Por Solon Saldanha *
Relatório comercial da gestão Trump classifica o sistema de pagamentos brasileiro como “prática desleal” e ameaça para a competitividade de gigantes americanas. Em resposta, governo brasileiro reforça agenda de soberania e evolução da ferramenta.
A tensão comercial entre os Estados Unidos e o Brasil ganhou um novo e complexo capítulo. Em relatório oficial publicado em 31 de março de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) voltou a colocar o Pix sob a mira da administração Donald Trump. O documento, que monitora barreiras comerciais em mais de 60 nações, alega que o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro confere um “tratamento preferencial” que prejudica diretamente empresas americanas do setor de pagamentos eletrônicos, como Visa e Mastercard.
O movimento não é isolado. Desde julho do ano passado, o USTR conduz um inquérito fundamentado na Seção 301 do Trade Act de 1974 para apurar se a infraestrutura criada e gerida pelo Banco Central do Brasil constitui uma prática comercial injusta. O ponto central da crítica americana reside na obrigatoriedade do uso do sistema por instituições financeiras com mais de 500 mil contas, o que, na visão de Washington, cerceia a livre concorrência.
O Arsenal de Washington: O que os EUA podem fazer?
Embora os Estados Unidos não possuam jurisdição direta sobre as normas regulatórias do Banco Central do Brasil, o país dispõe de um robusto aparato de pressão econômica. Especialistas em direito internacional apontam que a conclusão da investigação pela Seção 301 pode desencadear medidas de retaliação comercial severas:
- Suspensão de Acordos: Cancelamento de benefícios comerciais bilaterais.
- Barreiras Tarifárias: Imposição de novas taxas (o chamado “tarifaço”) sobre exportações brasileiras estratégicas.
- Exclusão do SGP: A retirada do Brasil do Sistema Geral de Preferências, que garante isenções tarifárias para países em desenvolvimento desde a década de 70.
Para Camila Villard Duran, especialista em regulação monetária, a ofensiva deve ser lida como um mecanismo de pressão diplomática. “Não é uma medida tecnicamente direcionada ao Pix, mas sim uma estratégia política para forçar o Brasil a ceder em outros campos ou abrir espaço para redes privadas estrangeiras”, analisa.
Soberania Nacional e a Reação do Planalto
A reação do governo brasileiro foi imediata e enfática. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou que o sistema é um patrimônio nacional: “O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar”, declarou. A defesa da ferramenta também atravessou fronteiras, recebendo apoio de líderes regionais como o presidente colombiano Gustavo Petro, que defende a exportação do modelo brasileiro para outros países da América Latina.
Internamente, o embate se tornou munição política. Membros do governo têm utilizado as críticas de Trump para rotular a oposição como “subserviente a interesses estrangeiros”, enquanto figuras ligadas ao bolsonarismo, como o senador Flávio Bolsonaro, tentam se equilibrar entre a proximidade com Trump e a popularidade avassaladora do Pix entre os eleitores brasileiros.
A Agenda Evolutiva: O Pix não vai parar
Ignorando as pressões externas, o Banco Central mantém o cronograma de expansão da ferramenta para 2026 e 2027. O objetivo é substituir gradualmente instrumentos tradicionais e aumentar a eficiência do mercado. Assim, já anuncia novidades para curto e médio prazo.
Em novembro deste ano passa a existir a funcionalidade da cobrança híbrida, com a integração obrigatória entre QR Code e boletos bancários. Em dezembro será a vez do split tributário, como o pagamento de impostos, como a CBS, em tempo real no ato da compra. Para 2027 teremos o Pix internacional, com a interconexão definitiva com sistemas de outros países; o Pix por aproximação, para pagamentos em mofo offline, sem a necessidade de internet; e o Pix em garantia, podendo ser feito uso de recebíveis futuros para crédito consignado a autônomos.
Impacto Social e Econômico
O sucesso do Pix é traduzido em números superlativos. Em 2025, o sistema movimentou a marca recorde de R$ 35,36 trilhões, consolidando-se como o principal motor de bancarização do país. Segundo Renato Gomes, diretor do Banco Central, a ferramenta atingiu praticamente toda a população adulta brasileira, alterando permanentemente o comportamento de consumo e facilitando a sobrevivência de pequenos negócios que antes eram reféns das altas taxas das operadoras de cartão.
O cenário para 2026 indica que o Pix deixará de ser apenas uma ferramenta de conveniência para se tornar o epicentro de uma disputa geopolítica sobre quem controla os dados e o fluxo financeiro na era digital.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Ilustração: reprodução da CNN Brasil




