A juventude sem futuro | Por Celso Japiassu

Entre a precarização do trabalho, a crise de identidade das democracias europeias e a frustração com promessas não cumpridas, cresce uma juventude marcada pela insegurança, pelo desencanto político e pela busca de novos sentidos de pertencimento e transformação social.
Última edição em May 25, 2026, 09:21

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Os jovens da Europa estão desencantados. Sofrem ansiedade, desacreditam do futuro, fortalecem os partidos de extrema direita e vivem um paradoxo profundo: nunca houve tantas oportunidades formais de educação, mobilidade e acesso à informação, e, ainda assim, são muitas as manifestações de desencanto, ansiedade e falta de perspectiva. É um sentimento difuso, que atravessa fronteiras nacionais e contextos sociais, levanta questões sobre o futuro do continente e sobre o contrato social que sustentou a Europa nas últimas décadas. Estudiosos afirmam que o desencanto dos jovens não é apenas uma impressão, mas um fenômeno que tem como causas fatores econômicos, sociais, culturais e políticos entrelaçados.

Durante grande parte do século XX, principalmente no pós-Segunda Guerra Mundial, a Europa acreditou numa sociedade fundamentada no progresso contínuo, na paz duradoura e na ascensão social por meio da educação e do trabalho. Um modelo fortemente associado ao Estado de bem-estar social, que garantia direitos básicos, estabilidade no emprego e proteção contra as desigualdades extremas.

Para os jovens de hoje, no entanto, essa promessa parece cada vez mais distante. Muitos cresceram ouvindo dizer que ter um diploma universitário seria a chave para o sucesso, mas encontram um mercado de trabalho precarizado, marcado por contratos temporários, salários baixos e insegurança. A chamada “geração do estágio” — ou, em alguns países, a “geração perdida” — reflete essa realidade em que o início da vida adulta é adiado e incerto.

Esse contraste entre expectativa e realidade é uma das causas mais fortes do desencanto. Quando o esforço individual já não garante mobilidade social, instala-se uma sensação de injustiça, acompanhada de frustração e desconfiança nas instituições.

As mudanças

Uma das principais causas apontadas para esse desânimo é a transformação do mercado de trabalho. A globalização, a automação e as mudanças tecnológicas transformaram dramaticamente as formas de emprego. Contratos vitalícios tornaram-se exceção, substituídos por vínculos flexíveis, informais ou temporários.

Os jovens enfrentam dificuldades para planejar o futuro, adquirir casa própria ou constituir família. Em países do sul da Europa, como Espanha, Itália e Portugal, o desemprego jovem historicamente elevado agrava ainda mais a situação.

A crise financeira de 2008 e suas consequências prolongadas atingiram de maneira particularmente dura os jovens, que entraram no mercado de trabalho num momento de retração econômica. A pandemia de COVID-19 acentuou as disparidades e reforçou a sensação de vulnerabilidade.

O trabalho deixa cada vez mais de ser um fator de identidade e segurança para tornar-se uma fonte de ansiedade e incerteza.

O desencanto também se manifesta e de forma aguda na saúde mental da juventude. Taxas de ansiedade, depressão e estresse têm aumentado em diversos países. Embora fatores diversos estejam envolvidos, a combinação de insegurança econômica, pressão acadêmica e incerteza sobre o futuro tem um papel central.

As redes sociais, se por um lado oferecem espaços de expressão e conexão, por outro, intensificam expectativas irreais. A exposição constante a exemplos verdadeiros ou falsos de sucesso, beleza e realização geram sentimentos de inadequação e fracasso.

Há também o peso das expectativas familiares e sociais. Muitos jovens sentem a necessidade de corresponder a padrões tradicionais de sucesso, mesmo sabendo que as condições mudaram radicalmente.

Apesar do desencanto, há sinais claros de transformação nas formas de engajamento político, social e cultural.

Movimentos ligados à justiça climática, igualdade de gênero, diversidade e direitos digitais têm forte participação dos jovens. Em vez de confiar exclusivamente em instituições tradicionais, muitos optam por formas horizontais e descentralizadas de organização, utilizando plataformas digitais para mobilização.

O engajamento não desapareceu, mas assume novas formas, muitas vezes mais fluidas e menos institucionalizadas.

É uma energia transformadora que convive com o desencanto. Em alguns casos, a militância surge como resposta à frustração com o sistema.

O desencanto dos jovens não é uniforme em toda a Europa. Há diferenças entre regiões e países. No norte da Europa, onde os sistemas de proteção social são mais presentes, os níveis de satisfação tendem a ser mais elevados. Já no Sul e no leste europeus, onde as crises econômicas e políticas foram mais intensas, o desânimo é mais visível.

As disparidades também se refletem na mobilidade. Muitos jovens migram em busca de melhores oportunidades, criando fenômenos como a “fuga de cérebros”. Essa mobilidade, embora enriquecedora em termos individuais, pode aprofundar desigualdades regionais e gerar sentimentos de perda.

Transição

O desencanto da juventude europeia não significa apenas sinal de decadência, mas também um sintoma de transição. As gerações mais jovens estão diante de um mundo diferente daquele que era prometido no passado. Suas frustrações denunciam as falhas da organização social, mas também apontam para a necessidade de reinventar novos modelos sociais, econômicos e políticos.

O desencanto tem impacto direto — e cada vez mais visível — no comportamento eleitoral dos jovens e se manifesta principalmente de três formas: abstenção (não votar), voto de protesto e mudanças ideológicas inesperadas.

Nas eleições europeias de 2024, apenas 36% dos jovens entre 15 e 24 anos votaram, contra 58% dos eleitores com mais de 55 anos. Muitos jovens mencionam falta de interesse político, sensação de que o voto “não muda nada” e desconfiança nas instituições.

O desencanto leva também a um voto de protesto contra o sistema político tradicional. Pesquisas mostram que jovens que se sentem excluídos das decisões têm maior probabilidade de não votar ou votar em partidos anti-establishment, normalmente situados na extrema direita do espectro político.

Na Alemanha, a mais recente pesquisa de opinião pública registra o crescimento do partido neonazista AfD (Alternative für Deutschland), que passou a liderar as intenções de voto puxadas principalmente pela adesão da juventude.

O voto deixa de ser ideológico e passa a ser expressão de frustração.


Foto de capa:Reprodução

Sobre o autor

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Celso Japiassu
Autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).

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