Você acorda, liga a televisão e vê no noticiário que o PCC matou alguém, movimentou milhões com o tráfico de drogas, enviou toneladas de cocaína para a Europa, roubou bancos ou tomou cidades inteiras do interior.
Você abre o jornal e lê que o Comando Vermelho controla territórios no Rio de Janeiro, decide quem entra e quem sai de determinadas comunidades, cobra “impostos” de comerciantes, fecha ruas, incendeia ônibus e influencia eleições.
Você sai de casa preocupado com o posto onde vai abastecer seu carro porque já ouviu falar que algumas organizações criminosas também atuam na adulteração de combustíveis. Você pega o celular para consultar o GPS e lembra que essas mesmas organizações estão por trás de boa parte dos furtos, roubos e golpes financeiros que atingem milhões de brasileiros.
Sua vida é impactada diariamente por PCC e Comando Vermelho.
E mesmo assim eu quero te convencer de uma coisa: classificá-los como organizações terroristas pode não ser bom para você, para mim ou para o Brasil.
Eu sei que isso parece absurdo. Afinal, se existe algo que produz terror na vida cotidiana dos brasileiros, são justamente essas organizações. Mas peço que você me acompanhe até o final. Porque essa discussão não é sobre defender PCC ou Comando Vermelho. É sobre defender os interesses do Brasil.
Quando Donald Trump, Marco Rubio, J. D. Vance e outros políticos americanos defendem a classificação dessas organizações como terroristas, eles não estão pensando nos problemas de segurança pública que enfrentamos diariamente. Estão pensando nos interesses dos Estados Unidos.
E isso não deveria surpreender ninguém. Grandes potências fazem isso o tempo todo. A questão é entender quais interesses são esses.
Muita gente imagina que classificar uma organização como terrorista significa apenas endurecer investigações ou facilitar prisões. Mas o efeito vai muito além da esfera criminal. Quando os Estados Unidos colocam uma organização em sua lista de terrorismo, eles ativam uma série de mecanismos financeiros que passam a produzir efeitos em bancos, empresas e instituições espalhadas pelo mundo inteiro.
E aqui está o ponto central da discussão.
Em 5 de junho de 2026, PCC e Comando Vermelho foram oficialmente classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas. A partir desse momento, qualquer banco, empresa ou instituição financeira que, ainda que sem saber, movimente recursos ligados a essas organizações passa a correr o risco de ser vista como alguém que está facilitando o financiamento do terrorismo.
Pode parecer exagero, mas não é.
PCC e Comando Vermelho movimentam bilhões de reais todos os anos. Esse dinheiro passa por postos de combustível, transportadoras, imóveis, empresas de fachada, fintechs, contas bancárias, comerciantes e uma infinidade de atividades aparentemente legais. Nenhuma instituição financeira séria do planeta consegue garantir que jamais recebeu recursos provenientes de organizações criminosas. Nenhuma. Nem brasileira. Nem americana. Nem europeia.
Aliás, a história recente mostra justamente o contrário. Grandes bancos americanos e europeus já foram investigados e multados por falhas relacionadas à lavagem de dinheiro, inclusive envolvendo cartéis de drogas e organizações criminosas internacionais. Da mesma forma, diversos paraísos fiscais construíram parte relevante de sua prosperidade oferecendo estruturas financeiras utilizadas para ocultação patrimonial e movimentação de recursos de origem extremamente questionável.
Mas existe uma diferença importante. Quando o problema acontece dentro dos grandes centros financeiros globais, a solução costuma ser uma multa bilionária, um acordo regulatório ou uma exigência de aperfeiçoamento dos mecanismos de controle. Quando o problema acontece fora desse centro de poder, especialmente em países periféricos, ele pode ser transformado em uma questão de terrorismo.
E terrorismo é uma palavra poderosa.
Ela permite que autoridades americanas ampliem exigências, fiscalizações e mecanismos de supervisão sobre instituições financeiras espalhadas pelo mundo. Na prática, bancos brasileiros podem passar a ser constantemente pressionados a demonstrar aos órgãos americanos que não estão movimentando recursos relacionados a organizações classificadas por Washington como terroristas.
E quem define as regras desse jogo?
Washington.
Quem vende boa parte dos sistemas de monitoramento, certificação, auditoria e conformidade necessários para atender essas exigências?
O próprio mercado financeiro internacional que orbita em torno dos Estados Unidos.
É por isso que essa discussão não é apenas sobre PCC e Comando Vermelho. Ela também é sobre poder econômico. Quanto mais atividades financeiras dependerem de estruturas supervisionadas ou controladas pelos Estados Unidos, maior será a influência política, econômica e financeira americana sobre países como o Brasil.
E influência gera dinheiro.
Muito dinheiro.
É justamente nesse ponto que entra o Pix.
O Pix é uma infraestrutura pública criada pelo Banco Central do Brasil. Ele não pertence à Visa. Não pertence à Mastercard. Não pertence a nenhum banco estrangeiro. Ele é brasileiro. Cada transação realizada por meio do Pix fortalece uma estrutura financeira nacional e reduz a dependência de sistemas internacionais controlados por grandes grupos privados.
Por isso, muitos analistas enxergam uma disputa maior acontecendo em segundo plano: de um lado, países tentando desenvolver mecanismos próprios e reduzir dependências externas; do outro, os Estados Unidos tentando preservar a posição central que ocupam no sistema financeiro global.
Mas o problema não é apenas econômico.
Existe também uma questão de soberania.
Hoje, PCC e Comando Vermelho são um problema brasileiro. São investigados pelas nossas polícias, julgados pelos nossos tribunais e combatidos pelas nossas instituições. No momento em que Washington decide classificá-los como organizações terroristas, essas facções deixam de ser apenas um problema brasileiro e passam a ser tratadas também como uma questão de segurança nacional americana.
Pode parecer apenas uma mudança de nome, mas não é. É uma mudança de natureza.
É como se alguém aparecesse na sua casa, apontasse para um problema que existe dentro dela e dissesse: “Agora isso também é problema meu e eu quero participar da solução”.
Historicamente, a América Latina aprendeu a olhar esse tipo de movimento com cautela. Durante décadas, os Estados Unidos utilizaram diferentes justificativas para ampliar sua influência na região: combate ao comunismo, guerra às drogas, combate ao crime organizado e guerra ao terrorismo.
Calma. Eu não estou dizendo que veremos tropas americanas desembarcando amanhã no litoral brasileiro. O problema costuma ser mais sofisticado do que isso. Influência política raramente começa com tanques. Normalmente começa com justificativas. E quando um país passa a definir unilateralmente quais são as ameaças existentes dentro de outro país, ele também começa a reivindicar para si algum grau de participação na solução dessas ameaças.
Mas existe ainda um terceiro problema, menos discutido e talvez mais importante.
A classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pode até atrapalhar o próprio combate que o Brasil já realiza contra essas facções.
Calma, eu não estou dizendo que as instituições federais sejam piores que as estaduais. A questão é outra.
Hoje, quem convive diariamente com a realidade dessas organizações são delegados, investigadores, promotores, policiais penais, agentes de inteligência e magistrados espalhados pelos estados brasileiros. São eles que conhecem os líderes locais, as rotas utilizadas, os esquemas financeiros, as alianças regionais e as transformações constantes dessas organizações. É um conhecimento construído ao longo de décadas de enfrentamento cotidiano.
Quando um problema é reclassificado como questão de terrorismo, ele tende a migrar para estruturas federais de inteligência e segurança nacional. E aí surge um risco clássico da administração pública: quem está mais distante do problema passa a ter maior poder formal sobre ele. Não porque seja mais competente, mas porque a nova classificação jurídica desloca competências, prioridades e fluxos de informação.
O resultado pode ser exatamente o oposto do desejado. Em vez de fortalecer a integração, cria-se mais uma camada institucional entre quem produz informação e quem toma decisões. Mais relatórios. Mais burocracia. Mais disputas sobre competências. Mais dificuldade de coordenação.
E o crime organizado adora problemas de coordenação.
A experiência internacional mostra que grandes organizações criminosas prosperam justamente nos espaços em que o Estado não consegue compartilhar informações de forma eficiente entre seus diversos órgãos.
Por isso, a pergunta não é se a Polícia Federal é melhor que a Polícia Civil ou se um órgão federal é superior a um órgão estadual. A pergunta é muito mais simples: transformar PCC e Comando Vermelho em um problema de terrorismo vai aumentar a cooperação entre todos os atores envolvidos ou vai criar mais barreiras entre quem conhece o problema e quem passa a administrá-lo?
Porque segurança pública depende, acima de tudo, de integração. E integração não se constrói apenas mudando o nome do problema.
Eu sei que tudo isso parece contraintuitivo. Quando vemos o mal que PCC e Comando Vermelho causam diariamente, nossa primeira reação é concordar com qualquer medida que pareça mais dura. A vontade é justamente chamá-los de terroristas.
Mas política internacional não funciona com emoções. Funciona com interesses.
Por isso, a pergunta que precisamos fazer não é se odiamos PCC e Comando Vermelho.
A pergunta é outra: a classificação dessas facções como organizações terroristas fortalece o Brasil ou fortalece os Estados Unidos?
Porque são coisas muito diferentes.
E nem sempre quem diz estar resolvendo os nossos problemas está pensando nos nossos interesses.
Às vezes, está apenas cuidando dos próprios.
Foto de capa: Estadão Conteúdo





