Dividendos da petrobrás | Por Paulo Klias

Os lucros recordes da Petrobrás reacendem o debate sobre o papel estratégico da estatal: servir ao desenvolvimento nacional ou priorizar a lógica financeira dos dividendos e do mercado internacional.
Última edição em maio 19, 2026, 11:36

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Em meio aos escândalos da campanha de Bolsonarinho e as especulações em torno da convocação de Neymar para a seleção de futebol, os noticiários de economia dos grandes meios de comunicação tratavam com muito destaque os resultados financeiros da Petrobrás durante o primeiro trimestre de 2026. Ainda assim, as manchetes exibiam um desempenho extraordinário: a empresa estatal brasileira figura em primeiro lugar no ranking das maiores do mundo em termos de lucro para o período janeiro/março deste ano. Os ganhos líquidos foram de US$ 6,25 bilhões, superando outras grandes companhias internacionais, a exemplo da Shell (US$ 5,69 bi) e da Exxon Mobil (US$ 4,18 bi).

Estes números do desempenho na esfera econômica e financeira guardam uma relação direta com o aumento observado na capacidade operacional e produtiva da empresa. Assim, durante o mesmo período acima mencionado, a Petrobrás bateu novo recorde. A produção média de óleo, líquidos de gás natural e o próprio gás natural alcançou a marca recorde de 3,23 Mboed (milhões de barris de óleo equivalente) por dia. Esse valor é 3,7% acima do último trimestre de 2025 e 16,1% acima do primeiro trimestre do ano passado.

Ocorre que a lógica da atuação das grandes petroleiras privadas internacionais  terminou por prevalecer na condução estratégica de nossa empresa estatal. Isso se concretizava na prioridade em atender aos interesses dos grandes acionistas do grupo, ao invés de utilizar o potencial econômico da mesma para atuar como instrumento fundamental para o processo de desenvolvimento econômico, social e ambiental de nosso País. Depois da crise institucional de 2016 e do golpeachment contra a Presidenta Dilma Roussef, teve início um grande movimento para promover a destruição da Petrobrás.

Petrobrás sempre resistiu às tentativas de sua destruição.

A operação Lava Jato e quadrilha que se instalou na chamada República de Curitiba pretendiam aniquilar a presença da empresa no cenário nacional. A chegada de Michel Temer no Palácio do Planalto transformou aquele intento do Departamento de Estado dos Estados Unidos em política de Estado em Brasília. Tendo em vista as dificuldades encontradas em promover a privatização pura e simples da empresa, a estratégia adotada pelos entreguistas passou por reduzir sua presença no ramo do petróleo, por estrangular sua capacidade financeira e operacional e por estimular o aumento da concorrência das estrangeiras atuando em nosso País. A empresa foi fatiada e alguns de seus setores fundamentais foram vendidos ao capital privado. Esse foi o caso, por exemplo, da venda da BR Distribuidora e a privatização de três refinarias – na Bahia, no Amazonas e no Rio Grande do Norte.

Tal orientação permaneceu bastante ativa durante o governo Bolsonaro, com a orientação para que a Petrobrás reduzisse sua capacidade de refino de forma deliberada. Assim, o Brasil passou a aumentar suas exportações de óleo bruto e elevou de forma significativa a importação de produtos refinados. Dessa forma, transplantava-se para este importante setor – em que o País já havia atingido anos antes um estágio de soberania energética – a lógica da divisão neocolonial do trabalho. O tema recorrente passou a ser a exportação de bens de baixo valor agregado e a importação de produtos de maior valor agregado. Uma loucura!

As expectativas geradas com a volta de Lula para seu terceiro mandato em 2023 giravam em torno de uma mudança expressiva na condução da empresa. No entanto, as diretrizes em torno da política de preços de importação pouco foram alteradas em sua essência. A direção da Petrobrás continuou insistindo em promover reajustes nos preços internos dos derivados a partir das oscilações nas cotações do óleo no mercado internacional. A narrativa residia na necessidade de agradar aos interesses dos acionistas privados, uma vez que sua preocupação era exclusivamente a busca de formas mais eficazes de maximização do lucro.

Lula 3.0 não altera essência da estratégia liberal.

O Presidente da associação de engenheiros da empresa (AEPET), Felipe Coutinho, é bastante claro em sua análise. Em artigo tão duro quanto realista, ele não poupa termos para explicar o quadro trágico em que a Petrobrás tem permanecido ao longo de algumas décadas:

“ (…) A cada novo recorde de exportação de petróleo cru – como o de 2025 – o lucro fica lá fora, enquanto os prejuízos social, ambiental e intergeracional ficam aqui.(…) O ciclo primário exportador do pré-sal não é fruto de um governo – é fruto de uma política de Estado originada no Executivo Federal, sem solução de continuidade, por Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula, cada qual com sua cota de responsabilidade quantificável. (…) “ [GN]

Um dos maiores exemplos da lógica do financismo internacional que orienta a ação da empresa refere-se ao pagamento de dividendos aos acionistas. Para além da equivocada busca de lucro a qualquer preço, a empresa e os sucessivos governos vêm optando pela destinação de uma parcela expressiva dos valores associados ao resultado da mesma para o atendimento dos interesses dos detentores de ações, seja internamente ao País, seja em operações no mercado estadunidense. Apesar de valores elevados em toda a série de dados disponíveis, em especial a partir de 2020 observa-se uma mudança de patamar no pagamento de dividendos. Entre 2005 e 2020, por exemplo, a média anual encontrava-se na faixa de US$ 2,9 bi. No entanto, a partir de meados do mandato de Bolsonaro, a situação se inverte e assim permanece durante o terceiro mandato de Lula. Assim, os dados revelam que entre 2021 e 2025 os valores anuais de dividendos foram 570% mais elevados do que no período anterior – média de US$ 19 bi a cada um dos quatro anos. O pico foi alcançado em 2022, quando o valor foi de US$ 37,3 bi.

Petrobrás – Pagamento anual de dividendos

2005 a 2025 – US$ bi
Fonte: Petrobrás.

Durante o primeiro triênio deste terceiro mandato de Lula, o total de dividendos da Petrobrás distribuídos a seus acionistas foi também bastante elevado. Ao não cumprir as promessas de campanha de 2022, quando afirmava que iria reestatizar as empresas do grupo que haviam sido privatizadas por Temer e Bolsonaro, o Presidente perdeu grandes oportunidades de recolocar a empresa como polo dinâmico da economia brasileira. Ele manteve a lógica da austeridade fiscal proposta pelo Novo Arcabouço sugerido a ele por Fernando Haddad. Com isso, os saldos operacionais positivos do resultado da Petrobrás foram destinados prioritariamente aos seus acionistas, ao invés de priorizar os investimentos na estatal.

Entre 2023 e 2025, por exemplo, o conglomerado distribuiu R$ 209 bi sob a forma de dividendos, tal como pode ser observado no gráfico abaixo. Estes valores anuais são significativos e poderiam se converter em impulsos para o processo de desenvolvimento econômico, social e ambiental que o Brasil tanto necessita. Ao privilegiar o atendimento dos interesses da minoria social composta pelos acionistas da empresa, a Petrobrás e o governo federal frustraram todas as expectativas criadas no interior da sociedade quando da eleição de Lula para seu terceiro mandato.

Petrobrás  –  Distribuição Anual de Dividendos.

2023-2025  –  R$ bi
Fonte: Petrobrás

Outro aspecto relevante a esse respeito refere-se à postura dos dirigentes do Tesouro Nacional neste debate. Tendo em vista os interesses de geração de resultados fiscais a qualquer preço, a tecnocracia da Fazenda estimula uma gestão da Petrobrás voltada para a obtenção de resultados operacionais e financeiros também a todo custo. Assim, a empresa se afasta cada vez mais de sua função social precípua, qual seja, a de atuar como instrumento público para o desenvolvimento nacional. Dentre tantas razões para tal conduta do Tesouro Nacional, destaca-se o fato de que a União é quem mais possui ações com direito a voto e participação em dividendos. Assim, a lógica obtusa de receber de volta os dividendos de uma empresa estatal federal faz com que as necessidades de investimento do setor público sejam sempre retardadas ou realizadas em níveis muito inferiores à reais necessidades do País.

É fundamental recuperar investimentos da Petrobrás.

Na verdade, o Presidente da República deveria obrigar o Tesouro Nacional a manter no interior da empresa os dividendos a que tem direito, com o compromisso de transformar tais recursos em novos investimentos da própria Petrobrás. Historicamente, o investimento agregado do Brasil sempre dependeu em grande medida dos investimentos efetuados pela estatal. A chamada “Formação Bruta de Capital Fixo” (FBCF) das contas nacionais sempre esteve em relação direta com os investimentos realizadas pela Petrobrás.

Investimentos da Petrobrás e investimento agregado no Brasil

Fonte: DIEESE e FUP

A melhoria na FBCF é fundamental para qualquer projeto de retomada do desenvolvimento nacional. A recuperação do investimento agregado em nosso País é condição sine quae non para um futuro com redução de desigualdades de toda ordem e também para promover a necessária reinserção do Brasil como um gigante na cena internacional. Mas, para que tal objetivo possa ser atingido, a Petrobrás precisa recuperar de forma urgente e robusta sua capacidade de investimentos em toda a cadeia energética.


Foto de capa: Adobe Stock/Reprodução – Montagem: Giovanna Figueredo

Sobre o autor

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Paulo Kliass
Doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.

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