O debate político contemporâneo tem sido frequentemente reduzido a uma disputa entre o tamanho do Estado e a liberdade do mercado, uma dicotomia que, embora historicamente relevante, parece cada vez mais incapaz de oferecer soluções para os problemas estruturais do século XXI. Nos Estados Unidos, esse esgotamento intelectual deu origem a uma nova corrente de pensamento que Ezra Klein e Derek Thompson consolidam em sua obra seminal Abundance: What Progress Takes. (2025). Para o público brasileiro, especialmente à medida que nos aproximamos do ciclo eleitoral de 2026, essa obra — em diálogo com a historiografia econômica de J. Bradford DeLong (2022) e a visão pragmática de John Maynard Keynes (1933) — oferece um roteiro indispensável para superar a “política da escassez” e construir uma “agenda da abundância”.
A Tese da Abundância: A Escassez como Escolha Política
A premissa fundamental de Klein e Thompson é que a sociedade moderna, em especial a americana, mas com reflexos claros na brasileira, vive sob um regime de “escassez escolhida”. Não faltam, na sociedade americana, recursos financeiros, tecnologia ou conhecimento para resolver a crise habitacional, acelerar a transição energética ou curar doenças crônicas; o que falta é a capacidade institucional de construir e inventar.
Os autores descrevem uma trajetória onde o otimismo tecnológico do século XX nos Estados Unidos foi substituído por uma “vetocracia” paralisante. Leis ambientais, normas de zoneamento e processos de consulta pública que foram criados para proteger o bem comum tornaram-se, ironicamente, os instrumentos que impedem a criação de bens públicos essenciais. O resultado é uma produtividade estagnada no setor de construção e infraestrutura, enquanto o setor digital avança exponencialmente, criando o paradoxo de um mundo onde é fácil baixar um aplicativo, mas quase impossível construir uma linha de trem de alta velocidade ou um bairro acessível.
| Setor | Sintoma da Escassez | Causa Institucional (Lado da Oferta) |
| Habitação | Preços de imóveis subindo 6x mais rápido que a renda. | Leis de zoneamento restritivas e o “veto” de vizinhos (NIMBYism). |
| Energia | Dependência de combustíveis fósseis e preços voláteis. | Morosidade no licenciamento de parques solares e linhas de transmissão. |
| Saúde | Falta de médicos e custos exorbitantes de tratamentos. | Restrições ao número de residências médicas e burocracia na pesquisa básica. |
| Infraestrutura | Obras públicas que levam décadas e estouram orçamentos. | “Fetiche do procedimento” e dependência excessiva de consultores externos. |
Fonte: Elaboração do autor, com base em Klein e Thompson (2025) Diferenciando o Novo Lado da Oferta do Reaganismo
É crucial distinguir a proposta de Klein e Thompson da chamada supply-side economics (economia pelo lado da oferta) que dominou a política americana nos anos 1980 e 1990. Aquela doutrina, frequentemente associada à Curva de Laffer, defendia que o crescimento viria quase exclusivamente através do corte de impostos para os mais ricos e da desregulamentação absoluta do mercado.A premissa era que, se o governo simplesmente saísse do caminho, os “John Galts” da iniciativa privada criariam prosperidade automática. O “Liberalismo de Abundância”[1] ou “Progressismo do Lado da Oferta” inverte essa lógica em
| Setor | Sintoma da Escassez | Causa Institucional (Lado da Oferta) |
| Habitação | Preços de imóveis subindo 6x mais rápido que a renda. | Leis de zoneamento restritivas e o “veto” de vizinhos (NIMBYism). |
| Energia | Dependência de combustíveis fósseis e preços voláteis. | Morosidade no licenciamento de parques solares e linhas de transmissão. |
| Saúde | Falta de médicos e custos exorbitantes de tratamentos. | Restrições ao número de residências médicas e burocracia na pesquisa básica. |
| Infraestrutura | Obras públicas que levam décadas e estouram orçamentos. | “Fetiche do procedimento” e dependência excessiva de consultores externos. |
Fonte: Elaboração do autor, com base em Klein e Thompson (2025) Diferenciando o Novo Lado da Oferta do Reaganismo
Klein e Thompson (2025) introduzem dois termos provocativos para descrever os problemas do liberalismo moderno: o “liberalismo de tudo-ao-mesmo-tempo” (everything-bagel liberalism) e o “fetiche do procedimento” (procedure fetish).
O primeiro refere-se à tendência de sobrecarregar projetos essenciais com uma infinidade de objetivos acessórios. Um projeto de habitação popular, por exemplo, não pode apenas fornecer casas; ele precisa ter painéis solares específicos, cumprir cotas de contratação local, usar materiais certificados de uma forma x, passar por dez audiências públicas e ter um design que não incomode a visão dos vizinhos ricos. O resultado é o “projeto buraco negro”: uma iniciativa que tenta fazer tudo e acaba não entregando nada, ou entregando a um custo proibitivo.
O “fetiche do procedimento” é a crença de que a legitimidade do Estado advém do rigor no cumprimento de processos burocráticos, e não da entrega de resultados tangíveis à população. Nicholas Bagley argumenta que os norte-americanos tornam decisões que deveriam ser técnicas ou políticas em questões judiciais intermináveis. Nos EUA, o número de advogados por habitante é o dobro do da Alemanha e o quádruplo do da França, refletindo um sistema onde o progresso é mediado por tribunais e não por engenheiros.
Essa estrutura cria o que Mancur Olson chamou de “esclerose institucional”: em sociedades estáveis e ricas, grupos de interesse organizados aprendem a usar as regras para extrair rendas e bloquear mudanças que ameacem seu status quo. O resultado é uma perda de confiança na democracia. Se o governo não consegue construir uma linha de metrô ou baixar o preço do aluguel, o eleitor sente-se tentado por líderes autoritários que prometem “eficiência” em troca de atropelar direitos democráticos.
Inovação e o “Problema Karikó”
Uma seção fascinante da obra de Klein e Thompson aborda o sistema de ciência e invenção. Eles utilizam a trajetória de Katalin Karikó, cujas pesquisas sobre o mRNA foram repetidamente rejeitadas pelo sistema de financiamento tradicional antes de se tornarem a base das vacinas contra a COVID-19, para ilustrar como a ciência moderna tornou-se avessa ao risco.
Os autores apontam para o “Fardo do Conhecimento”: à medida que acumulamos saber, os cientistas levam mais tempo para chegar à fronteira do conhecimento, o que atrasa as descobertas. No entanto, o problema maior é institucional. O National Institutes of Health (NIH) nos EUA gasta bilhões, mas favorece pesquisadores mais velhos com ideias incrementais, enquanto jovens inovadores são sufocados por papelada.
Eles propõem uma agenda de “Experimentação com Experimentos”. O governo deveria financiar não apenas projetos específicos, mas diversos modelos de financiamento: de loterias de bolsas a prêmios por metas alcançadas (como os Advance Market Commitments que aceleraram as vacinas). O objetivo é restaurar o espírito de lugares como o Bell Labs ou a DARPA, onde o foco era o resultado e a liberdade para falhar em busca de grandes saltos tecnológicos.
Lições para o Brasil: O Caminho para as Eleições de 2026
O Brasil apresenta um cenário onde os sintomas descritos por Klein e Thompson (2025) se traduzem numa crônica falta de investimento em infraestrutura. Enquanto o estoque de infraestrutura global médio é de 60% do PIB, o brasileiro estagna em 35,5%. As eleições de 2026 serão o momento de decidir se continuaremos gerenciando a escassez ou se abraçaremos a política da abundância.
1. Superação da Vetocracia e do “Custo Brasil” Regulatório
A infraestrutura nacional sofre com a lentidão no licenciamento ambiental e a insegurança jurídica. A aprovação da Lei Geral do Licenciamento Ambiental em 2025 foi um passo importante, mas o debate em 2026 deve focar na capacidade de execução. Não basta desburocratizar; é preciso profissionalizar as agências reguladoras e o corpo técnico do Estado para que as decisões sejam rápidas e tecnicamente sólidas, evitando a judicialização excessiva que é o “fetiche do procedimento” à brasileira.
2. Habitação: Do Subsídio à Oferta
O déficit habitacional brasileiro não é apenas quantitativo (5,97 milhões de casas em falta), mas qualitativo (27,6 milhões de moradias inadequadas). A lição de Abundance é clara: planos como o “Minha Casa Minha Vida” precisam ser acompanhados por uma revolução no zoneamento municipal. Regulamentações desatualizadas e licenciamentos urbanísticos complexos encarecem o solo e empurram as famílias para a informalidade. Candidatos em 2026 devem propor incentivos federais para cidades que adotem planos diretores focados em adensamento e redução de custos de construção.
3. Transição Verde como Motor Industrial
O Brasil tem o potencial de ser a maior economia de abundância energética do planeta. No entanto, a energia limpa do Nordeste fica frequentemente “represada” por falta de linhas de transmissão robustas. A transição energética deve ser vista não apenas como uma pauta ambiental, mas como uma estratégia de segurança nacional e liderança industrial. Isso exige uma política nacional clara para minerais críticos (lítio, nióbio), integrando o país nas cadeias globais de baterias e semicondutores através de previsibilidade regulatória.
4. Reconstrução da Capacidade Estatal
Uma lição dolorosa do projeto de linha ferroviária de alta velocidade da Califórnia foi a terceirização excessiva do pensamento estratégico para consultorias privadas. O Brasil precisa fortalecer seu serviço civil. Projetos de grande escala no PAC 2026 só terão sucesso se o Estado possuir engenheiros, gestores e tecnólogos de carreira capazes de fiscalizar contratos e gerir a complexidade sem depender inteiramente de agentes externos que não compartilham do interesse público a longo prazo.
Conclusão: Uma Política do “Sim”
A leitura cruzada dessas obras revela que o maior perigo para as democracias liberais é o cinismo. Quando a política se torna apenas uma disputa sobre como dividir uma “torta” econômica que não cresce, o conflito social torna-se inevitável e destrutivo. É preciso crescer e distribuir ao mesmo tempo.
A agenda da abundância oferece uma saída: a política do “Mais”. Mais casas, mais energia, mais curas, mais infraestrutura. Mas esse “mais” exige a coragem de dizer “não” ao fetiche do procedimento e ao liberalismo de tudo-ao-mesmo-tempo. Para o Brasil de 2026, a mensagem é que o progresso não é um acidente, mas um projeto de construção consciente. Precisamos de líderes que não apenas prometam distribuir riqueza, mas que tenham um plano detalhado para permitir que essa riqueza seja criada, construída e inventada em solo nacional.1
A abundância é a promessa do liberalismo em sua melhor forma: um sistema que utiliza o gênio coletivo para alinhar as necessidades do planeta com as aspirações de cada cidadão.1 É hora de o Brasil parar de caminhar lentamente rumo ao seu potencial e começar a construí-lo.1
Referências Bibliográficas
KLEIN, Ezra; THOMPSON, Derek. Abundance: What Progress Takes. New York: Avid Reader Press, 2025.
DELONG, J. Bradford. Slouching towards Utopia: An Economic History of the Twentieth Century. New York: Basic Books, 2022.
KEYNES, John Maynard. Essays in Persuasion. London: Palgrave Macmillan, 2010 (incluindo o ensaio “The Means to Prosperity” de 1933).
BAGLEY, Nicholas. The Procedure Fetish. Michigan Law Review, 2019.
FISCHEL, William. Zoning Rules! The Economics of Land Use Regulation. Lincoln Institute of Land Policy, 2015.
PAHLKA, Jennifer. Recoding America: Why Government Is Failing in the Digital Age and How We Can Do Better. Metropolitan Books, 2023.
SABIN, Paul. Public Citizens: The Attack on Big Government and the Remaking of American Liberalism. W. W. Norton & Company, 2021.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA (CNI). Gargalos do Brasil: Infraestrutura e Trabalho Industrial. Brasília: CNI, 2025.
FIRJAN. Raio-X do Setor de Infraestrutura Brasileiro. Rio de Janeiro: FIRJAN, 2024. 25
FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Relatório de Déficit Habitacional no Brasil. Belo Horizonte: FJP, 2023.
[1] O termo liberalismo neste ensaio está sendo usado no sentido que tem na sociedade norte-americana, o qual se assemelha com o que no Brasil conhecemos por progressismo. Resolvi manter o termo liberalismo no sentido usado por Klein e Thompson (2025) o qual é sinônimo de progressismo ou social-democracia.
Foto de capa: IA





