Irã: o texugo-do-mel

Última edição em abril 20, 2026, 10:05

translate

WhatsApp Image 2026-04-20 at 12.03.10

Encontrei esta descrição do texugo-do-mel no Google: “é famoso por ser um dos animais mais destemidos e resistentes do mundo. Possui pele extremamente grossa e solta, alta resistência a venenos de cobras, inteligência para usar ferramentas e uma dieta onívora, além de ser compacto, robusto e ter garras poderosas para cavar”. Pensei de cara “Mas esse aí não é o Irã?”. Depois, vi alguns vídeos em que esses bichinhos enfrentam predadores temíveis, como leões e hienas. Adivinhem  de que animais eu lembrei? Pois é… da velha e senil águia-careca, aquela que pintaram de laranja, e da famosa hiena que atende pelo gentil apelido “Bibi” – que gracinha, um genocida de pés delicados. Essa fábula que nós assistimos traz importantes ensinamentos morais, políticos e militares.

No estudo do caso, fiquei um pouco confuso com esse negócio de proxy war!! Eu pensava que era  quando dois países poderosos queriam brigar indiretamente  e mandavam um subalterno para a guerra. Mas Trump, esse revolucionário dos costumes, mudou isso. TACO foi convencido, ou chantageado, pelo minúsculo Israel a se envolver num conflito com uma nação que faz guerra há 3.000 anos. Antes da sua “brilhante” intervenção, parte dos iranianos andava às turras com o seu próprio governo. Agora, formam um exército uníssono. Uma frase muito lembrada nesse período é  “a guerra é a continuação da política por outros meios.” Bingo! Trump, mesmo sendo um macaco velho, meteu a mão nessa cumbuca e não sabe como tirar. Está perdendo na guerra  e na propaganda. Como o exército de um homem só, ele está acabando com o mito da democracia estadunidense e reforçando inimigos estratégicos.

Um dos pontos mais questionados pelos partidários do multilateralismo dos BRICS – essa organização fundada por Lula – era o fato de ela nunca ter composto uma aliança militar. Por que não temos um Pacto de Varsóvia, uma OTAN para chamar de nossa? Bem, a estúpida guerra contra o Irã criou, na prática, essa aliança. Uniu Irã, Rússia e China, todos países do BRICS. Tirante a Índia, que anda chutando contra o patrimônio, a aliança militar foi estabelecida. A China está entrando com armas e grana; a Rússia, com seus satélites, dados de inteligência. Dizem que a milagrosa melhoria da mira dos iranianos tem uma ajudinha sino-russa.

O Brasil e a África do Sul recentemente se encontraram e concordaram que é necessário se preparar para as violentas convulsões do império moribundo. Isso pode indicar o fecho da articulação militar que falta aos multilaterais. Mas, como vimos, o problema, antes de ser militar, é político. Nós sabemos que nossas Forças Armadas não têm como sua principal missão a defesa do nosso país e do nosso povo. Elas sempre se comportaram como uma tropa de cipaios. Para quem não sabe, os cipaios eram soldados indianos recrutados pelo Império Britânico para manter a Índia sob o domínio dos ingleses. A diferença é que o império hoje é outro. Alguém poderia dizer: “O governo Lula deveria investir mais em defesa!”. Mas ele investe! O Brasil gastou neste ano 26 bilhões de dólares, sendo o 11º orçamento militar do planeta. Já nosso “texugo-do-mel” fica apenas na 16ª posição, com 23 bilhões de dólares. Então, o problema não é dinheiro? Não! É político. Parece que no Irã não há tanta filha de militar solteira e nem coisas como morte ficta, gastos com Viagra, picanha e leite condensado. Mesmo com todos esses recursos, a força das nossas forças é pífia.  Mas como mudar a realidade das Forças Armadas nacionais? Como convencê-las de que o boné do MAGA não deve fazer parte do fardamento?  

Nessa guerra – e, para ser justo, isso já havia sido demonstrado na Ucrânia – a características das armas mudaram. O que mudou? Teria sido a estratégia de guerra assimétrica? Tem gente que se excita usando esse termo como se isso fosse uma grande novidade. Os farroupilhas faziam guerra assimétrica contra o Império do Brasil, os guerrilheiros da Sierra Maestra idem.  O Vietnam… Então, parece que os recursos tecnológicos são a grande estrela desses confrontos. A introdução dos chips e dos sistemas digitais transformou a forma de humanos construírem suas máquinas e de construir as máquinas que fazem máquinas. Há um reluzente exemplo desse transformar uma tecnologia baseada na robustez e nas grandezas em soluções de estruturas pequenas, leves e de fácil manejo. Num vídeo do Youtube, que vi há muitos anos, eles comparavam os belíssimos e caros relógios suíços com os relógios digitais japoneses, que se poderiam comprar em qualquer camelô. Eles faziam exatamente a mesma coisa: marcavam a hora. Mas, em pouco tempo, no relógio de chip entrou uma calculadora, um termômetro, uma bússola etc. Enquanto o charmosíssimo Patek Philippe, pelo qual o Reinaldo Azevedo lambe os beiços, só marca a hora mesmo.

E nosso “texugo-do-mel”, que tem “inteligência para usar ferramentas” e forma 233.695 engenheiros por ano, resolveu usar esse povo para construir cidades e fábricas subterrâneas, projetar misseis, drones e rápidas lanchas, equipadas com mísseis cruzeiros antinavios e antiaéreos. Esses nerds de Alá desenvolveram sistemas que captam a presença dos jatos “invisíveis” dos EUA. E, ao serem os primeiros a derrubarem um F-35, demonstraram a boa educação persa: “Desculpem-nos! Não sabíamos que ele era invisível”. E depois do caça invisível, teve o trailer Resgate ao Piloto Invisível…

Um dos projetos mais interessantes do governo Lula, em parceria com o MST e a China, é produzir uma grande quantidade de pequenas máquinas agrícolas e pequenas ferramentas elétricas. O objetivo é viabilizar um exponencial aumento da produção dos pequenos e médios agricultores e da chamada agricultura familiar. O sul é onde a mecanização desse setor é a mais forte, chegando a apenas 50%. No norte e nordeste, não ultrapassa a 25%. Mesmo com todo esse atraso, a pequena agricultura ainda é responsável por quase todo alimento que comemos. Vicejando esse projeto, teremos uma revolução no campo e no prato. O caminho não são as grandes e caras máquinas, mas sua evolução menor, mais barata, que vem com internet e máquina de café.

Mas o que isso tem a ver com DEFESA?!!! Tudo. Há uma expressão antiga e interessante que fala em “munição de boca”. Um país que não precise tanto se preocupar com a barriga pode se dar ao luxo de trabalhar com a mente. Ouvi muitas opiniões sobre como consertar nossas Forças Armadas, como abrasileirá-las, e nenhuma me pareceu factível em curto prazo. Na história, vimos o que fizeram os franceses depois da Grande Revolução. Eles, que por alguma razão, não confiavam no Exército Real, criaram Armée révolutionnaire, convocando os cidadãos que juraram lealdade à pátria e não ao rei. Em abril de 1831, no Brasil, os liberais, que se viram na obrigação de depor o déspota D. Pedro I, perceberam que o exército tinha mais amor por Portugal do que pelo Brasil. Mesmo no pós-independência, o Exército de Linha ainda tinha 78% de sua oficialidade composta por portugueses natos. Para contrabalançar a situação, foi criada a Guarda Nacional. Faziam parte dela os brasileiros entre 21 e 60 anos. A GN estava subordinada ao Ministério da Justiça e, localmente, aos Juízes de Paz. E a sua oficialidade era eleita em pleitos locais.

Ao que aparenta, só mudou no coração das Forças Armadas a nação alienígena. E, como palpitar é livre, aí vai o meu pitaco sobre como solucionar esse imbróglio: criar uma nova força militar vocacionada às modernas tecnologias de defesa. A educação desse cidadão-soldado teria seu início nas escolas técnicas federais (IFEs) e completaria sua formação nas universidades públicas, em turmas mistas de militares e civis, nos cursos de engenharia, matemática, ciência da computação, história, sociologia… Soldados da nação, formados junto à sociedade civil, deslocados para o auxílio a populações em situação de desastres, de carência de saúde, de alimentação, educação etc. Essas missões seriam aulas práticas de empatia e patriotismo. A nova matriz bélica estaria diretamente subordinada ao poder da sociedade civil organizada e das instituições democráticas. Nasceria livre das amarras das péssimas tradições militares que herdamos e viria em substituição a essas. Seria a vanguarda na transição para um verdadeiro sistema de defesa, com a finalidade primordial a salvaguarda da soberania do nosso povo sobre o controle do seu destino. Difícil?  Considerando que o problema de defesa não é militar, mas sim político, qualquer caminho para solucioná-lo é difícil. Mas o Irã, nosso valente “texugo-do-mel”, mostrou o caminho. Precisamos de avanços tecnológicos e povo nas ruas.


Foto de capa: IA | Giovanni Mesquita

Sobre o autor

WhatsApp Image 2026-02-13 at 14.04.58
Giovanni Mesquita
Historiador, museólogo e escritor autor de Bento Gonçalves do nascimento a revolução: uma biografia histórica. Bento1835@gmail.com

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático