A Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Federal Fluminense (UFF) foram as primeiras a realizar suas eleições sob os efeitos da Lei nº 15.367/2026. A nova legislação extinguiu a exigência da lista tríplice nas universidades federais e determinou que o presidente da República nomeie o candidato mais votado pela comunidade acadêmica. O dispositivo legal foi celebrado como uma vitória histórica das instituições de ensino. Contudo, os processos eleitorais na UFBA e na UFF mostraram que é prudente ter alguma cautela. As ameaças à autonomia universitária não ocorrem apenas quando o chefe do Executivo interfere diretamente na escolha dos reitores. Há riscos mais sutis, frequentemente subestimados ou naturalizados por aqueles que defendem ferrenhamente o princípio da autonomia universitária.
Salvador e Niterói são cidades bastante diferentes, mas se assemelham na importância política e simbólica que dedicam às suas universidades federais. Tanto a UFBA quanto a UFF são as únicas instituições desse tipo sediadas em seus respectivos municípios, o que faz com que as eleições para as suas reitorias ganhem uma relevância frequentemente diluída em metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. Portanto, é esperado que as disputas sejam intensas e contem com a participação de agentes políticos externos, o que não é nenhuma novidade. Contudo, o cenário atual aponta para uma dinâmica inédita: tudo indica que o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) está tratando as eleições universitárias como o centro de uma estratégia nacional coordenada.
Tanto na UFBA quanto na UFF, foi notório o investimento da legenda no processo eleitoral, com as chapas apoiadas sagrando-se vitoriosas. Em Salvador, o PSOL apoiou a chapa “Somos UFBA”, formada por João Carlos Salles Pires da Silva e Jamile Borges da Silva; em Niterói, respaldou a chapa “UFF Viva”, composta por Roberto de Souza Salles e Luciana Maria Almeida de Freitas. Não se tratou de mero apoio nominal ou ideológico, mas sim de uma atuação incisiva da máquina partidária, com lideranças e militantes participando ativamente do processo. Na UFBA, a associação foi mais explícita, registrada em imagens nas quais João Salles e Jamile Borges aparecem ao lado de expoentes do PSOL baiano, como Kleber Rosa, candidato da legenda à prefeitura de Salvador em 2024. Na UFF, a articulação foi discreta, embora igualmente coordenada. O partido já havia demonstrado empenho semelhante nas disputas pelas diretorias do ANDES-SN e da FASUBRA, sindicatos nacionais que representam, respectivamente, os docentes universitários e os técnicos-administrativos.
É difícil saber até que o ponto o uso da máquina partidária foi decisivo nas eleições, até porque os dois Salles já tinham sido reitores anteriormente e, portanto, contavam com um capital político pessoal acumulado durante anos, algo que não pode ser desprezado. Isso é especialmente verdadeiro para o caso da UFBa, onde João Salles administrou a universidade entre 2014 e 2022, exercendo liderança muito elogiada no contexto do governo Bolsonaro e da pandemia da covid-19, o que o alçou, também, à presidência da ANDIFES, a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior. Esse histórico ajuda a compreender por que sua vitória foi tão consagradora, com a conquista de ampla maioria entre professores, estudantes e técnicos-administrativos. Já na UFF, a disputa foi mais acirrada: Roberto Salles foi derrotado entre docentes e discentes, mas obteve uma vitória esmagadora entre os técnicos-administrativos, impulsionada pelo seu compromisso público em apoiar a redução da jornada de trabalho semanal da categoria de 40 para 30 horas.
Porém, considerando a dinâmica das campanhas vitoriosas (com faixas, farto material de divulgação e militantes panfletando), presume-se que a estrutura não tenha sido barata e que, obviamente, o apoio de um partido político com representação no Congresso Nacional está longe de ser irrelevante. Como não existe uma fiscalização regulamentada e centralizada das contas das chapas, é impossível mensurar o quanto de recurso do fundo partidário foi injetado nas candidaturas endossadas. Certo mesmo é que o PSOL decidiu que a construção de uma hegemonia política sólida nas universidades federais integra o seu projeto nacional, indicando que o partido cada vez mais disputará com empenho as administrações dessas instituições. E como sabemos que não existe almoço grátis, em algum momento esse apoio cobrará seu preço, na forma de alinhamento ideológico e na ocupação de cargos nas gestões universitárias.
Fundado em 2004 a partir de uma dissidência do Partido dos Trabalhadores (PT), após a Reforma da Previdência realizada pelo primeiro governo Lula em 2003, o PSOL já conta com mais de vinte anos de existência, o que ainda não se traduziu em peso efetivo na política institucional. Com poucas experiências no Executivo (a exemplo da Prefeitura de Belém, cuja gestão enfrentou duras críticas locais), sem jamais ter elegido um senador e com apenas 13 deputados federais na atual legislatura, a direção do partido parece ter avaliado que as universidades são estratégicas para compensar, e superar, os limites enfrentados nos demais espaços da República.
Não há nada moralmente errado nesse planejamento estratégico, pois os partidos existem exatamente para disputar posições de poder. O dilema reside nas próprias universidades, que, nesse cenário, correm o risco de ser reduzidas à condição de caixa de ressonância de disputas políticas externas, tornando-se reféns de interesses alheios às instituições. Quando isso ocorre, a tão aclamada autonomia universitária é fatalmente fragilizada, o que parece não incomodar certos grupos internos, que recebem esse tipo de interferência com satisfação, sem qualquer problematização. Resta saber se o comportamento seria igual se outros agentes políticos adotassem a mesma postura. Qual seria a reação, por exemplo, se apoio tão explícito e coordenado viesse do Partido Liberal (PL)? Existe aparelhamento do bem?
E aqui cabe observar que a democracia universitária não pode ser pensada exatamente nos mesmos termos da democracia convencional, e isso por um motivo muito simples: na universidade não existe, e não pode mesmo existir, o princípio da igualdade universal entre os cidadãos, que é um dos pilares da própria democracia. Não podemos confundir igualdade civil com assimetria pedagógica, pois sim, a vida acadêmica é baseada em uma desigualdade estrutural, estabelecida pela hierarquia que funda a relação entre professores e estudantes. Do jeito que as disputas políticas nas universidades estão sendo conduzidas, cada vez mais os estudantes serão tratados como eleitores a serem cortejados e agradados, algo fatal para o processo formativo, que demanda cobranças, desafios e algum tensionamento.
São muitos os adversários da autonomia universitária, mas nem todos são corretamente identificados e combatidos.
Foto de capa: Reprodução/MPER Brasil





