Uma leitura territorial dos indicadores de desenvolvimento humano e do desempenho de Trump em 2024 e Bolsonaro no segundo turno de 2022.
A comparação entre Estados Unidos e Brasil exige uma cautela inicial: estamos diante de países distintos, com a colonização, demografia, economia, além das histórias partidárias, estruturas federativas e desigualdades territoriais diferentes. Ainda assim, os mapas ajudam a formular uma pergunta política relevante: o voto na direita presidencial se distribui da mesma forma em territórios de maior e menor qualidade de vida?
A resposta curta é: não.
Quando os indicadores de desenvolvimento humano são comparados aos votos em Trump e Bolsonaro, aparece uma inversão importante. Nos EUA, o voto em Trump tende a ser maior em estados de menor IDH relativo. No Brasil, o voto em Bolsonaro tende a crescer em UFs de IDHM mais alto, embora com menor força estatística e forte mediação de suas cinco regiões.

Nota metodológica: A escala comum é fundamental: sem ela, cada país pareceria internamente equilibrado, mas a comparação externa ficaria enganosa. A mesma cor deve representar a mesma faixa de desenvolvimento nos dois mapas. Esse detalhe técnico muda a interpretação política, pois mostra que o Brasil parte de outro patamar médio de desenvolvimento, mesmo quando suas UFs mais ricas se destacam internamente. A distância entre os dois países é bem significativa. São Paulo e Distrito Federal têm um IDH abaixo dos estados norte-americanos.
O mapa eleitoral: semelhanças ideológicas, bases territoriais diferentes
Trump e Bolsonaro costumam ser aproximados como fenômenos da direita populista, conservadora e polarizadora. Mas os mapas indicam que essa proximidade discursiva não significa identidade territorial. Nos EUA, o trumpismo tem forte presença em áreas interiores, estados rurais, regiões de menor dinamismo metropolitano e partes do Sul e dos Apalaches. No Brasil, o bolsonarismo de 2022 se apoiou com força no Sul, no Centro-Oeste, em parte do Sudeste e em áreas do Norte de perfil mais conservador.

No mapa norte-americano, os percentuais mais altos de Trump aparecem em Wyoming, West Virginia, Idaho, North Dakota, Oklahoma, Alabama, Arkansas, Kentucky e Tennessee. Há aí uma combinação de interioridade, menor densidade urbana, identidades religiosas e conservadorismo cultural. O mapa brasileiro aponta outro eixo: Santa Catarina, Roraima, Rondônia, Acre, Mato Grosso, Paraná, Goiás, Distrito Federal, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo formam o coração territorial do voto bolsonarista em 2022.
A diferença mais politicamente sugestiva está no Nordeste. Ali, Bolsonaro ficou abaixo de seu desempenho nacional, mesmo em estados de IDHM variado. Isso indica que o desenvolvimento humano não explica sozinho o voto. Memória política, políticas sociais, estrutura partidária, identidade regional, religião, renda, agronegócio, urbanização e antipetismo precisam ser lidos conjuntamente.
Em outras palavras: o indicador social ajuda, mas não substitui a geografia política. O voto é sempre uma síntese imperfeita entre condições materiais, pertencimentos culturais e disputas simbólicas.
Correlação: o sinal se inverte entre os dois países
A análise estatística confirma o contraste visual. Nos Estados Unidos, a correlação entre o SHDI estadual de 2023 e o voto em Trump em 2024 foi negativa: r = -0,63, com R² = 0,40. Isso significa que, em média, quanto maior o indicador de qualidade de vida do estado, menor tende a ser o percentual de Trump. O padrão é relevante, embora não absoluto: há exceções conservadoras de alto IDH, como Utah, Idaho, North Dakota e Wyoming.
No Brasil, a correlação entre IDHM 2021 e voto em Bolsonaro no segundo turno de 2022 foi positiva: r = 0,44, com R² = 0,19. A associação existe, mas é mais fraca. Isso sugere que o IDHM ajuda a entender parte da distribuição territorial do bolsonarismo, mas fatores regionais e sociopolíticos têm peso decisivo.

Insight 1. O trumpismo é mais forte em estados com menor desenvolvimento relativo, mas também mobiliza bolsões conservadores de alto IDH. O IDH explica uma parte importante da variação, mas não a totalidade do fenômeno.
Insight 2. O bolsonarismo é mais forte em UFs relativamente mais desenvolvidas, principalmente no Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste. O caso brasileiro sugere uma direita territorialmente ligada a agronegócio, empreendedorismo, classes médias urbanas, segurança pública, antipetismo e valores conservadores.
Insight 3. A comparação internacional revela uma assimetria política: duas direitas com afinidades retóricas podem ter bases sociais distintas. Nos EUA, a direita trumpista fala com força a territórios que se sentem economicamente ou culturalmente deslocados. No Brasil, o bolsonarismo de 2022 teve melhor desempenho em regiões mais integradas aos circuitos econômicos modernos, embora também tenha avançado em parte do Norte. O que se conclui é a plasticidade geográfica deste campo político, ao se confrontar os dois países. Uma característica aprofundada com a experiência de segmentação social e geográfica que se intensifica a partir da década passada. A Cambridge Analytica em suas atividades a partir do Brexit na Inglaterra e na posterior eleição de Donald Trump (ambos 2016) além da expansão do modelo para outros países, como o Brasil, América Latina e África.
Conclusão.
A qualidade de vida não determina o voto, mas organiza parte do terreno em que a disputa política acontece. É essencial evitar uma leitura mecanicista. Mapas e correlações não substituem a história política; eles ajudam a localizar onde ela se materializa.
Fontes dos dados
Global Data Lab, Subnational HDI v10.1; Atlas Brasil/Radar IDHM, PNUD Brasil, Ipea e Fundação João Pinheiro; resultados eleitorais dos EUA 2024 compilados a partir de totais certificados estaduais; resultados do segundo turno do Brasil 2022, TSE e compilação pública por UF. Observação metodológica: a comparação usa unidades territoriais diferentes – 50 estados nos EUA e 27 UFs no Brasil – e anos distintos para os indicadores sociais.
Foto de capa: Reprodução





