Eleição na UFBA e crise na reputação das universidades públicas brasileiras | Por Rodrigo Perez

Última edição em maio 6, 2026, 04:59

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A eleição para a reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), prevista para este mês de maio, configura-se como um evento de magnitude nacional, emblemático para a compreensão da crise de reputação que hoje afeta as instituições públicas de ensino superior no Brasil. Segundo a pesquisa realizada pela More in Common com a Quaest, em 2025, 59% dos brasileiros confiam pouco ou não confiam na universidade pública, 51% consideram que as universidades privadas são melhores do que as universidades públicas e 54% acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de qualidade. Seria muito cômodo colocar a responsabilidade desses números apenas na campanha de difamação promovida pela extrema-direita. É importante reconhecer como parte da comunidade acadêmica está colaborando para essa crescente percepção de desconfiança e o processo eleitoral na UFBa mostra isso de modo cristalino.

A UFBA será a primeira universidade a eleger sua administração sob a Lei 15.367, sancionada pelo presidente Lula em março, que extinguiu a lista tríplice e instituiu o sufrágio direto para a escolha de reitores. A partir deste novo marco, o reitor eleito deve ser obrigatoriamente empossado, medida que visa, teoricamente, resguardar o preceito constitucional da autonomia universitária. Utilizo o termo “teoricamente” porque as particularidades do processo eleitoral na UFBA evidenciam riscos à autonomia que costumam ser ignorados ou, ao menos, subestimados por aqueles que localizam as ameaças institucionais exclusivamente no espectro da “extrema-direita”. Antes de aprofundar esse argumento, delineio brevemente o cenário eleitoral da instituição na qual trabalho há quase uma década.

São quatro as chapas inscritas, mas é consenso que a disputa se polarizará entre o atual vice-reitor, Penildon Filho, e o ex-reitor João Salles, que conduziu a instituição entre 2014 e 2022. Pela interlocução que já tive com ambos, estou convencido de sua idoneidade e compromisso institucional. Entretanto, nenhum dos dois parece disposto a enfrentar os debates que hoje são os mais importantes para a universidade pública, sobretudo no que tange à efetiva garantia da autonomia universitária, conforme disciplina o Artigo 207 da Constituição Federal. Seja por pragmatismo eleitoral ou por convicção, ambos se tornaram reféns de partidos políticos e movimentos vinculados a uma ‘esquerda identitária’ que, embora socialmente periférica, revela-se altamente organizada e influente na política acadêmica.

O aceno dos candidatos a esses identitarismos assume contornos caricaturais na corrida pela escolha de uma mulher negra para compor a chapa, na posição de vice, naturalmente. Trata-se de uma inclusão cosmética, um ‘verniz’ destinado apenas a conferir brilho à superfície. Tanto Penildon quanto João são homens brancos, heterossexuais (até onde se sabe) e “cisgêneros”, valendo-me aqui do jargão identitário. Convidaram mulheres negras para suas composições na tentativa de camuflar seus próprios marcadores identitários, lidos como máculas existenciais pelos grupos que cortejam com afinco para alcançar o Palácio do Canela. Penildon optou por Bárbara Coelho; João Salles, por Jamile Borges. Ambas são docentes e lideranças de competência testada, e poderiam perfeitamente estar nas cabeças das chapas. Mas acabaram reduzidas à condição de avalistas simbólicas dos homens que protagonizam o pleito. O paradigma da representatividade identitária tem suas contradições.

O cargo de reitor na UFBA, única universidade federal de Salvador, carrega um prestígio singular, distinto do que ocorre em metrópoles como Rio de Janeiro ou São Paulo, onde a influência é diluída entre múltiplas instituições. João Salles já experimentou o gostinho; seu retrato pintado em trajes aristocráticos nas paredes da reitoria. Penildon, após quatro anos no gabinete adjunto, almeja o mesmo lugar na galeria. Não há nenhum problema moral em tal ambição, e ambos se consideram aptos a liderar a principal universidade do Nordeste. No entanto, faltam-lhes as condições necessárias para uma gestão de fato independente, justamente por estarem completamente controlados pelos seus apoiadores, cujos interesses estão na política nos âmbitos municipal, estadual e nacional, sendo a universidade apenas um trampolim.

Penildon está próximo ao PT baiano, grupo que exerceu forte influência ao longo deste terceiro mandato do presidente Lula. João Salles adotou um alinhamento com o PSOL tão explícito e caricato que destoa da imagem de equilíbrio e decoro institucional que cultivou em sua trajetória. Nesta campanha, o ex-reitor rompeu com qualquer liturgia ao deixar-se fotografar com militantes e lideranças psolistas, além de participar de debates sobre os ‘impasses da esquerda brasileira’ ao lado de Kléber Rosa, candidato da legenda nas últimas eleições municipais de Salvador. Embora o período de Salles à frente da reitoria seja amplamente elogiado por observadores internos e externos, ele parece agora não se importar com a percepção cada vez mais difundida de que atua como um longa manus do PSOL.

A eleição na UFBA apresenta particularidades que fariam jus a um quadro de Salvador Dalí. Penildon Filho é o atual vice-reitor na gestão de Paulo Miguez, que, por sua vez, ascendeu ao cargo com o apoio de João Salles em 2022. Eram, portanto, aliados. Algo de grave deve ter ocorrido para que Penildon rompesse com a administração da qual faz parte, enquanto Salles conta hoje com o apoio entusiasmado do atual reitor. Sim, leitor e leitora, o cenário é este: o vice-reitor não é o candidato da situação, e a continuidade da gestão é representada no pleito por aquele que, em tese, seria oposição.

A temperatura da disputa está elevada, permeada por acusações mútuas que colaboram para o esgarçamento do já fragilizado tecido social da UFBA. A instituição tem se notabilizado por escândalos que orbitam desde episódios como o projeto ‘Educando com o cu’ até plenárias sindicais marcadas por empurrões e sopapos, passando por agressões físicas entre docentes com direito a Boletim de Ocorrência e ampla cobertura da imprensa local. Diante desse quadro, não surpreende que a reputação das universidades públicas brasileiras esteja tão fragilizada, e a responsabilidade, como se vê, não pode ser creditada exclusivamente à ‘extrema-direita’.”

Não seria exagerado afirmar que Penildon e João Salles fazem parte (ou fizeram) do grupo político que detém o controle da instituição há doze anos. Nesse período, a UFBA testemunhou a erosão de seu prestígio, com quedas sensíveis em rankings nacionais e internacionais, à medida que converteu a ‘inclusão’ em sua prioridade absoluta, relegando a um plano secundário o ensino de excelência, a extensão de impacto e o desenvolvimento científico e tecnológico de ponta. Em entrevista concedida à Rádio Metrópole em fevereiro de 2024, o Reitor Paulo Miguez declarou, sintomaticamente, sentir-se mais incomodado com o Restaurante Universitário precarizado do que com um laboratório deteriorado. É como se a universidade tivesse sofrido uma metamorfose, sendo transformada em uma ONG ou em um CRAS (Centro de Referência em Assistência Social) de grandes dimensões, escanteando seu compromisso fundamental: a formação de profissionais de ponta capazes de conduzir o desenvolvimento do país.

Confesso que minha inclinação inicial era a abstenção, pois, como já disse, nenhum dos candidatos parece disposto a confrontar o aparelhamento e a sabotagem institucional gestados na ‘esquerda identitária’. Falta-lhes coragem política para romper com a lógica “ONG/CRAS’ e reconduzir a assistência estudantil ao seu devido escopo: garantir condições mínimas de permanência mediante contrapartida de desempenho acadêmico. Afinal, não compete à universidade a execução de políticas públicas de transferência de renda e o estudante universitário não pode ser alçado à condição de um tipo especial de pobre que teria a prerrogativa do acesso a uma modalidade de proteção social que não está disponível aos outros pobres do país. Não há orçamento e expertise para uma jornada assistencialista dessa dimensão. Não será a universidade pública a corrigir os efeitos mais perversos da acumulação capitalista.

Estou convencido de que uma chapa ‘conservadora’ (no sentido mais nobre do termo, como preservação institucional) que defendesse a autonomia universitária contra todos os projetos de aparelhamento e reafirmasse o compromisso com a excelência, o trabalho e a meritocracia, obteria apoio surpreendente. Há muitos insatisfeitos na universidade, uma insatisfação silenciosa e desorganizada, silenciosa porque desorganizada e desorganizada porque silenciosa. É provável que essa chapa “conservadora” não vencesse a eleição, mas instauraria um debate urgente cujos frutos seriam colhidos no futuro. Definitivamente, não serão João ou Penildon os protagonistas dessa necessária ruptura.

João Salles, contudo, extrapolou os limites ao alinhar-se tão explicitamente a grupos que se destacam pela truculência com que tentam aparelhar a instituição, perseguindo docentes, discentes e servidores dissidentes. Se eu comparecer às urnas entre os dias 20 e 21 de maio, será para votar em Penildon Filho, ainda que sob severas ressalvas, com profunda insatisfação e muito preocupado com o futuro não apenas da UFBA, mas da universidade pública brasileira, tão maltratada à direita e à esquerda.


Foto de capa: Reprodução | UFBA

Sobre o autor

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Rodrigo Perez
Doutor em história social pela UFRJ, com pós-doutorado na Universidade Complutense de Madrid. Professor do departamento de história da UFBa.

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