Um relatório da Polícia Federal (PF) indica a existência de um documento com instruções para um golpe de Estado presente no celular do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do governo de Jair Bolsonaro. O relatório foi revelado pela revista Veja na quinta-feira, 15.
O documento com instruções foi criado em 25 de outubro de 2022 com o título “Forças Armadas como poder moderador”. Para ser executado, era necessário que Bolsonaro autorizasse as medidas. Entre as ações listadas, estavam:
- Nomear um interventor;
- Fixar prazo para reestabelecer da ordem Constitucional;
- Designar, além das Forças Armadas, a Polícia Federal (PF) e Polícia Rodoviária Federal (PRF) para serem subordinados ao interventor;
- Determinar quais atos praticados pelo Poder Judiciário devem ser suspensos, afastar e abrir inquéritos contra autoridades;
- Com o afastamento dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), formar a corte com ministros substitutos: Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Dias Toffoli;
- Fixar prazo para novas eleições.
Além do documento, o relatório da PF possui conversas de Mauro Cid com Jean Lawand Junior, subchefe do Estado-Maior do Exército. As mensagens mostram a pressão de Lawand em cima de Cid para convencer Bolsonaro a dar o golpe. Uma das conversas foi no dia 1º de dezembro de 2022.
Lawand: “Pelo amor de Deus, Cidão. Pelo amor de Deus, faz alguma coisa, cara. Convence ele a fazer. Ele não pode recuar agora. Ele não tem nada a perder. Ele vai ser preso. O presidente vai ser preso. E, pior, na Papuda, cara”.
Cid: “Mas o PR [Presidente da República] não pode dar uma ordem…se ele não confia no ACE [Alto Comando do Exército]”.
Lawand: “Então ferrou. Vai ter que ser pelo povo mesmo.”
Em outras mensagens, o subchefe do Estado Maior do Exército fala que Bolsonaro precisa dar a ordem para que o golpe seja cumprido. “Convença o 01 a salvar esse país“, escreveu Lawand para Cid. Na conversa, Cid respondeu: “Estamos na luta!“.
A última conversa do dois por mensagem foi no dia 21 de dezembro. Lawand se diz decepcionado já que os esforços não deram em nada. Cid responde: “Infelizmente“.
Ministro como alvo
O relatório obtido pela Veja mostra o ministro do STF e presidente do TSE, Alexandre de Moraes, é um dos alvos da militância bolsonarista em grupos de WhatsApp. Uma das mensagens pergunta se Moraes, apelidado de “careca”, vai ser arrastado por blindado após o golpe.
Além dos grupos, o ministro também aparece em uma conversa de Gabriela Cid, esposa de Mauro Cid, com Ticiana Villas Bôas, filha do general Eduardo Villas Bôas, sobre a necessidade de uma nova eleição com voto impresso.
Gabriela: “Estamos em momento tenso onde temos que pressionar o Congresso”.
Ticiana: “Ou isso ou a queda do Moraes”.
O celular de Gabriela foi apreendido durante a operação da PF que investiga o esquema de fraude em carteiras de vacinação de Bolsonaro, integrantes do governo e familiares.
Ida à CPI
Ainda na quinta-feira, 15, Mauro Cid pediu ao STF para que não seja obrigado a comparecer na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos atos golpistas do dia 08 de janeiro.
A defesa argumenta que as justificativas apresentadas indicam que ele será ouvido como investigado, embora a comissão tenha aprovado sua convocação na condição de testemunha. Isso porque a PF enviou um documento a CPMI afirmando a existência de documentos relacionados à tentativa de golpe de Estado envolvendo os investigados.
Ao ser declarado como investigado, Cid teria direito ao silêncio e até ao não comparecimento, conforme entendimento da Corte.
Com informações do g1.
Foto: Divulgação/PR.
Para receber os boletins e notícias direto no seu Whatsapp, adicione o número da Rede Estação Democracia por este link aqui e mande um alô.