Expansão da hegemonia tecnológica: USA Rare Earth adquire mineradora Serra Verde em transação de US$ 2,8 bilhões

Última edição em abril 21, 2026, 09:17

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Operário da Serra Verde em ação

Por Solon Saldanha *

Em um movimento estratégico que redesenha o mapa global de minérios críticos, a gigante americana USA Rare Earth anunciou a compra da brasileira Serra Verde, em Goiás, consolidando o controle sobre a única produção de terras raras em escala fora da Ásia e intensificando o embate geopolítico entre Washington e Pequim.


A consolidação de um ativo estratégico no coração do Brasil

A operação, avaliada em US$ 2,8 bilhões, marca um divisor de águas para a indústria mineral brasileira. A USA Rare Earth assumirá o controle total da Serra Verde por meio de um aporte que combina US$ 300 milhões em espécie e a emissão de 126,9 milhões de novas ações. O fechamento do negócio está previsto para o terceiro trimestre de 2026 e coloca sob domínio americano a mina Pela Ema, situada em Minaçu (GO).

O diferencial técnico da Serra Verde é o que justifica o montante bilionário: trata-se da única operação comercial no mundo, fora do continente asiático, capaz de processar em larga escala os quatro elementos de terras raras magnéticos essenciais para a fabricação de ímãs de alta potência, utilizados desde motores de veículos elétricos até sistemas avançados de defesa.

Financiamento estatal e a geopolítica dos minérios críticos

A aquisição não é apenas um movimento de mercado, mas uma peça central da doutrina de “segurança nacional” da administração de Donald Trump. Recentemente, a USA Rare Earth recebeu uma injeção de capital de US$ 1,6 bilhão diretamente do governo dos EUA, conferindo ao estado americano uma participação de 10% na companhia. O pacote financeiro inclui um robusto empréstimo de US$ 1,3 bilhão via Departamento de Comércio e US$ 277 milhões em financiamento federal.

Este investimento visa reduzir a dependência da China, que detém quase o monopólio da cadeia de suprimentos de terras raras. Como parte do acordo, a Serra Verde comprometeu-se, pelos próximos 15 anos, a fornecer 100% de sua produção inicial a uma Sociedade de Propósito Especial capitalizada por fundos públicos e privados dos EUA, garantindo o abastecimento prioritário da indústria estadunidense.

Controvérsias e investigações sobre conflitos de interesse

A magnitude do envolvimento estatal trouxe consigo um intenso escrutínio político no Capitólio. O epicentro da crise é a figura do secretário de comércio, Howard Lutnick. A empresa financeira Cantor Fitzgerald, vinculada a Lutnick e atualmente gerida por seus filhos, atuou como intermediária na estruturação do negócio.

Parlamentares democratas, liderados pela deputada Zoe Lofgren e pelos senadores Elizabeth Warren, Chris Van Hollen e Ron Wyden, formalizaram questionamentos sobre um possível “conflito de interesses gritante”. Em cartas oficiais, os legisladores alertam que a estrutura do financiamento federal pode ter beneficiado diretamente a família de Lutnick, conferindo ao secretário uma influência desproporcional sobre as decisões de uma empresa privada sob sua supervisão governamental.

Histórico da Serra Verde: do capital britânico ao domínio estadunidense

Embora situada em solo goiano, a Serra Verde possui um histórico de longa data de capital internacional. O projeto foi estruturado originalmente em 2010 pelo fundo de private equity Denham Capital e, posteriormente, recebeu aportes do fundo britânico Vision Blue.

Curiosamente, a empresa possuía contratos de exclusividade com o mercado chinês até 2028 para garantir seu fluxo de caixa, uma amarra que agora será rompida pela nova diretriz americana. Além do aporte do Departamento de Comércio, a mineradora já havia captado, no início de 2025, cerca de US$ 565 milhões junto ao Departamento de Guerra dos EUA, sinalizando que a “nacionalização” indireta da produção brasileira pelos Estados Unidos era um objetivo militar de longa data. Resta saber como fica a soberania brasileira. Em nome da “liberdade econômica”, que jamais seria seguida em caso semelhante se as jazidas ficassem no território estadunidense, estamos abrindo mão do controle estratégico de minérios essenciais, que poderiam formatar situações futuras muito mais favoráveis ao Brasil.


* Solon Saldanha, jornalista e escritor

Foto: Operário da Serra Verde em ação. Crédito: reprodução de O Globo

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