Semana do meio ambiente: nada a comemorar? Um rápido balanço | Por Liszt Vieira e Pedro Ivo Batista

Mudanças na legislação ambiental colocam em debate os limites entre crescimento econômico, preservação da natureza e direitos das comunidades tradicionais.
Última edição em junho 2, 2026, 12:55

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Em 2025 e 2026, o Congresso Nacional aprovou uma série de medidas criticadas por ambientalistas, pesquisadores, cientistas, povos indígenas e pelo próprio Ministério do Meio Ambiente por reduzirem mecanismos de proteção ambiental. As principais medidas foram as seguintes:

1. Nova Lei do Licenciamento Ambiental (“PL da Devastação”)

          A principal mudança foi a aprovação da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental (PL 2.159/2021), transformada na Lei 15.190/2025. Essa lei amplia o autolicenciamento ambiental, dispensa licenciamento para diversas atividades agropecuárias, reduz exigências de estudos de impacto, enfraquece a participação de órgãos ambientais e indígenas e facilita obras de infraestrutura sem análise aprofundada. O Congresso ainda derrubou grande parte dos vetos do presidente Lula, restaurando pontos considerados mais permissivos.

          2. Licença Ambiental Especial (LAE)

            Outra medida aprovada criou uma modalidade especial e acelerada de licenciamento para projetos considerados estratégicos. Isso traz como consequência acelerar grandes obras com análise reduzida, diminuir o controle técnico, aumentar riscos socioambientais.

            3. Avanço de projetos de regularização fundiária (“PL da Grilagem”)

              Continuaram avançando projetos que flexibilizam a regularização de ocupações em terras públicas, como os PLs 510/2021 e 2633/2020. Esses projetos estimulam invasões de terras públicas, favorecem grilagem e incentivam desmatamento na Amazônia.

              4. Marco Temporal para terras indígenas

                O Congresso aprovou a tese do marco temporal, convertida na Lei 14.701/2023, mesmo após o Supremo Tribunal Federal considerar a tese inconstitucional. Essa lei dificulta novas demarcações, ameaça territórios indígenas e enfraquece uma das principais barreiras contra o desmatamento.

                5. Flexibilização de regras para agrotóxicos

                  Também avançaram mudanças conhecidas como “PL do Veneno”, reduzindo o peso de órgãos de saúde e meio ambiente na autorização de pesticidas. Essas medidas incluem maior liberação de substâncias tóxicas, redução do princípio da precaução, riscos à saúde pública e biodiversidade.

                  6. Pacote de projetos antiambientais

                    O Observatório do Clima identificou cerca de 70 projetos considerados ameaças socioambientais em tramitação no Congresso em 2026.

                    Entre os temas encontram-se o enfraquecimento da fiscalização ambiental, a redução de áreas protegidas, a flexibilização de reservas legais, a mineração em áreas sensíveis e a redução de proteção a comunidades tradicionais.

                    As organizações ambientalistas, cientistas e os setores ambientais do Governo afirmam que essas mudanças vão aumentar o risco de desmatamento, fragilizar metas climáticas, ampliar conflitos fundiários e comprometer compromissos internacionais do Brasil sobre clima e biodiversidade.

                    Esses Projetos de Lei provocam retrocesso na legislação ambiental e ameaçam biomas e a biodiversidade do Brasil, pois impactam a proteção da fauna e flora, conservação de campos nativos e fiscalização remota sobre áreas desmatadas.

                    O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) apresentaram em 20/5 passado os impactos negativos do pacote de Projetos de Lei (PLs) em tramitação no Congresso Nacional que busca fragilizar a proteção ambiental em diferentes frentes no país.

                    O PL nº 364/2019 tem potencial de eliminar mais de 50 milhões de hectares de vegetação nativa não florestal, que poderão ser desmatados sem autorização e nenhuma transparência ou controle nos biomas Cerrado, Pantanal, Pampa, Mata Atlântica e Caatinga.

                    O PL nº 5.900/2025 coloca em risco a fauna e flora ao interferir na competência institucional da tutela ambiental atribuída ao MMA na atuação sobre espécies com interesse econômico. Também sob ameaça está a Floresta Nacional do Jamanxim, localizada no município de Novo Progresso, no Pará. O PL 2.486/2026 reduz os limites da Unidade de Conservação ao converter quase 40% de sua extensão em Área de Proteção Ambiental (APA), com menor grau de proteção.

                    Já o PL nº 2.564/2025 propunha alterar a Lei de Crimes Ambientais, enfraquecendo a aplicação de medidas administrativas cautelares e fragilizando o poder de polícia ambiental dos órgãos responsáveis, contrariando os princípios da prevenção e da precaução.

                    Por outro lado, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 504 de 2010, que inclui o Cerrado e a Caatinga entre os biomas considerados patrimônio nacional, foi aprovada no Senado e depois de mais de uma década aguarda votação na Câmara dos Deputados, onde foi paralisada pela pressão dos interesses econômicos contrários.

                    Apesar de toda essa ofensiva para destruir o meio ambiente, o desmatamento no Brasil, inclusive na Amazônia, caiu no ano passado para o menor nível desde 2019 e ficou, pela primeira vez, abaixo da barreira de um milhão de hectares de vegetação perdida, afirma um relatório divulgado pela rede de monitoramento MapBiomas, segundo a qual na Amazônia, a maior floresta tropical do planeta, “quase cinco árvores por segundo” foram perdidas. O bioma mais atingido foi, novamente, o Cerrado, que concentrou mais da metade do desmatamento do país. O MapBiomas, que reúne universidades, ONGs e empresas de tecnologia, atribui quase toda a perda de vegetação à expansão agropecuária. Por outro lado, a revista Nature alerta que a savanização pode chegar antes do previsto na Amazônia, pois a floresta se aproxima do “ponto de não retorno” (O Globo, 14/5/2026).

                    Outra notícia positiva foi o desmatamento de florestas maduras na Mata Atlântica, o bioma mais devastado do Brasil, que em 2025 atingiu o menor nível da série histórica. De acordo com o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, a supressão de florestas maduras caiu 40% no ano passado em relação a 2024.

                    A perda florestal tropical diminuiu em 2025, após perdas recordes em 2024 causadas por incêndios extremos. Segundo o Global Forest Watch do WRI (World Resources Institute) a perda de florestas tropicais primárias caiu 36% em comparação com 2024, um ano recorde de incêndios extremos (Le Monde, 5/5/2026),

                    No Brasil, em ano eleitoral, o Governo quer apresentar bons resultados ambientais, após a COP30, realizada em Belém, com resultados modestos, para dizer o mínimo. Mas dois passivos importantes pesam no balanço ambiental: o projeto de exploração de petróleo na foz do rio Amazonas e o asfaltamento da rodovia BR-319 que corta a Amazônia.


                    *Pedro Ivo Batista é Presidente da Associação Alternativa Terrazul, Coordenação Nacional do FBOMS e da Teia Carta da Terra Brasil.

                    Foto de capa: Reprodução

                    Sobre o autor

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                    Ļiszt Vieira
                    Integrante da Coordenação Política e Conselho Editorial do Fórum 21 e do Conselho Consultivo da Associação Alternativa Terrazul. Foi Coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92, secretário de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro (2002) e presidente do Jardim Botânico fluminense (2003 a 2013). É sociólogo e professor aposentado pela PUC-RIO e Defensor Público do RJ.

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