A visita de Lula e o sonho português

Última edição em abril 26, 2026, 08:10

translate

16d79efb-b41c-4308-8ec2-1b0fcb72f742

Três anos depois da sua primeira visita no atual mandato, o presidente Lula voltou a Portugal desta vez para uma rápida estadia e para cumprir uma agenda de temas como aeronáutica, cooperação em ciência, tecnologia e inovação. Além de um assunto sensível e de interesse dos 700 mil brasileiros que vivem no país, como os relativos à própria imigração e combate à xenofobia e outras formas de intolerância. Uma nova lei da nacionalidade, aprovada com os votos da direita e da extrema direita, encontra-se nas mãos do presidente Antônio José Seguro esperando a sanção e foi classificada pelo governo brasileiro como um assunto delicado.

Lula enfrentou mais uma vez protestos porque se tornou um alvo simbólico para a extrema-direita portuguesa, que o associa a corrupção, à esquerda latino-americana e a uma postura “ambígua” em relação à guerra da Ucrânia. Esses protestos expõem como a relação luso‑brasileira, embora oficialmente muito próxima, está atravessada por tensões ligadas à imigração brasileira, ao avanço da extrema-direita em Portugal e à importação da polarização política do Brasil para o espaço público português. Grupos de brasileiros bolsonaristas associaram-se às manifestações de rua contra Lula vestindo a camisa amarela da seleção brasileira de futebol. Muitos, de camisa vermelha, davam boas-vindas ao presidente. A polícia calculou em aproximadamente trezentas pessoas de cada lado.

A convocação para o protesto, em frente ao Palácio de Belém, partiu do partido de extrema-direita Chega, que diz ser a manifestação explicitamente “contra a vinda de Lula a Portugal”. O Chega já tinha feito Lula de alvo em 2023, quando seus deputados exibiram no Parlamento cartazes como “lugar de ladrão é na prisão” enquanto ele discursava.

Endurecimento

Portugal aprovou um pacote de medidas que endurece a vida dos imigrantes: fim da regularização a partir de entrada como turista, regras mais duras para reunião familiar e facilitação de deportações, políticas que atingem diretamente os brasileiros que vivem no país. Relatórios europeus chamaram a atenção para o aumento de xenofobia, sobretudo no acesso à habitação, com superlotação e exploração.

O Chega capitaliza este clima com um discurso anti-imigração que descreve como “conservador, liberal e nacionalista”. Ao convocar protestos “contra Lula”, o partido fala ao mesmo tempo para uma base portuguesa anti-imigração e para os brasileiros alinhados com o bolsonarismo, transformando o presidente em emblema de uma imigração e de uma esquerda que eles desejam combater.

No plano oficial, a relação continua intensa: só na XIV Cimeira Brasil–Portugal, em 2025, foram assinados mais de vinte acordos em áreas como saúde, segurança pública, turismo, tecnologias digitais, clima e combate ao crime organizado.

Os protestos contra Lula tornam visível o descompasso: por um lado, governos que celebram uma “fraternidade” luso-brasileira; por outro, uma rejeição ao presidente brasileiro e uma parte da sociedade que vê com desconfiança a presença massiva de imigrantes do Brasil. A cena de 2023, com deputados da direita radical a interromper o discurso de Lula enquanto a esquerda o aplaudia e manifestantes pró e contra se enfrentavam nas ruas, ilustra como a polarização brasileira foi importada para o sistema político português.

As críticas portuguesas à posição de Lula sobre a guerra da Ucrânia revelam uma divergência de sensibilidades geopolíticas: para parte da direita lusa, a sua defesa de negociações de paz soa a relativização da agressão russa, o que choca com uma leitura mais alinhada com o eixo euro atlântico. Em suma, os protestos mostram que as relações luso-brasileiras hoje são simultaneamente próximas e tensas: economicamente e culturalmente entrelaçadas, mas atravessadas por conflitos sobre imigração, racismo, extrema-direita e visões distintas da ordem internacional.

Em Portugal, vivem cerca de 368 mil brasileiros, segundo o relatório da AIMA, a agência que trata da imigração, com base nos dados de 2024 e início de 2025. Outras estimativas usadas na imprensa colocam o total perto dos 400 mil ou até acima de 500 mil, dependendo se a contagem considera apenas residentes oficiais ou outras fontes e critérios. Uma estimativa aceita ultimamente calcula em 700 mil os brasileiros residentes em Portugal, contabilizados os que se encontram com e sem documentos.

Lula elogiou a política migratória da Espanha, que reconhece a contribuição de brasileiros. Disse “a política espanhola de regularização migratória reconhece” a contribuição que “os milhares de brasileiros que escolheram a Espanha como lar” estão dando “para a prosperidade” do país. Pelos cálculos do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, cerca de 162 mil brasileiros vivem regularmente em território espanhol.

A Espanha, sob governo do socialista Pedro Sánchez, aprovou a regularização imediata de 500 mil imigrantes de diversos países. Segundo diplomatas brasileiros citados pelo jornal Público Brasil, as declarações de Lula são um contraponto ao que se vê atualmente em Portugal, onde o Governo de direita, de Luís Montenegro, com o apoio da extrema-direita, vem apertando as regras para a imigração, mesmo com a escassez de trabalhadores em setores estratégicos, como agricultura, construção civil e turismo, e com o envelhecimento da população.

Dificuldades

Os imigrantes brasileiros em Portugal enfrentam, hoje, uma combinação de dificuldades econômicas, burocráticas e sociais que contrasta com o ideal de qualidade de vida que os motivou a migrar. Se, por um lado, a língua comum e a proximidade cultural facilitam a comunicação, por outro, o choque de realidade pode ser forte, sobretudo em relação a custo de vida, trabalho e habitação.

Uma das maiores dificuldades é a discrepância entre rendimentos e despesas, especialmente em Lisboa e outras grandes cidades. O aluguel é frequentemente considerado absurdo em relação ao salário-mínimo, que é um dos mais baixos da Europa, levando muitos brasileiros a viver em quartos pequenos ou alojamentos superlotados.

Muitos brasileiros chegam com formação superior e experiência, mas se deparam com dificuldades para atuar na área em que foram formados. A falta de reconhecimento de diplomas, a necessidade de certificações específicas e a exigência de NISS (Número de Inscrição na Segurança Social) antes de alguns empregadores os contratarem criam uma espécie de círculo vicioso: precisam de trabalho para se regularizar e de se regularizar para conseguir trabalho. Como resultado, muitos são empurrados para trabalhos informais ou menos qualificados, com salários abaixo da média e em condições precárias.

A tramitação de vistos, residências, autorizações e renovações é frequentemente apontada como um dos freios à estabilidade. A burocracia pesada, a falta de vagas e atrasos em serviços como a AIMA ou a Segurança Social geram incerteza sobre a situação legal, o que, por sua vez, limita acesso a emprego formal, crédito e até mesmo à habitação. Além disso, mudanças recentes na legislação de imigração aumentaram os requisitos para reagrupamento familiar e para a obtenção de autorizações de residência, tornando mais difícil trazer a família ou estabilizar a vida a longo prazo.

A integração social costuma ser mais fácil do que em outros países europeus devido à língua comum, mas não significa ausência de barreiras. Parte da população portuguesa vê a imigração com desconfiança, e há relatos de preconceito, discriminação e até situações humilhantes durante fiscalizações policiais, especialmente em contextos de maior controle migratório. Ao mesmo tempo, a falta de redes de apoio inicial (parentes, amigos, referências locais) pode acentuar o sentimento de isolamento, especialmente em cidades como Lisboa ou Porto, onde a vida é mais cara e menos “desacelerada” do que o esperado.


Foto de capa:  Ricardo Stuckert / PR

Sobre o autor

WhatsApp Image 2026-02-13 at 09.59.17
Celso Japiassu
Autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático