Um alerta aos brasileiros diante da eleição de 2026
A Argentina tornou-se, neste momento, um laboratório de radicalização econômica.
Sob o comando de Javier Milei, o país avança em uma reforma trabalhista avassaladora, que flexibiliza demissões, reduz a força dos sindicatos, amplia a negociação individual e desloca o eixo das relações de trabalho em favor do empregador. Tudo isso embalado na retórica da “liberdade” e da “modernização”.
Há aplausos. Muitos aplausos.
Mas convém perguntar: o que exatamente está sendo celebrado?
O que está em jogo na Argentina
A narrativa oficial apresenta as mudanças como necessárias para gerar emprego e dinamizar a economia. Porém, o conteúdo concreto revela outra face: maior vulnerabilidade do trabalhador, enfraquecimento da proteção coletiva e ampliação da assimetria de poder nas negociações.
Direitos historicamente conquistados passam a ser tratados como obstáculos ao crescimento.
Não se trata apenas de economia. Trata-se de um projeto de sociedade.
E projetos atravessam fronteiras.
O espelho brasileiro
O Brasil entrará em 2026 sob forte polarização. Parte da direita brasileira observa a experiência argentina com admiração explícita. A retórica de “choque liberal”, de enfrentamento às “corporações” e de ataque aos sindicatos encontra eco por aqui e de forma especial na Faria lima e o que ela representa.
É nesse contexto que surge o risco do espelhamento.
Flávio Bolsonaro representa a continuidade de um campo político que já demonstrou disposição para flexibilizar direitos e reduzir o papel do Estado nas relações sociais. Seu pai, Jair Bolsonaro, governou com forte inclinação pró-mercado e com discurso recorrente contra a estrutura sindical.
A eventual convergência programática entre setores do bolsonarismo e a agenda ultraliberal inspirada em Milei não é hipótese distante. É uma possibilidade concreta dentro do espectro político que se organiza para 2026.
Liberdade ou assimetria?
A palavra “liberdade” reaparece como bandeira central.
Mas liberdade para quem?
Quando a negociação individual substitui a proteção coletiva, não estamos diante de dois indivíduos equivalentes. Estamos diante de uma relação estruturalmente desigual. O empregador dispõe de capital; o trabalhador dispõe de sua força de trabalho.
Retirar mediações institucionais não elimina desigualdades; amplia-as.
A experiência argentina poderá produzir indicadores positivos no curto prazo. Mas o custo social pode ser alto no médio e longo prazo: precarização, aumento da insegurança laboral, fragilização do tecido social.
O alerta para 2026
Quem hoje aplaude Milei talvez não esteja apenas apoiando um presidente estrangeiro. Pode estar sinalizando concordância com um modelo que, amanhã, poderá ser proposto ao Brasil.
A eleição de 2026 não decidirá apenas nomes. Decidirá se o país optará por aprofundar a proteção social ou por experimentar um choque ultraliberal de consequências estruturais.
A Argentina oferece um exemplo vivo. Cabe aos brasileiros observar com espírito crítico — e não com entusiasmo automático.
Advertência histórica
A história econômica da América Latina é clara: sempre que projetos de desregulamentação radical foram implementados em nome da eficiência imediata, os custos recaíram sobre o trabalho, enquanto os ganhos concentraram-se no capital. As promessas de dinamismo raramente compensaram a erosão da coesão social. Sociedades profundamente desiguais tornam-se politicamente instáveis — e instabilidade corrói a própria democracia que se dizia fortalecer.
Não se trata de medo. Trata-se de memória histórica.
Antes de aplaudir o experimento argentino — ou importar seu roteiro — o Brasil precisa lembrar que direitos não são concessões generosas do mercado. São pilares civilizatórios. E desmontá-los é sempre mais fácil do que os reconstruir.
Foto decapa: Milei discursa em evento conservador em Santa Catarina — Foto: Agência O Globo AFP





