Policial de esquerda: Metade órfão político, metade filho de chocadeira

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Depois de ouvir tantos relatos de colegas sobre suas vivências institucionais — especialmente quando decidiram se aproximar das esquerdas —, decidi escrever este texto não com o intuito de promover uma vitimização coletiva, mas, simplesmente, de trazer à tona uma realidade pouco abordada, justamente por não interessar àqueles que dirigem o debate político no Brasil.

Filhos de Chocadeira

Começo pelo evidente; terminarei pelo oculto. “Por óbvio” — expressão marcante do personagem Trimagasi, do filme O Poço —, essa classe é malquista em nosso próprio meio, o que, aliás, se acentuou gravemente com o crescimento do bolsonarismo. Policiais de esquerda, para muitos colegas, são piores do que bandidos: são traidores, filhos de chocadeira, irresponsáveis defensores de bandido.

Eu poderia recorrer a Albert Einstein e dizer que, diferentemente do Universo, a burrice humana é comprovadamente infinita. Mas é preciso descer do salto e reconhecer que a opinião de um ignorante vale tanto quanto — na maioria dos contextos — a de um sábio. Portanto, por mais equivocados que estejam — e estão —, a questão é que essa voz reverbera com grande alcance e já se encontra estabelecida.

Por mais certos que estejam, essas figuras abnegadas — que nada ganham com seu posicionamento político — era de se esperar que encontrem espaço entre aqueles com quem comungam valores e voto… Vai sonhando…!

Órfãos Políticos

Antes de tudo, eles são suspeitos apenas por serem quem são — chamo isso de “Síndrome do Cabo Anselmo”. Lembro, para exemplificar, de ter sido convidado para uma manifestação pequena, que, se muito, contou com a presença de 30 pessoas. Pois bem, quando souberam da presença de alguns policiais, instaurou-se a celeuma: “os estudantes (que não deviam passar de cinco) aceitariam a presença de policiais na organização?”.

Pelo amor de Deus, não se tratava de uma incursão à Sierra Maestra, mas apenas de mais um evento de nicho. Enfim…

Se isso é superado, de pronto surge um confinamento a uma perspectiva bastante prejudicial: a de serem vistos não como policiais “de” esquerda, mas “da” esquerda. Sacou a diferença? O lado bom é que, ao menos, passam a ser reconhecidos como trabalhadores (ufa!). O lado ruim é que sua presença nesses espaços se dá – para muitos – quase ao acaso, sem que haja real respeito por suas convicções, ideias e consciência política.

Os poucos que conseguem se impor e demonstrar que sua presença na esquerda não é um mero acidente — e que passam a ser, ao menos, reconhecidos como iguais dentro da militância — ainda assim não desfrutam do mesmo protagonismo concedido a outros grupos. Não lhes é ofertado “puxar” as lutas relacionadas à sua própria área de atuação, sendo frequentemente relegados ao papel de mascotes, utilizados para conferir credibilidade a determinadas lideranças.

Não por acaso, policiais de esquerda são constantemente requisitados para fotos. Essa lógica se estende até mesmo àqueles que alcançam efetivo destaque no debate público, permanecendo, ainda assim, em uma posição de inferioridade.

Como isso acontece e poucos entre eles notam

Aqui é preciso fazer uma pausa para descrever um processo recorrente entre aqueles que dirigem a esquerda. A ideia, ainda que não explicitada, é que o tema da polícia — ou da segurança pública — permaneça sob a liderança das figuras de sempre: advogados, professores e políticos/ativistas, como Marcelo Freixo, Guilherme Boulos e Glauber Braga.

Não há aqui qualquer questão pessoal contra esses colegas — nem contra tantos outros que participam desse debate —, mas esse protagonismo, que por vezes se aproxima de um monopólio, é prejudicial a disputa política, e explico brevemente o porquê. Embora esses quadros tenham qualidade e lugar de fala em diversos aspectos da segurança pública, quando o debate adentra a esfera da atividade policial em si, esse lugar se fragiliza. Fora dos nichos mais politizados, o público em geral tende a conferir maior credibilidade àqueles que vivenciam diretamente essa realidade — “por óbvio” (2x)!

Some-se a isso o fato de terem demandas em outras pautas, como – e surge aqui a pior parte, como não é algo orgânico a eles, há maiores possibilidades de “maltratarem” o tema em prol de alguma conveniência política, como ocorreu com o Boulos e o Freixo em suas recentes candidaturas ao tratarem da regulamentação/legalização de certas drogas atualmente tidas como ilegais no país.

Mas por que isso acontece? As razões são variadas. Vão desde o ganho político ou pessoal — o que, sinceramente, não vejo como problema; pouco me importa quem leva os louros, desde que o problema seja enfrentado — até a uma escolha estratégica de, prioritariamente, negar o debate. Denuncismo não redunda em abertura do tema para debate.

A partir disso colaborasse para a continuação da impressão de que as polícias e a segurança pública no Brasil transitam entre o imutável e uma simples questão estatística, como se fossem campos fechados à disputa de ideias e nos afastamos de qualquer discussão estruturante. Nesse contexto, evita-se que policiais de esquerda liderem esses processos, justamente porque, para quem vivencia a atividade — sobretudo os colegas da ponta (não os carreiristas que – quando convenientemente se colocam como de “esquerda”) —, o tema é visceral demais para ser tratado de forma demagógica e asséptica.

Se esses quadros mais viscerais, orgânicos fossem elevados, fatalmente teríamos de lidar com o desconforto de que segurança pública não é imutável, não é uma subciência da estatística e tampouco algo sacralizado. É, antes de tudo, um fenômeno mundano, social e profundamente permeável — na exata medida do quanto estivermos dispostos a transformá-lo.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Pedro Chê
Policial e Historiador.

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