Por Solon Saldanha *
Com uma engenharia política que espelha a chapa federal, o PSB de Gelson Merísio e o PT de Décio Lima estruturam coalizão para tentar romper a hegemonia da extrema-direita no Estado.
Santa Catarina, um dos bastidores mais resilientes do bolsonarismo, assiste agora à consolidação de uma alternativa de centro-esquerda que busca mimetizar o sucesso da aliança Lula-Alckmin. Após intensas negociações coordenadas diretamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do PT, Edinho Silva, o ex-deputado Gelson Merísio (PSB) oficializou sua pré-candidatura ao governo do Estado. A chapa é o resultado de um xadrez político que visa atrair o eleitorado moderado e isolar o projeto de reeleição de Jorginho Mello (PL).
A estratégia passa pela ausência do número 13 na cabeça da chapa majoritária para o Executivo. Ao lançar Merísio — político com trânsito histórico na centro-direita e consolidado no mundo empresarial através de sua atuação como conselheiro da JBS —, a frente democrática aposta na capacidade de diálogo com setores do agronegócio e da indústria. Merísio, que já presidiu a Assembleia Legislativa (Alesc) e disputou o segundo turno em 2018, ressurge como o pivô de uma frente que une PSB, PT, PDT e PSOL contra a pulverização conservadora representada por nomes como Caroline de Toni e Carlos Bolsonaro.
A composição majoritária e o fator feminino
O desenho da chapa traz Décio Lima (PT) como candidato ao Senado, em um movimento calculado para capitalizar a dispersão de votos na direita. Enquanto o campo conservador enfrenta um racha entre o atual governador, Esperidião Amin, e a ala mais radical do PL, o PT catarinense busca garantir uma vaga no Legislativo Federal surfando na unidade das esquerdas. Afrânio Boppré (PSOL) completa a lista de pretendentes ao Senado pela coalizão.
Um diferencial relevante na estratégia da frente é a tentativa de sanar o déficit de representatividade feminina na política catarinense. Angela Albino (PDT) foi anunciada como vice de Merísio, sendo a primeira mulher a ocupar papel de destaque nas pré-campanhas majoritárias deste ciclo. O grupo ainda resgatou Luci Choinacki (PT), militante histórica da reforma agrária, para integrar a coordenação e atenuar a imagem puramente empresarial de Merísio junto à base da agricultura familiar. Três outras mulheres — Aparecida da Silva (PT), Elaine Cristina Huber (PDT) e Fernanda Klitzke (PT) — figuram como suplentes, em um aceno ao eleitorado feminino em um Estado com índices alarmantes de violência doméstica.
Preocupação no bunker de Jorginho Mello
A articulação de Merísio acendeu o alerta no Centro Administrativo do Estado. Bruno Mello, estrategista da campanha de Jorginho Mello, admitiu que a presença de um candidato com o perfil de Merísio dificulta a narrativa de polarização ideológica direta. Para o PL, enfrentar um nome do PT seria o cenário ideal para manter o debate no campo da “guerra cultural”. Merísio, contudo, adota uma postura de conciliação semelhante à de Rodrigo Pacheco em Minas Gerais, o que pode atrair o eleitor de centro que hoje se sente órfão de uma alternativa viável ao extremismo.
O desafio de Merísio será, entretanto, lidar com seu próprio passado. Adversários já preparam materiais que relembram seu apoio enfático a Jair Bolsonaro em 2018. A missão do pré-candidato é convencer a base progressista de que sua migração para o PSB e sua proximidade com Alckmin e os irmãos Batista representam uma conversão genuína ao projeto de defesa institucional. Com o lançamento oficial ocorrido nesta quinta-feira, a frente democrática inicia o percurso para tentar provar que, mesmo em solo catarinense, há espaço para um discurso que substitua o fuzil — símbolo evocado recentemente por Jorginho Mello em suas redes — pelo diálogo republicano.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Décio, Lula e Gelson. Crédito: reprodução O Globo




