A tentativa de apresentar Michelle Bolsonaro como alternativa natural ao desgaste político e jurídico de Flávio Bolsonaro parte de uma leitura superficial da dinâmica interna da família. Ela pressupõe que o bolsonarismo funcione como um agrupamento ideológico convencional. Nunca funcionou. Seu centro de gravidade jamais foi partidário, programático ou institucional. Sempre foi doméstico, familiar, patrimonial e, acima de tudo, sustentado pelo exercício diário da desconfiança mútua.
Muito antes da chegada ao Palácio do Planalto, a família Bolsonaro já mantinha convivência estreita com as franjas da ilegalidade. Não como episódio fortuito, nem como desvio ocasional de conduta, mas como método corriqueiro de sobrevivência política e ascensão material. O repertório é amplamente conhecido. Imóveis pagos em dinheiro vivo, esquemas de rachadinha que atravessam décadas, vínculos persistentes com personagens do universo miliciano do Rio de Janeiro, estruturas empresariais de rentabilidade incompatível com qualquer lógica econômica plausível, chocolaterias, comércio internacional de joias públicas e dinheiro. De preferência, em PIX. Em torno de tudo isso, a disposição constante para converter mandato público em mecanismo privado de arrecadação.
O traço mais impressionante dessa trajetória talvez não seja a sucessão de escândalos, mas a naturalidade com que foram incorporados ao cotidiano da família. O improviso suburbano foi elevado à condição de método de governo. A pequena astúcia de gabinete adquiriu escala nacional. O que parecia restrito à informalidade da política carioca foi transferido para o coração da República, sem que seus operadores abandonassem os hábitos cultivados na vida pública paroquial do Rio de Janeiro.
Durante muitos anos, isso funcionou.
Funcionou porque o sistema político brasileiro oferece abrigo generoso a estruturas familiares de poder. Funcionou porque parcela expressiva da direita brasileira trocou elaboração intelectual por messianismo vulgar. Funcionou porque os partidos, em larga medida, deixaram de ser instituições programáticas e passaram a operar como propriedades privadas, controladas por chefes políticos, financiadores e profissionais especializados em apropriar-se do bem público em benefício de negócios privados.
O problema surgiu quando a família decidiu ultrapassar a escala habitual de suas operações.
Sonharam com a própria superprodução. Imaginaram Hollywood a seus pés.
A tentativa de construir uma narrativa golpista de alcance internacional produziu um salto de complexidade incompatível com a precariedade intelectual e operacional do grupo.
A partir desse momento, o improviso passou a deixar vestígios amplos demais. Já não bastava manipular assessores fantasmas, pressionar servidores ou operar esquemas rudimentares de gabinete. A operação passou a envolver circulação internacional de recursos, articulação política transnacional, financiamento de grande porte e transações submetidas ao escrutínio de estruturas de controle muito mais sofisticadas.
Hoje, a dimensão do problema parece consideravelmente maior do que a imaginada pelos próprios envolvidos. O volume de recursos movimentados chama atenção não apenas pela magnitude, mas pela diversidade de suas possíveis origens. Além do republicano negócio com o Banco Master, do generoso “irmão” Daniel Vorcaro, as suspeitas alcançam verbas parlamentares, estruturas partidárias, redes empresariais de apoio e contratos públicos municipais. A prefeitura de São Paulo aparece reiteradamente no centro dessas hipóteses, sobretudo quando se recorda o inesperado entusiasmo de Bolsonaro pela candidatura de Ricardo Nunes. O que parecia uma operação política transformou-se em uma vasta máquina de captação e dispersão de recursos.
Parte relevante desses valores, ao que tudo indica, teria circulado no próprio sistema financeiro estadunidense. Fizeram isso sem grande cautela, embora soubessem que, quando operações passam a ocorrer entre contas sediadas nos Estados Unidos, sob jurisdição financeira estadunidense, o risco se eleva de maneira expressiva. Trata-se de movimentação potencialmente observável por estruturas internacionais de controle financeiro.
Nesse contexto, ganha consistência a hipótese de que Eduardo Bolsonaro tenha se tornado peça central na guarda política e operacional desse patrimônio deslocado para fora do Brasil. Sua permanência junto ao ecossistema da extrema direita estadunidense deixa, assim, de parecer mero alinhamento ideológico e passa a adquirir contornos bastante concretos. Pragmatismo financeiro é o nome.
Tudo isso bastaria para inviabilizar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Se a legislação brasileira fosse aplicada com o rigor que a República exige, sua trajetória eleitoral talvez jamais tivesse prosperado. Em rigor, ela sequer teria começado. Se as instituições houvessem defenestrado Jair Bolsonaro no início de sua carreira, quando os primeiros sinais já eram visíveis, o problema teria sido extirpado pela raiz, muito antes de Flávio disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Sem pai, não existiria filho.
O sistema partidário brasileiro, porém, convive há décadas com organizações privadas disfarçadas de partidos. Em muitos casos, são máquinas de arrecadação conduzidas por líderes que tratam a política como patrimônio hereditário.
Ainda assim, e apesar de tudo isso, a hipótese mais provável continua sendo a manutenção da candidatura de Flávio.
É nesse ponto que se encontra a principal dificuldade para compreender o funcionamento de uma família tão disfuncional. Aqui está a pedra de tropeço.
A substituição por Michelle Bolsonaro não esbarra prioritariamente no machismo, embora o machismo integre a cultura política e doméstica do bolsonarismo. A resistência de Jair Bolsonaro decorre de algo mais profundo e decisivo: a ausência absoluta de confiança.
Bolsonaro conhece Michelle Bolsonaro de uma maneira que o público desconhece. Conhece suas ambições. Quem passa décadas operando politicamente sob o princípio da lealdade condicional aprende a suspeitar de todos, inclusive daqueles que aparentam maior proximidade.
A família Bolsonaro jamais funcionou como núcleo afetivo convencional. Sempre operou como associação de interesses. Há hierarquia, divisão de espaços, competição interna e vigilância permanente. Em uma estrutura dessa natureza, confiança verdadeira é artigo inexistente. O patriarca tolera os filhos porque eles dependem organicamente dele. Compartilham sobrenome, origem política, passivos jurídicos e destino comum. Michelle, não. Michelle é um corpo estranho que gravita em torno da família pela atração dos valores familiares.
Valores em todos os sentidos.
Valores nunca foram problema para a família Bolsonaro, em todos os sentidos.
E Jair sabe disso.
Sabe por que passou a vida inteira em um universo em que alianças duram apenas enquanto oferecem proteção mútua. Sabe por que conhece o comportamento das famílias políticas brasileiras diante da ameaça penal concreta. Sabe por que compreende, de modo instintivo, que projetos pessoais florescem com rapidez quando o horizonte se estreita entre risco de prisão, colapso financeiro e isolamento político.
Sabe, sobretudo, que sua cabeça, vazia de valores, poderá ser servida com leite condensado na primeira ocasião em que isso se mostrar conveniente ao projeto pessoal da ambiciosa consorte.
Uma eventual candidatura de Michelle jamais seria recebida com serenidade pelo núcleo duro da família. A candidatura de Michelle jamais teria Jair como padrinho. Não porque ela seja externa ao bolsonarismo. Ao contrário. Michelle assimilou com perfeição sua estética fascista, sua religiosidade cínica, sua retórica moralista, seu patriotismo de fachada e, sobretudo, a disciplina de encenar em público o oposto do que se pratica em privado.
Nesse papel, talvez tenha ido longe demais.
Ela exagerou na performance da esposa devotada que ama o perseguido. Excedeu. Foi além da conta. E, em famílias armamentistas, excessos funcionam como gatilhos. Em todos os sentidos.
A desconfiança, então, deixou de ser um ruído de fundo e ocupou o centro da cena. Bolsonaro não acredita que Michelle permaneceria leal até o fim se o preço da lealdade se tornasse alto demais. Em um ambiente político governado pela paranoia, a confiança vale mais do que a popularidade eleitoral.
E, como se diz lá no Espigão, Jair Bolsonaro pode até ser bobo, mas besta não é. Dificilmente entregará o próprio destino a alguém em quem não confia.
Foto de capa: : Evaristo Sá / AFP





