O campeão do terror | Por Manuel Domingos Neto

Da Antiguidade às disputas geopolíticas contemporâneas, o texto argumenta que o terror é instrumento recorrente de conquista, controle e preservação do poder.
Última edição em junho 4, 2026, 07:58

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O terrorismo é mal definido porque consiste em expediente guerreiro e guerra não pode ser percebida com objetividade certeira: desperta, de forma absoluta, instintos, pulsões e tendências reprimidas; desencadeia violência cega, difícil de ser contida.

Protagonizada por alguns, a guerra envolve a todos, sendo vaga a distinção entre atividade “civil” e atividade “militar”. Corriqueira, é sempre espetacular. Repugna e fascina, alegra e entristece, bestifica e glorifica. Justificada em nome de princípios supremos, ignora valores consagrados, constrói e destrói sociedades. Oferece patrimônio simbólico sacrossanto, legitima o poder político e, enganosamente, nutre esperança de futuro melhor.

Escapando da complexidade do fenômeno, muitos repetem levianamente Clausewitz: a guerra seria a “continuação da política por outros meios”. A distinção arbitrária entre guerra e política lhes permite o conforto de pensar que o objetivo da guerra é a paz, não o exercício do domínio ou a conquista da liberdade.

Clausewitz não foi tão raso. Definiu a guerra como “ato de violência destinado a forçar o adversário a executar nossa vontade”. A vontade dos que guerreiam transcende o que pode ser admitido como objetivo político. A guerra antecede a política. Humanos sempre se mataram ao perceber sua reprodução ameaçada.

Mas, a matança em grande escala ocorre na construção e preservação de impérios. O domínio sobre muitas comunidades é efetivado com terror intensivo, transformando um instinto primal, o medo, em pavor coletivo. O terrorista visa enfraquecer ou anular a reação de sua vítima. Essa prática é universal e atemporal.

O terror é usualmente combinado com a demonização do “inimigo”, a negação de comida e água, pilhagens, saques, suplícios, execuções sumárias, estupros, genocídios, humilhações, diásporas, profanações de símbolos sagrados, escravização, servidão, enfim, com a brutalidade absoluta. O genocídio em Gaza e a destruição de uma escola de crianças em Teerã não foram eventos extraordinários, mas a manutenção de rotina histórica que iguala “primitivos” e “civilizados”.

Nenhum império, regime ditatorial ou força libertária dispensa a prática do terror e sua posterior glamourização, porque o exercício do mando demanda mais que brutalidade física. Impérios requisitam os melhores talentos para exaltar pretensas vantagens oferecidas aos dominados e obter o seu consentimento.

Houvesse ranking dos maiores terroristas segundo a capacidade de disseminar pavor e pânico, a Casa Branca seria imbatível, não porque detenha meios para extinguir a humanidade, mas por ser capaz de impor padrões de beleza, justiça e bondade, estabelecer leis extraterritoriais, decidir unilateralmente condições de intercâmbios globais e deixar à míngua os que não se submetem aos seus desígnios.

A capacidade de abalar economias, assassinar, derrubar ou sequestrar governantes, desencadear guerras por procuração, impor dependência em armas e equipamentos militares, dominar a comunicação planetária, interferir na vontade de países formalmente soberanos desconsertaria terroristas famosos como Ciro, Alexandre, César, Gengis Khan, Napoleão, a rainha Vitória, Hitler… 

A modestíssima capacidade de autodeterminação do Brasil será testada nas eleições de outubro. Decidiremos pela servidão ou pela honra nacional. Ao incluir organizações criminosas como “terroristas”, a Casa Branca avisou que mandará bala em nosso espaço quando lhe aprouver. Mostrando coerência, estabelece cerco ao nosso território por meio de aliados sul-americanos.

Muitos aplaudem a interferência da Casa Branca na Segurança Pública brasileira. Alguns generais torcem a cara, mas não ao ponto de sugerir a quebra de laços longevos.

O Senado aceita candidamente a permanência em seus quadros do sujeito que foi a Washington oferecer o país de bandeja e incentivar seu terrorismo.

Grandes empresários parecem ser unânimes em buscar acomodação com o campeão do terror.

Reformistas sociais se contentam com defesas retóricas da soberania brasileira. Por desaviso ou sei lá o quê, deixaram a bandidagem surrupiar as cores de nossa bandeira.

O quadro geral angustia, mas há esperança. A campanha eleitoral pode mobilizar o sentimento coletivo mais poderoso conhecido na história, o amor à pátria. Para efeito, esse sentimento arrebatador precisa ser tipificado objetivamente como defesa de nosso patrimônio.  

O grito de dignidade do Brasil deve ser bem forte, ao ponto de desmascarar os traidores da pátria e conter Trump, o vencedor do campeonato mundial do terror.


Foto de capa: Reprodução / Flickr

Sobre o autor

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Manuel Domingos Neto
Doutor em História pela Universidade de Paris, escreveu O que fazer com o militar – Anotações para uma nova Defesa Nacional.

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