Nos pesadelos da Europa está presente o medo de uma invasão russa. Desde Pedro, o Grande, que travou grandes guerras de expansão contra potências europeias. E Nicolau I, Imperador da Rússia, Rei da Polônia e Grão-Duque da Finlândia, que fez várias intervenções militares. Desde então há um sentimento de que a Rússia é o inimigo natural da Europa.
Para as nações da Europa Central e Oriental — particularmente os Estados Bálticos e a Polónia — a Rússia é vista pelo prisma das sucessivas ocupações. A memória do Pacto Molotov-Ribbentrop, acordo de não agressão assinado entre a Alemanha Nazista e a União Soviética em 1939 e as décadas sob a Cortina de Ferro cristalizaram a percepção de que a Rússia é o “outro” existencial.
Esta desconfiança foi reativada pela doutrina do “Mundo Russo” (Russkiy Mir), com a sua tese de que Moscou tem o direito e o dever de intervir em qualquer território onde se fale russo ou exista uma herança cultural russa. Para os vizinhos europeus, não se trata apenas de retórica, mas uma ameaça a sua soberania nacional.
A invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022 teria representado o fim da ilusão de uma “paz perpétua” no continente. Durante décadas, a estratégia europeia baseou-se na Wandel durch Handel (mudança através do comércio), acreditando que a interdependência económica impediria o conflito armado. A guerra teria provado, na visão principalmente da OTAN, que para o Kremlin importa mais a sua esfera de influência do que a estabilidade económica.
A incorporação da Finlândia e da Suécia à OTAN foi consequência da tese de que a neutralidade já não oferece proteção contra o expansionismo da Rússia.
A Alemanha, reticente ao poder militar desde o fim da Segunda Grande Guerra, anunciou o Zeitenwende (ponto de viragem), investindo massivamente na defesa. O temor europeu transformou-se em urgência logística: a Europa percebeu que a sua capacidade industrial de defesa está atrofiada após anos de desinvestimento.
Guerra Híbrida
A Europa não receia apenas o ataque de tanques e mísseis, mas a zona cinza de um conflito que a torna vulnerável. Sua dependência do gás russo teria se revelado como um instrumento para chantagear governos e inflacionar o custo de vida.
O apoio a movimentos populistas de direita serviria como um instrumento para fragmentar a União Europeia por dentro e minar as instituições democráticas. Os fluxos migratórios nas fronteiras da Polónia e Finlândia é percebido como uma tática da Rússia para sobrecarregar os sistemas sociais e provocar crises políticas internas.
Talvez o maior temor da Europa seja a possibilidade de ter de enfrentar a Rússia sozinha. A arquitetura de segurança europeia depende, em última instância, do guarda-chuva nuclear e militar dos Estados Unidos. A polarização política em Washington e o isolacionismo crescente levantam dúvidas sobre a validade do Artigo 5.º da OTAN, que prevê a defesa coletiva da Aliança.
A política errática, cheia de incertezas adotada por Donald Trump e a sua ameaça de os EUA se retirarem ou reduzirem seu compromisso com o continente coloca a Europa diante de um dilema: submeter-se às exigências de segurança russas ou acelerar uma “autonomia estratégica”. Há um duplo receio da Europa: o medo da agressividade russa e o medo da sua própria impotência.
É uma transição dolorosa de um mundo de cooperação para um de confrontação.
Eurásia
Ocupando uma grande parte do continente fictício que foi denominado Eurásia, o que lhe garante localização privilegiada para exercer sua influência tanto na Ásia quanto na Europa, a Rússia marcou presença definitiva na história do Século 20. Foi palco de uma revolução social que influenciou a política de quase todos os países do mundo. A falência do seu regime, quase ao fim do século passado, significou outro marco histórico a provocar novo arranjo do tabuleiro geopolítico, o surgimento de novos países e, principalmente, o fortalecimento do império americano, que saiu vencedor do grande embate do século. Sem a competição e o desafio de um adversário, os EUA passaram a comandar o espectro de interesses que move o mundo e subordina as independências.
Metade das populações da Europa não considera a Rússia um país europeu, segundo uma pesquisa realizada pela empresa IFOP na França, Alemanha, Reino Unido e Polônia. Apenas na Polônia, a maior parte da população (77%) afirma que a Rússia pode ser considerada parte da Europa.
Os países que orbitaram em torno da antiga União Soviética continuaram de certa forma sob influência russa depois do colapso do regime. A crise com a Ucrânia motivada pela ocupação da Crimeia teve como principal causa o que o nacionalismo russo encarou como uma provocação: a adesão da Ucrânia ao tratado da OTAN, o que significa a colocação dos mísseis americanos às portas de Moscou.
A Federação Russa e a União Europeia cultivaram relações cordiais até 2014 e desenvolveram juntas mútuos interesses comerciais, pesquisa científica e até a resolução de conflitos no Oriente Médio. A entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio contou com o apoio da Europa, mas os desentendimentos começaram com a crise da Crimeia e o imediato alinhamento da União Europeia com a estratégia da OTAN e, em consequência, dos Estados Unidos.
As sanções europeias contra a Rússia incluíram medidas diplomáticas como a retirada do apoio a sua admissão na OCDE-Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Foi proibida também a entrada de alguns dos seus cidadãos na União Europeia e decretadas restrições gerais ao comércio.
Especialistas dizem que, apesar do aumento recente nos gastos em defesa, a Europa ainda não está totalmente preparada para um conflito de alta intensidade com a Rússia, o que aumenta a sensação de vulnerabilidade.
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