Black Mirror Policial – a escolha do policial influenciador | Por Bruno Giovannini de Paulo

A ascensão do policial-influenciador revela como redes sociais, autoridade e espetáculo passaram a se misturar em uma era marcada pela vigilância permanente e pela busca incessante por engajamento.
Última edição em maio 15, 2026, 12:14

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Na minha colação de grau no curso de Direito, ouvi uma frase sábia dita pela coordenadora do curso: “o ano mais difícil do curso de Direito é o sexto”. Ou seja, o primeiro ano de formado se revelava desafiador — e realmente é.

Imediatamente após se formar, o estudante de Direito passa a desempregado e vê o famoso “leque de opções”, vendido como a grande vantagem do curso, se resumir a um ventilador quebrado de duas pás: ou estuda pra concurso ou vai advogar.

Ambas as opções são muito difíceis, ainda mais em um país que transformou o ensino superior numa máquina de fabricar diplomas e pessoas frustradas.

Quem se envereda pelo lado do concurso, como eu, passa por difíceis provações. É duro justificar pra sociedade que usar pijama, às 13h, sentado numa mesa lendo um livro de Direito Administrativo é algo importante e normal. Isso no meu caso, de pessoa privilegiada, cujos pais tinham condição de pagar pelo meu dia livre.

Aqueles que não têm essa sorte ainda conciliam trabalho e estudo.

Os dois caminhos têm custos psicológicos graves. O período de estudo pra concurso é penoso, você se sente mal, sua autoestima é dilacerada, te dá vergonha de não ser produtivo, de não ter um emprego ou o emprego que te daria algum destaque que te venderam como possível na faculdade.

Mas isso tudo pode mudar “rápido”, porque no mundo dos cargos públicos existe essa mágica: você é alçado de desempregado a chefe de uma unidade, ou funcionário com salário destacado, acertando meia dúzia de “X” em prova de múltipla escolha.

O que era feio fica bonito; o que era pobre passa a se sentir rico. É um sonho de milhares, senão milhões de brasileiros, terem sua autoestima resgatada pela chancela da carreira pública.

Hoje vivemos em um mundo hiperconectado. As redes sociais fazem parte das interações sociais mais básicas. Comer, andar, pedalar, estudar: nada foge aos cliques fotográficos e às postagens compartilháveis. Vivemos com a intensa necessidade de mostrar aquilo que estamos fazendo, produzindo, vivendo.

Muitos buscam aprovação, amor; outros, lucro além do amor. A maioria acaba encontrando ódio.

E o mundo dos concursos, por óbvio, não passa incólume a isso. Principalmente no meu ramo, o policial — e é sobre ele que quero me deter.

Assim que é publicado o resultado de concurso de carreira policial, muitos “instagrams” que antes postavam apenas fotos de gato, comida ou viagens em família se tornam verdadeiras unidades policiais.

O resgate da autoestima provocado pelo acesso ao cargo é refletido imediatamente nas redes. Fotos com uniformes, brasões, armas, bandeiras, helicópteros e viaturas vão surgindo dia após dia, seguidas de comentários elogiosos, curtidas e aumento de seguidores.

Os perfis mudam de nome: “fulaninho” vira “fulaninho.delta” ou “fulaninho_delegado”. Ocorre uma verdadeira incorporação da profissão ao ser.

Aquele sofrido estudante de concurso conseguiu alcançar o que queria e agora quer compartilhar com todos o seu sucesso. O desempregado agora é polícia.

Seria muito bom se fosse apenas isso: pessoas que tiveram sua autoestima dilacerada pelo mundo dos concursos terem suas percepções sobre si mesmas resgatadas a partir do acesso ao cargo público e da validação dos outros no mundo real e virtual. Mas os efeitos são muito maiores.

Ao tomarem posse e passarem pela academia de polícia — que, diga-se de passagem, é onde mais fazem fotos e produzem conteúdo, pois muitas vezes reflete o que a polícia gostaria de ser, e não efetivamente o que é — os novos policiais passam a exercer suas funções nas unidades e a compartilhar com seus seguidores suas “aventuras”, seus casos, suas façanhas, seus atendimentos mais ordinários, sempre com a desculpa de quererem influenciar e animar as pessoas a seguirem o mesmo caminho: o famoso “se eu consegui, você também consegue”.

Aos poucos, eles vão acumulando seguidores e viram influenciadores. Querem que os outros vejam o sucesso deles e se inspirem — chama atenção a mudança drástica da autoestima daquele “empijamado” estudante.

Além, claro, de mirarem bons ganhos financeiros e possível venda de cursos e materiais que visam “ajudar” seus seguidores a seguirem seus exitosos passos.

Se parasse aí a questão, se estivéssemos falando apenas de jovens de cabeça baixa que agora alçaram voo profissional e estufam o peito para falar de si mesmos — peitos com um emblema institucional que os legitima —, buscando ganhar um dinheiro a mais licitamente, estaria tudo bem.

Mas a questão é muito maior e mais profunda.

E nem vou entrar na discussão sobre como isso deveria ser regulamentado, já que essas pessoas usam símbolos oficiais para se autopromover e falam “em nome” da polícia sem qualquer organização ou ordem interna sobre isso.

Quando pensamos em serviço público, principalmente policial, estamos falando de tema muito sensível, que mexe com a sociedade de maneira intensa e diária.

Recentemente fui impactado por uma foto dessas novas policiais no Instagram. A foto era mais uma de sempre: muitos policiais, fachada da delegacia, armas e brasões oficiais. A legenda, porém, era interessante. Algo como: “já prendi metade da cidade e vou prender a outra que não andar na linha”.

Claramente a frase não soou bem entre os moradores da pequena cidade na qual ela trabalha. Começaram vídeos respondendo, criticando, e a questão se politizou. Começou a polêmica online.

Para se defender, ela gravou vídeo explicando o que quis dizer e manteve posição firme: afirmou que iria pra cima de quem a desafiasse.

A partir desse caso comecei a reparar mais nessas postagens diárias dos novos policiais já em exercício nas suas delegacias.

Localizei dezenas de posts relatando operações, atendimentos diários, casos complexos e ordinários. Um verdadeiro livro de registros policiais online.

Contudo, comecei também a reparar nos comentários. Algumas situações eram aplaudidas, outras elogiadas e curtidas, mas algumas eram contestadas. Afinal, esse é o ônus da exposição online: se você se mostra, passa a ser visto; e, se é visto, pode ser amado ou odiado.

E esses novos policiais estão passando a conviver com críticas, questionamentos. Em uma dessas postagens, que contava uma prisão rotineira por embriaguez ao volante, um seguidor contestava a razão de não ter sido dado o mesmo tratamento a outro caso parecido. Isso é ainda mais comum em cidades pequenas, para onde normalmente vão os novos policiais.

Eu queria saber como essas pessoas, que estão nas redes ostentando sua vitória nos concursos, estão lidando com as críticas. Como eu disse logo no começo, foram buscar amor e aprovação e estão encontrando também ódio e confronto.

Será que o acesso ao cargo público resolveu totalmente suas questões psicológicas, a ponto de restaurar plenamente sua autoestima? Ou elas ainda carregam questões internas e as críticas lhes doem e fazem repensar sua forma de trabalhar?

Será que é possível estarmos diante de uma nova geração de policiais que prende, solta, pede mandado, faz operação e atende pessoas visando likes e aprovação virtual? Visando uma boa foto ou uma boa matéria jornalística que impulsionará seu perfil?

Pode ser que um policial hoje esteja sendo moldado pelos algoritmos?

Pensar nisso me arrepia. Seria um roteiro da série Black Mirror pra ninguém botar defeito.

Soma-se a isso a quantidade de policiais jovens que entram nas corporações: pessoas que não passaram por grandes provações na vida, lidando com problemas sérios e influenciadas pelas redes sociais.

A busca por amor e dinheiro nas redes pode estar alterando o policiamento da sua cidade?

Confesso que não tenho resposta pra questão, mas me parece um cenário possível — e terrível.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Bruno Giovannini de Paulo
Delegado de Polícia. Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Membro do Grupo de Estudos Sobre Violência e Gestão de Conflitos (GEVAC - UFSCar). Mestre em Teoria do Direito e do Estado pela UNIVEM (2016-2017). Especialista em Direito Penal pela Universidade Paulista.

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