Por Solon Saldanha *
Evento realizado em Brasília é classificado como “dia de vergonha” por críticos, que denunciam a exclusão de vozes judaicas antissionistas e o aparelhamento da diplomacia brasileira por entidades alinhadas a Israel.
A realização do seminário “Enfrentamento ao Antissemitismo: Reflexões sobre o Cenário Internacional”, ocorrido nesta quinta-feira (16/04) na sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, transformou-se em um epicentro de crise política para o governo federal. O evento, organizado em parceria com entidades sionistas como a Confederação Israelita do Brasil (CONIB), provocou uma reação em cadeia de jornalistas, intelectuais e movimentos sociais, que acusam o Itamaraty de chancelar uma narrativa unilateral em meio ao agravamento do conflito no Oriente Médio.
O jornalista Breno Altman, editor do portal Opera Mundi, foi uma das vozes mais contundentes no repúdio à iniciativa. Em artigo amplamente repercutido, Altman classificou o seminário como um “dia de vergonha” para a diplomacia brasileira, sustentando que o evento ignora a tradição de equilíbrio do Itamaraty e as recentes críticas do presidente Lula ao governo de Benjamin Netanyahu. Segundo Altman, o ministério permitiu que o protagonismo fosse entregue a grupos que utilizam a pauta do antissemitismo para criminalizar críticas legítimas ao Estado de Israel e ocultar denúncias de crimes de guerra na Palestina.
Exclusão e boicote de entidades
A tensão nos bastidores do Palácio Itamaraty culminou no abandono coletivo de diversas organizações convidadas. As entidades Árabes e Judeus pela Democracia, Árabes e Judeus pela Paz, Articulação Judaica de Esquerda e Vozes Judaicas por Libertação denunciaram terem sido impedidas de se manifestar durante as mesas de debate. Em nota, os grupos afirmaram que o espaço foi “monopolizado” por visões sionistas, negando a pluralidade da comunidade judaica brasileira e silenciando aqueles que defendem a distinção entre o ódio religioso e a oposição política ao governo israelense.
A presença de Clara Ant, assessora especial da Presidência, na organização do evento, também foi alvo de questionamentos. Críticos apontam que sua atuação reflete a influência de quadros assumidamente sionistas dentro do núcleo do governo, o que estaria gerando uma “esquizofrenia diplomática”: enquanto o presidente Lula endurece o tom contra as ações militares em Gaza e no Líbano, órgãos de seu governo promovem eventos que legitimam as entidades mais alinhadas ao lobby pró-Israel.
Xadrez político e pressão legislativa
O seminário ocorre em um momento de alta voltagem no Congresso Nacional. Tramita na Câmara o PL 1424/26, que busca tipificar o antissemitismo sob uma ótica que, para juristas, pode cercear a liberdade de expressão ao equiparar antissionismo ao racismo antijudaico. A influência política de figuras como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e do líder do governo no Senado, Jaques Wagner — ambos identificados com a causa sionista —, é vista como um fator de peso para a manutenção dessas pautas na agenda estatal, apesar do desgaste internacional.
Para o Itamaraty, que historicamente se orgulha de sua independência, o episódio deixa uma mancha de “partidarismo ideológico”. O silenciamento das vozes judaicas progressistas dentro da casa de Rio Branco não apenas expõe a fratura interna do governo sobre o tema, mas também levanta dúvidas sobre a capacidade do Brasil de atuar como mediador isento em fóruns internacionais, como o Tribunal de Justiça em Haia, onde o país apoia investigações contra a ocupação israelense.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Breno Altman. Crédito: reprodução FEPAL





Uma resposta
A professora Arlene Clemesha da USP, defendeu a impossibilidade de discutir o racismo apenas contra os judeus. E pediu uma abordagem completa, contra qualquer forma de racismo.