ANÁLISE | Mercado externo versus mercado interno

Última edição em maio 5, 2026, 02:08

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A diferença de rentabilidade entre empresas exportadoras de commodities e empresas da indústria voltada à exploração do mercado doméstico no Brasil está ligada à estrutura produtiva do país e à renda de recursos naturais. Esse fenômeno ajuda a entender vários debates sobre desindustrialização precoce e especialização produtiva.

Em setores baseados em recursos naturais — mineração, petróleo, agronegócio — parte do lucro não decorre apenas de eficiência produtiva, mas da escassez relativa de recursos naturais. Isso é conhecido na tradição da Economia Política como renda diferencial, conceito formulado por David Ricardo.

A lógica é simples: países com terra fértil, minérios abundantes ou petróleo de baixo custo conseguem produzir com custo menor diante do preço internacional; o preço global é determinado pelo produtor marginal (o de maior custo); quem tem custo menor captura uma renda extraordinária. Ela vem de recursos naturais.

São exemplos brasileiros de sua origem o minério de ferro produzido pela Vale S.A., o petróleo extraído pela Petrobras no pré-sal e a soja produzida por grandes produtores no Cerrado. Em muitos períodos, esses setores operam com margens operacionais muito elevadas.

Quatro fatores estruturais possibilitam as exportadoras terem retornos operacionais muito altos.

O primeiro é a escala e a produtividade natural. Grandes jazidas ou extensões agrícolas permitem produção em larga escala. Isso reduz o custo médio e o custo marginal. A diferença entre custo e preço internacional vira lucro.

O segundo é porque os preços são determinados no mercado mundial. As exportadoras vendem a preços formados em mercados globais como Chicago Mercantile Exchange e London Metal Exchange. Esses preços não dependem da renda doméstica brasileira, ou seja, mesmo com recessão interna a exportadora mantém receita elevada.

O terceiro é o câmbio. Quando ocorre desvalorização da moeda nacional, as receitas em dólar sobem em reais. Como muitos custos permanecem em moeda local, isso eleva margens operacionais.

O quarto é a intensidade de capital relativamente baixa em certos casos. Agronegócio e mineração usam muito capital, mas a vida útil longa dos ativos e a grande produção anual dilui os custos fixos.

A indústria doméstica tem margens de lucro menores. Enfrenta restrições estruturais: mercado interno mais limitado, concorrência de importados, custos financeiros elevados, escala menor e cadeias produtivas incompletas.

Além disso, preços industriais não são determinados globalmente da mesma forma como os de commodities. Isso reduz margens.

Quando setores exportadores de recursos naturais têm rentabilidade muito superior, o capital tende a migrar para eles. A moeda nacional pode se apreciar em ciclos de boom e, nesse caso, indústria perde competitividade.

Esse mecanismo é conhecido como “doença holandesa”, termo popularizado após o boom de gás na Holanda nos anos 1960. Daí alguns economistas novo-desenvolvimentistas se precipitam ao afirmarem ser a causa da desindustrialização brasileira.

Como consequência macroeconômica, o país passa a apresentar estrutura produtiva com três polos: setor primário exportador muito rentável, indústria relativamente frágil e sistema financeiro nacional desenvolvido para pagamentos, inclusive digitais, enriquecimentos e financiamentos. Esse padrão é típico de economias ricas em recursos naturais, mas aqui o regime de alta inflação em vigor durante décadas estimulou a agilidade tecnológica com o circuito do dinheiro.

Há relação com a taxa de juros porque se uma empresa consegue retorno operacional de 20–30% ao ano, ela pode tomar dívida corporativa com juros na faixa de 10–15% a.a., ampliar a escala de produção e aumentar o retorno sobre o capital próprio. Isso explica por qual razão grandes exportadoras frequentemente operam com alavancagem financeira, inclusive com endividamento externo mais barato.

A renda de recursos naturais pode gerar grandes superávits comerciais, empresas muito lucrativas, mas não garante diversificação produtiva. Esse é justamente o dilema histórico de várias economias exportadoras de commodities.

Na realidade, a rentabilidade das exportadoras brasileiras muitas vezes supera a das multinacionais industriais, atraídas para explorar um mercado interno de porte superior ao de outros países fora do ranking dos dez maiores PIBs, territórios e populações. O aparente paradoxo — exportadoras de commodities brasileiras com rentabilidade superior à de multinacionais industriais instaladas para atender o grande mercado interno — decorre da interação entre estrutura de preços internacionais, custo relativo de produção e características do mercado doméstico.

Podemos entender isso em cinco mecanismos estruturais. O primeiro é a renda de recursos naturais, devido à vantagem locacional. Empresas exportadoras brasileiras exploram recursos naturais escassos globalmente, mas abundantes no território nacional: minério de ferro de alto teor (explorado pela Vale S.A.), petróleo de baixo custo relativo no pré-sal (extraído pela Petrobras) e produção agrícola em grande escala

Quando o preço internacional é determinado pelo produtor marginal global, produtores com custo muito inferior capturam renda diferencial. O resultado é margens operacionais elevadas, alta geração de caixa e rentabilidade superior à média industrial.

Exportadoras vendem a preços definidos em mercados globais. Refletem a demanda global, a escassez de recursos e os ciclos internacionais de commodities. Já multinacionais industriais no Brasil vendem em um mercado doméstico competitivo e sensível à renda. Consequência têm menor poder de precificação e margens comprimidas.

Quanto à estrutura tributária e regulatória, empresas exportadoras possuem vantagens institucionais como a desoneração de exportações (“Lei Kandir”), incentivos fiscais regionais e logística integrada para exportação. Já multinacionais industriais enfrentam cumulatividade tributária, complexidade regulatória e custos logísticos elevados. Esses fatores reduzem a rentabilidade industrial.

Apesar de o Brasil possuir um dos maiores mercados do mundo (entre os dez maiores PIBs), ele apresenta características capazes de comprimirem  das margens industriais: elevada desigualdade de renda, grande parcela da população com baixo poder de compra e ciclos frequentes de recessão. Assim, multinacionais instaladas no país (por exemplo, a indústria automobilística) muitas vezes operam com: capacidade ociosa, competição intensa por preços e margens menores.

Setores extrativos podem apresentar investimentos iniciais muito elevados e custos marginais relativamente baixos após a implantação. Quando a produção atinge escala plena, a rentabilidade operacional aumenta significativamente.

Outro fator decisivo é o câmbio. Quando o real se desvaloriza, receitas das exportadoras (em dólar) aumentam em reais e muitos custos permanecem domésticos. Isso amplia margens. Já multinacionais industriais dependem mais do mercado interno e de insumos importados.

Como consequência estrutural, esse diferencial de rentabilidade gera um viés estrutural de alocação de capital. Os recursos financeiros migram para setores exportadores de commodities e a indústria enfrenta menor atratividade relativa.

Esse processo contribui para fenômenos como especialização produtiva, desindustrialização precoce e dependência de commodities. Exportadoras brasileiras podem ser mais rentáveis diante das multinacionais industriais porque capturam renda de recursos naturais, vendem a preços globais mais elevados, enfrentam menos compressão competitiva de margens, se beneficiam do câmbio e operam em escala internacional.


Foto de capa: Sistema portuário: importante via de entrada e saída de mercadorias | Reprodução

Sobre o autor

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Fernando Nogueira da Costa
Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.

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