CORRESPONDENTE POLÍTICO | Para além do Master, a grande lavanderia

translate

1_martha_graeff_e_namorada_de_daniel_vorcaro_1763569100382_v2_4x3-560072

“Esse filme seria o ganhador do Oscar”. Essa frase é dita por Martha Graeff ao seu namorado, o dono do Banco Master, em uma das conversas que estavam nos celulares investigados pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. Os dois conversam sobre um projeto que seria apresentado pelo presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), segundo Vorcaro. “Ciro soltou um projeto que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes”, diz o banqueiro. “Todo mundo louco aqui”, prossegue ele. “Se fosse filme, não teria tantos desdobramentos loucos”, conclui Vorcaro, antes da frase de Martha Graeff que abre a coluna.

Por que leniência com os menores?

A frase está na esteira de uma linha importante da investigação da PF: por que o Banco Central foi por muito tempo leniente com as operações dos bancos menores? Como já dissera o Correio Político na quarta-feira (4), não foi apenas com relação ao Master – que, agora se sabe, pagava dois ex-diretores – que o Banco Central teria feito vista grossa com relação às operações. Boa parte dos bancos menores operava com mesmo alto grau de risco.

“Grande amigo da vida”

Banco Central teria sido leniente na fiscalização | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Na conversa com Martha Graeff, assim Daniel Vorcaro menciona Ciro Nogueira. “Muito amigo meu. Um dos meus grandes amigos da vida”. No caso específico, é preciso dizer que a proposta que seria feita por Ciro Nogueira suspeita-se ser uma emenda à Proposta de Emenda à Constituição 65, que tratava da autonomia orçamentária do Banco Centra, e aumentaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A emenda não foi aprovada. Independentemente disso, há essa percepção da falta maior de fiscalização.

Equiparação a bancos

Na verdade, essa é uma reclamação dos bancos maiores há tempos. E vai na esteira das mudanças que foram feitas no ano passado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de fazer com que as fintechs fossem equiparadas aos bancos na fiscalização da Receita. A medida surgiu após a Operação Carbono Oculto, que mostrou como o PCC usava tais instituições para lavar dinheiro.

Linha de corte

Mesmo quem defende o Banco Central admite que houve essa leniência. Para além dos dois ex-diretores comprados, o que se argumenta é que, diante da imensidão do mundo financeiro, os menores e as fintechs ficavam abaixo de certa linha de corte em volume de negócios a ganhar a atenção da autoridade.

Fácil lavar

O resultado é que ficava bem mais fácil operar com tais instituições, bem menos rigorosas. Bem menos complicado abrir uma conta. Ou fazer investimentos. Ou, para aqueles que se utilizam do expediente, lavar dinheiro. E eis aí o tamanho da encrenca. Não é somente o crime organizado, o PCC, que lava dinheiro.

Quem lava?

Como sabem hoje até as pombas que ciscam na Praça dos Três Poderes, é amplo o espectro de quem lava dinheiro. Passa por políticos, partidos, grandes bancas de advocacia, médicos, empresários, altas autoridades nos três poderes da República. Essa é a Caixa de Pandora que o caso Master pode ter aberto.

Emendas

No caso dos parlamentares, boa parte disso viria do milionário esquema das emendas orçamentárias. Nunca, jamais, um dos políticos que aparece para defender as prerrogativas orçamentárias do Congresso veio explicar por que razão querem entre essas prerrogativas que se esconda quem é o autor da emenda e para que fim ela é destinada.

Financiamento

Parte da razão que ninguém explicita está no azeitamento das próprias campanhas, que faz com que a Câmara dos Deputados tenha tido nas últimas eleições uma taxa de permanência dos atuais parlamentares maior que 60% e se estime que agora vá chegar a mais de 80%. O esquema azeita as engrenagens.

Caixa Dois

No mínimo, porém, se o autor da emenda não colocou o dinheiro no bolso, isso é Caixa Dois. E esse dinheiro terá que ser justificado depois de alguma forma se não foi usado numa obra ou serviço do município. Para além, há os outros expedientes de outros grupos. Para isso, tamboretes por aí estariam disponíveis.


Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa: Vorcaro e sua namorada, Martha Graeff | Reprodução/Instagram @marthagraeff

Sobre o autor

rudolfo_lago_300px-172138
Rudolfo Lago
Ex-diretor do Congresso em Foco Análise, é chefe da sucursal do Correio da Manhã em Brasília. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rudolfo Lago

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático