Celso Amorim vê gesto inédito dos EUA após Marco Rubio excluir Brasil de lista de aliados

Ex-chanceler e assessor especial de Lula afirma que a declaração do secretário de Estado dos Estados Unidos é inédita em mais de dois séculos de relações diplomáticas e compara o episódio aos momentos mais tensos da Guerra Fria.
Última edição em junho 5, 2026, 08:12
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Celso Amorim, assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República - Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Da REDAÇÃO*

A declaração do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, de que o Brasil não integra a atual coalizão de países alinhados aos interesses norte-americanos provocou forte reação do assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim. Ex-ministro das Relações Exteriores e um dos principais conselheiros do presidente Lula para política externa, Amorim classificou a fala como “inédita” nos mais de 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.

Durante entrevista à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, Amorim afirmou que nem mesmo nos momentos mais tensos da relação bilateral houve uma manifestação semelhante por parte da diplomacia norte-americana.

“Declaração inédita” na história diplomática

Ao comentar a fala de Rubio, Amorim fez referência ao período que antecedeu o golpe militar de 1964 no Brasil, quando documentos históricos apontam apoio de autoridades norte-americanas à derrubada do presidente João Goulart.

“A declaração de Rubio é inédita. Nem quando o Dean Rusk [secretário de Estado dos EUA entre 1961 e 1969] e o Lincoln Gordon [embaixador dos EUA no Brasil entre 1961 e 1966] estavam conspirando para derrubar o presidente João Goulart, um secretário de Estado excluiu o Brasil da lista de países amigos”, afirmou Amorim.

O assessor de Lula também demonstrou preocupação com os possíveis desdobramentos políticos e diplomáticos da declaração.

“É uma declaração impressionante e preocupante. Precisamos ver o que ocorrerá a partir disso, mas nem quando havia conspiração essa situação foi formalizada”, acrescentou.

O que disse Marco Rubio

A controvérsia surgiu durante uma audiência no Senado dos Estados Unidos. Ao defender a política externa do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Rubio afirmou que a América Latina vive um momento de aproximação com Washington e que a maior parte dos governos da região é favorável aos interesses norte-americanos.

Em seguida, porém, excluiu alguns países desse grupo.

“Com exceção da Nicarágua, de Cuba, obviamente da Venezuela, que ainda enfrenta alguns desafios, e do Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, em certa medida, também do atual governo da Colômbia (…), trata-se agora de uma região repleta de aliados dos EUA”, declarou Rubio.

A inclusão do Brasil ao lado de países historicamente criticados por Washington foi interpretada por integrantes do governo brasileiro como um sinal de deterioração das relações bilaterais.

Tensão crescente entre Brasília e Washington

A fala de Rubio ocorre em meio a uma sequência de medidas adotadas pelos Estados Unidos que vêm aumentando o atrito com o governo brasileiro.

Nos últimos dias, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Pouco antes, o governo norte-americano anunciou a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Já nesta semana, Washington incluiu o Brasil em uma investigação relacionada ao combate ao trabalho forçado e propôs uma nova sobretaxa de 12,5% para países enquadrados nesse processo.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é de que as declarações de Rubio e as recentes medidas comerciais indicam um endurecimento da postura dos Estados Unidos em relação ao Brasil, abrindo um novo capítulo de tensão diplomática entre os dois países.

Fonte: Entrevista de Celso Amorim à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, publicada em 3 de junho de 2026.

*Redator: BTC


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