Estratégia de Flávio nos EUA pode reacender debate sobre soberania e ser ruim para ele

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Fotomontagem Flávio e minerais raros. Crédito reprodução Virtualidades

Por Solon Saldanha *

Em meio à ascensão da “Doutrina Donroe” e ao intervencionismo de Donald Trump na América Latina, o senador Flávio Bolsonaro busca apoio em solo americano e oferece recursos minerais estratégicos em troca de pressão diplomática sobre o pleito brasileiro. Analistas indicam que a tática reforça a base bolsonarista, mas corre o risco de aumentar a rejeição entre os eleitores indecisos e fortalecer o discurso nacionalista do governo Lula.


O cenário político brasileiro para as eleições de outubro ganha contornos internacionais após o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, participar da Ação Política Conservadora (CPAC) no Texas. No evento, o parlamentar defendeu uma “pressão diplomática” dos Estados Unidos sobre as instituições brasileiras para garantir o que chamou de “valores de origem americana” no processo eleitoral nacional.

Como contrapartida à influência de Washington, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro destacou o potencial mineral do Brasil. Segundo o senador, o país detém a solução para que os EUA reduzam sua dependência da China em relação aos minerais de terras raras — insumos críticos para a tecnologia global dos quais o Brasil possui a segunda maior reserva do planeta.

A Doutrina Donroe e o novo intervencionismo

A movimentação ocorre em um momento em que a política externa de Donald Trump, apelidada de “Doutrina Donroe” (fusão entre o nome do presidente e a histórica Doutrina Monroe de 1823), reafirma as Américas como zona de influência exclusiva dos EUA. Ao longo de 2025, essa postura manifestou-se de forma agressiva: da retomada do Canal do Panamá até a invasão da Venezuela para o sequestro de Nicolás Maduro. Isso além de ameaças mais distantes, como a de anexação da Groenlândia.

No Brasil, o impacto foi sentido em julho de 2025, quando o governo Trump impôs uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros. A medida foi lida como uma retaliação direta à condenação penal de Jair Bolsonaro. Além das sanções econômicas, houve a suspensão de vistos e a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.

Impactos na popularidade e soberania

Apesar da proximidade ideológica entre o clã Bolsonaro e a Casa Branca, o histórico recente sugere que a subserviência externa pode não se traduzir em votos. Pesquisas da AtlasIntel indicaram que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fortaleceu sua imagem ao adotar um discurso de defesa da soberania e reciprocidade econômica durante o “tarifaço” de 2025.

Internacionalmente, o “efeito Trump” tem sido ambivalente. Se por um lado ajudou líderes como Javier Milei, na Argentina; e Nasry Asfura, em Honduras, por outro provocou uma reação nacionalista que beneficiou Mark Carney, no Canadá, e Claudia Sheinbaum, no México. Estes cresceram nas pesquisas ao confrontar as pressões de Washington.

Riscos e benefícios da aliança externa

Para o cientista político Guilherme Casarões, da Florida International University, a estratégia de Flávio Bolsonaro visa consolidar a base radical. Casarões aponta que o governo Trump pode tentar classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, criando um impasse diplomático que alimentaria a narrativa bolsonarista sobre segurança pública e associação da esquerda ao crime organizado.

Entretanto, o tiro pode sair pela culatra. Carlos Melo, professor do Insper, adverte que o apoio explícito de um líder estrangeiro com alta desaprovação — Trump enfrenta hoje rejeição superior a 56% nos EUA — tende a repelir o eleitor moderado. Uma pesquisa Genial/Quaest de março corrobora essa tese: 32% dos brasileiros afirmam que o endosso de Trump a Flávio aumentaria as chances de votarem em Lula, enquanto apenas 28% veriam a aliança como um motivo para apoiar o senador.

Com o eleitorado polarizado, a disputa deve ser resolvida com os votos de uma pequena parcela de indecisos. Para esses cidadãos, a imagem de um candidato que subordina recursos estratégicos nacionais a interesses de uma potência estrangeira pode ser o fator determinante para a definição do voto por exclusão, transformando a tentativa de apoio externo em um passivo eleitoral.

* Solon Saldanha, jornalista e escritor

Fotomontagem: Flávio Bolsonaro e minerais raros. Crédito: reprodução Virtualidades

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