicos, dramáticos e até cômicos com Raimundo Pereira (1940-2026), sempre motivados por divergências políticas. Não é o momentos para detalhar os confrontos, somente para registrar que existiram. Aqui, agora, quero lembrar que Raimundo Pereira foi um dos meus dois grandes mestres em matéria de jornalismo. O outro foi Bernardo Kucinski.

No fim de 1974 meu amigo Ricardo Maranhão convidou-me para integrar a equipe do jornal Movimento, em formação em São Paulo, sob a liderança de Raimundo Pereira, depois de sua ruptura com Fernando Gasparian, que financiava o jornal Opinião, no Rio de Janeiro. Topei a empreitada, na qualidade de um dos editores de Cultura, compartilhando-a com José Miguel Wisnik. Depois de algum tempo este se afastou do jornal, e eu fiquei como editor de Cultura, tendo Maria Rita Kehl como editora-assistente.

Logo a galeria de meus heróis do jornalismo começou a desfilar perante meus olhos. Além dos já citados Raimundo Pereira e Bernardo Kucinski, vieram Jean-Claude Bernadet, Francisco de Oliveira, Fernando Peixoto, E depois astros como Francisco Pinto, Nelson Werneck Sodré, Lisâneas Maciel, Hermilo Borba Filho, Chico Buarque, Fernando Henrique Cardoso, que então ainda era o Príncipe da sociologia, Eduardo Suplicy, Maria da Conceição Tavares, Maria Moraes, o jovem Guido Mantega, o mais jovem Mutilo Carvalho e muitos e muitos outros e outras, tudo gravitando em torno de Raimundo Pereira e sua aura de jornalista conceituado e amparado por suas atuações anteriores em VejaRealidade e Opinião.

Com o andar da carruagem passei a ocupar a mesa em frente à dele, e dali fui aprendendo o que ele ensinava através de sua prática. Ele transmitia valores como tenacidade e perseverança, paciência e dedicação. Ensinava que a retórica não substitui a pesquisa, que a opinião complementa mas não substitui a informação, porque aquela só pode vir fundamentada nesta, que ler e ouvir adversários e inimigos é tão ou mais importante que ouvir amigos.

2.

Raimundo Pereira ensinou que no longo prazo era possível vencer a censura prévia a que o jornal era submetido, e que tornava duríssimas as condições de trabalho. Tínhamos de aprontar as matérias do jornal semanalmente até a quarta-feira à noite. Daí todas elas seguiam para Brasília, num malote especial. Nelas os censores e as censoras se regalavam até a sexta-feira à tarde, quando as devolviam para nosso correspondente na capital, Teodomiro Braga. Este sentava-se ao telefone, com Tonico Ferreira em São Paulo na frente de uma cópia xerocada das mesmas, e passava, palavra por palavra, linha por linha, parágrafo por parágrafo, os cortes feitos. Por vezes havia matérias inteiras que eram proibidas.

Cumprida esta parte da missão, partíamos para elaborar o jornal com o que restava, entrando pela madrugada adentro. Os que mais sofriam eram Sérgio Buarque de Gusmão, editor de Nacional, e Flávio de Carvalho, da Internacional, cujas seções eram estraçalhadas pela censura. No sábado pela manhã a edição entrava na gráfica, e à tarde um exemplar impresso era levado à delegacia da Polícia Federal em São Paulo, que liberava a edição para seguir aos assinantes e às bancas. E Raimundo Pereira nos liderava através desta loucura toda com sua perseverança, com sua tenacidade e sua fé no jornalismo.

Para mim tudo isto durou até o grande racha do jornal Movimento em abril de 1977. Ali eu, Bernardo Kucinski, Maria Rita Kehl, Maria Moraes, Guido Mantega, Chico de Oliveira e muita outra gente seguimos um rumo alternativo, enquanto Raimundo Pereira e outros e outras seguiram no jornal Movimento.

Não houve mortos, embora tenha havido feridos, alguns com feridas incuráveis durante muito tempo. Hoje tudo está cicatrizado. Voltei a trabalhar ao lado de Raimundo Pereira na tentativa de criar um jornal para o PT, Brasil Agora. Hoje tudo isto e mais alguns jornais que nasceram e morreram pelos caminhos estão entregues às estantes e ao mundo digitalizado das cicliotecas.

Além de ser um grande jornalista, Raimundo Pereira lá pelas tantas quis ser um líder político. Deixou-se envolver por uma aura messiânica de auto-confiança excessiva. Foi neste rumo que tivemos muitas divergências de monta. Cometeu erros? Cometeu. Eu cometi, tu cometeste, nós cometemos, eles cometeram. Quem se julgar incólume, que jogue a primeira lauda ou pedra. Uma coisa posso garantir. Mesmo nos erros que cometeu, seus motivos nunca foram torpes, sempre foram de uma nobreza ímpar.


Foto de capa: Raimundo Pereira (1940-2026) | Reprodução

Sobre o autor

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Flávio Aguiar
Jornalista, analista político e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo).

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