Por Solon Saldanha *
Agravamento do quadro de Alzheimer leva à nomeação de curador para gerir atos civis e patrimônio do ex-mandatário de 94 anos.
A 2ª Vara da Família e Sucessões do Foro Central Cível de São Paulo oficializou, nesta quarta-feira (15), a interdição do ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. A decisão atende a um pedido protocolado pelos filhos Paulo Henrique, Luciana e Beatriz Cardoso, fundamentado no estágio avançado da doença de Alzheimer enfrentada pelo político.
Com a determinação da juíza Ana Lúcia Xavier Goldman, Paulo Henrique Cardoso assume a função de curador provisório. Na prática, ele passa a ser o responsável legal por representar o pai em atos da vida civil e na administração de seus bens e finanças. A magistrada justificou a escolha apontando a relação de confiança já existente, uma vez que Paulo Henrique já atuava como procurador do ex-presidente.
Contexto jurídico e saúde
O processo, que tramita sob segredo de Justiça, foi instruído por um laudo médico detalhado e depoimentos de pessoas próximas à família. A petição destaca que o quadro clínico atual torna Fernando Henrique incapaz de exercer pessoalmente atos de gestão. A interdição foi necessária porque o avanço da enfermidade compromete a validade jurídica de procurações outorgadas anteriormente, gerando um vácuo administrativo que poderia prejudicar a manutenção de cuidados médicos e a gestão patrimonial.
Nesta fase inicial, a curatela foca estritamente na gestão de bens. A extensão definitiva da interdição para outros âmbitos da vida civil dependerá de uma perícia médica oficial, procedimento padrão previsto na legislação brasileira para casos dessa natureza. Tanto a família quanto a Fundação FHC declararam que não se manifestarão sobre o episódio, tratando-o como um assunto de foro íntimo.
Trajetória e legado
Fernando Henrique Cardoso, um dos nomes centrais da história política recente do Brasil, governou o país por dois mandatos consecutivos, entre 1995 e 2002. Sociólogo de renome internacional e um dos fundadores do PSDB, ele foi também o artífice do Plano Real enquanto ministro da Fazenda, no governo de Itamar Franco. Esta medida estabilizou a economia brasileira após décadas de hiperinflação.
Mesmo após deixar o Palácio do Planalto, FHC manteve-se como uma voz influente no debate democrático por meio de sua fundação e de artigos acadêmicos. Sua última grande movimentação política ocorreu no pleito de 2022, quando, em um gesto histórico de pragmatismo, declarou apoio ao atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem fora adversário, reforçando a frente em defesa das instituições democráticas.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Fernando Henrique Cardoso. Crédito: reprodução ICL Notícias




