Rita Lee, memórias

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Foto de Rita Lee em 1972, disponível em Wikipédia. 

De MARA TELLES*

O inconsciente nos leva a sonhar com coisas que não entendemos. Parece que nossa memória é rastreada para nos dar respostas, esclarecer ou mesmo nos dar forças.

Sonhei com Rita Lee. Como se sabe, ela está velha e passando por um tratamento de câncer. Recentemente voltou a ser internada. E pode morrer.

Pois bem. Sonhei com ela. Careca, ela vestia uma peruca Lilás muito bonita e me ensinava como era “morrer”.

Entregou-me um molho verde e pediu que eu o colocasse na vagina. Aos poucos, sem notar, eu morreria sem perceber.

Sonho maluco, porque a Rita Lee me mostrava a casa dela e seu prédio, que estavam sendo invadidos por água de um vazamento no condomínio. Indignada, Rita Lee se queixava que a água entrava até no elevador.

Me mostrou o elevador, onde a água invadia o solo. Água que escorria e era um obstáculo desagradável, porque para subir ao seu andar, ela tinha que pisar sobre a água.

Tem muito significado nesse sonho. Muitos. Rita me falando sobre “morrer” num momento em que alguns querem assassinar minha reputação. Rita me dizendo que a morte começa por salsas verdes que são colocadas na vagina. A morte das mulheres?

Mas, ele deve dizer mais de mim do que da Rita Lee.

Despertei imediatamente com uma letra de música que eu mal me lembrava, mas que foi muito cantada pelas mulheres para se projetarem como sujeitos na sociedade. Era uma canção que lembrava, a nós mulheres, quem éramos e “por que” éramos: a Cor de Rosa Choque.

A moçada mais jovem não deve sequer saber de Rita Lee e a luz que ela irradiava em tempos da ditadura. Apagar a memória das mulheres é padrão.

Para muitos vintianeiros (em español, vintiañeros), o mundo começou 20 anos atrás. Nada mais existe além “deles” e de um narcisismo que está sendo exacerbado nos últimos anos.

Mal sabem os Peter Pans que muitos morreram para que eles hoje estivessem vivos, usufruindo de direitos que foram conquistados por gerações e gerações anteriores de anônimos.

Então, deixo aqui a lembrança de Rita Lee que, nos tempos atuais de obscurantismo, sectarismo e ideologias usadas como se fossem dogmas, ela, a Rita Lee, teria seu vinil jogado na fogueira pelos iluminados que não admitem divergências.

Cor de Rosa Choque (Rita Lee)

Nas duas faces de Eva
A bela e a fera
Um certo sorriso de quem nada quer

O sexo frágil
Não foge à luta
E nem só de cama vive a mulher.

E, eis que Rita Lee foi ainda mais maluca, essa que hoje se tornou uma véia:

Mulher é bicho esquisito
Todo mês sangra.

Pau na Véia da Rita Lee!


*Cientista política, professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e presidenta da ABRAPEL (Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais).

Foto de Rita Lee em 1972, disponível em Wikipédia.

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