Entre os dias 17 e 19 de junho, Porto Alegre receberá o SEMICON LAC 2026, principal evento da indústria de semicondutores da América Latina. Em um primeiro olhar, pode parecer apenas mais uma conferência internacional voltada a especialistas, empresas e pesquisadores. Contudo, sua realização no Rio Grande do Sul possui um significado muito mais profundo para a economia gaúcha, para a indústria brasileira e para o posicionamento estratégico do país em um dos setores mais importantes do século XXI.
Há alguns meses, em artigo publicado neste espaço em coautoria com o General Chair do evento, professor Adão Villaverde, defendemos que o Rio Grande do Sul se encontra diante de uma oportunidade histórica para consolidar sua participação na indústria global de semicondutores. Sustentávamos que o estado reúne atributos raros no cenário nacional: tradição industrial, universidades de excelência, centros de pesquisa consolidados, capacidade de inovação e recursos humanos altamente qualificados.
A realização do SEMICON LAC em Porto Alegre parece confirmar essa percepção.
Não se trata apenas da escolha de uma cidade para sediar um grande evento. Trata-se do reconhecimento de um ecossistema que, apesar de todas as dificuldades enfrentadas nas últimas décadas, continua sendo visto como um dos mais promissores da América Latina para o desenvolvimento de tecnologias avançadas.
Os semicondutores ocupam hoje uma posição equivalente à que o petróleo exerceu durante boa parte do século XX. Estão presentes em praticamente tudo aquilo que move a economia contemporânea: computadores, celulares, automóveis, equipamentos médicos, sistemas de telecomunicações, inteligência artificial, internet das coisas, defesa nacional e infraestrutura crítica. Sem eles, a vida moderna simplesmente para.
A pandemia deixou essa realidade evidente para o mundo inteiro. A escassez global de chips interrompeu cadeias produtivas, reduziu a fabricação de veículos, afetou a produção industrial e expôs a vulnerabilidade de países excessivamente dependentes de fornecedores externos. Desde então, governos de diferentes orientações políticas passaram a tratar a indústria de semicondutores como tema de soberania nacional.
Estados Unidos, China, União Europeia, Japão, Coreia do Sul e Índia anunciaram programas bilionários para fortalecer suas capacidades produtivas e tecnológicas. O debate deixou de ser exclusivamente econômico. Passou a envolver segurança nacional, autonomia tecnológica e capacidade de desenvolvimento.
O Brasil não está isolado desse movimento.
Nos últimos anos, o país voltou a discutir políticas voltadas ao fortalecimento da indústria de semicondutores, reconhecendo que a transformação digital e a nova economia exigem competências tecnológicas próprias. Nesse contexto, o Rio Grande do Sul possui vantagens que não podem ser ignoradas.
O estado construiu, ao longo de décadas, um ambiente favorável à inovação. Universidades como a UFRGS, a PUCRS, a Unisinos e diversas outras instituições formaram gerações de engenheiros, cientistas e pesquisadores que hoje atuam em empresas e centros tecnológicos espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Além disso, desenvolveu uma cultura industrial diversificada, capaz de dialogar com setores de alta complexidade tecnológica.
A presença da CEITEC integra esse patrimônio.
Independentemente das dificuldades enfrentadas ao longo de sua trajetória, a empresa preservou competências estratégicas raras no cenário nacional. Sua retomada representa uma oportunidade concreta de reconstrução de capacidades tecnológicas que poucos países da América Latina possuem. Em um setor no qual conhecimento acumulado e formação de pessoal são ativos tão importantes quanto os equipamentos, preservar e ampliar essas competências torna-se uma questão de interesse nacional.
Por essa razão, o significado do SEMICON LAC vai muito além dos debates que ocorrerão durante os três dias de programação.
O evento reunirá lideranças empresariais, pesquisadores, investidores, universidades, representantes governamentais e organizações internacionais ligadas à cadeia global de semicondutores. Essa convergência cria oportunidades para atração de investimentos, estabelecimento de parcerias, formação de redes de cooperação e construção de novos projetos de desenvolvimento tecnológico.
Mas existe uma dimensão ainda mais relevante.
Os grandes polos tecnológicos do mundo não surgiram por acaso. Foram resultado da combinação entre visão estratégica, continuidade institucional e capacidade de transformar conhecimento em desenvolvimento econômico. O Vale do Silício, nos Estados Unidos; Hsinchu, em Taiwan; e Shenzhen, na China, são exemplos de processos construídos ao longo de décadas, reunindo governos, universidades e setor produtivo em torno de objetivos comuns.
Guardadas as devidas proporções, o Rio Grande do Sul possui condições para construir sua própria trajetória.
Isso exige planejamento, investimento em educação, fortalecimento da pesquisa científica, estímulo à inovação e políticas públicas capazes de aproveitar as vantagens já existentes. Nenhum desses elementos produz resultados imediatos. Todos demandam persistência e visão de longo prazo.
O maior risco, portanto, não é a falta de potencial. O maior risco é desperdiçar uma oportunidade que dificilmente se repetirá com a mesma intensidade.
A escolha de Porto Alegre para sediar o principal encontro latino-americano da indústria de semicondutores demonstra que o estado possui credibilidade, competências e capacidade de protagonismo. O desafio agora consiste em transformar essa visibilidade em resultados concretos para a economia gaúcha.
Empregos qualificados, atração de empresas de base tecnológica, ampliação da capacidade de pesquisa, fortalecimento da indústria local e inserção em cadeias globais de maior valor agregado são alguns dos benefícios que podem emergir desse processo.
O futuro econômico será cada vez mais determinado pela capacidade de produzir conhecimento, desenvolver tecnologia e gerar inovação. Países e regiões que compreenderem essa transformação ocuparão posições de destaque nas próximas décadas.
O SEMICON LAC 2026 oferece ao Rio Grande do Sul a oportunidade de demonstrar que pretende estar entre eles. Mais do que sediar um grande encontro internacional, o estado tem diante de si a possibilidade de fortalecer um ecossistema capaz de gerar empregos qualificados, atrair investimentos, ampliar sua competitividade e contribuir para a soberania tecnológica brasileira.
Os debates que ocorrerão entre os dias 17 e 19 de junho dizem respeito não apenas a pesquisadores, engenheiros ou empresas do setor. Eles interessam a todos aqueles que se preocupam com o futuro da economia, da indústria, da inovação e do desenvolvimento do país.
Por isso, convido os leitores a acompanharem o SEMICON LAC 2026, que contará com transmissão virtual. Basta preencher o formulário disponível em https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSdXF3YmUFZTsb9CtcYWjHD5d4O9gfxurrswxffMQyibp4ek9w/viewform
Trata-se de uma oportunidade rara de conhecer as tendências que estão moldando a economia mundial e compreender por que os semicondutores ocupam posição cada vez mais estratégica na vida das nações.
O Rio Grande do Sul estará no centro dessa discussão. Vale a pena acompanhar de perto.
As informações sobre a programação estão disponíveis no site oficial do evento. Acesse aqui.
Foto de capa: Divulgação





