A fonte de Rodrigues deve ser a mesma que informou (erradamente) a Lauro Jardim que Daniel Vorcaro teria financiado o filme de Lula.
Um dos fenômenos estudados da atual fase da mídia digital é a influência de bancos de investimento e do próprio Banco Master sobre publicações jornalísticas. Um bom enigma a ser desvendado é a quem serve o Poder360, de Fernando Rodrigues.
A edição de 17 de maio oferece um caso exemplar, com a a reportagem “Lula aconselhou Vorcaro a não vender Master ao BTG”
A matéria-base
O ponto de partida foi uma reportagem séria do UOL, de Fábio Serapião e Natália Portinari, sobre um documento apreendido pela Polícia Federal: um plano interno do Banco Master, datado de 10 de abril de 2025, que descrevia uma proposta de venda ao BTG Pactual — alternativa que Vorcaro rejeitou antes de recorrer ao BRB.
O trabalho de encaixe de Fernando Rodrigues
A partir dessa base, Rodrigues montou sua própria narrativa juntando peças disponíveis:
Peça 1: A reunião de 4 de dezembro de 2024 no Planalto, entre Vorcaro e Lula, com Guido Mantega, Rui Costa, Alexandre Silveira, Augusto Lima e Gabriel Galípolo — na época ainda indicado à presidência do BC. Segundo os presentes, Lula disse que qualquer decisão sobre o Master seria técnica.
Peça 2: O documento do Master de 10 de abril de 2025, sobre as negociações com o BTG.
O encaixe: Rodrigues une as duas peças com uma inferência que ele apresenta como fato. Lula teria criticado André Esteves e Roberto Campos Neto na reunião. A partir daí, a conclusão do texto é que “Vorcaro entendeu a presença de Galípolo na reunião e as críticas de Lula a Campos Neto como um incentivo para seguir com o Master.” Ou seja: o que Vorcaro entendeu vira, na narrativa, responsabilidade de Lula. Assim, ele teria interrompido as negociações com o BTG por influência de Lula. No entanto, o documento divulgado pela UOL é de 10 de abril de 2025, o que mostra que, quatro meses após a reunião com Lula, o Master insistia na proposta BTG.
Peça 3: O número de reuniões entre o Master e o Banco Central — 24 no período Campos Neto, 41 nos primeiros 11 meses de Galípolo. Rodrigues omite o contexto óbvio: o aumento de reuniões no período Galípolo ocorre porque o banco já estava em contagem regressiva para a liquidação. Mais reuniões significavam mais monitoramento regulatório — não mais cumplicidade.
Peça 4: A conclusão que coroa o encaixe. Vorcaro teria repetido seu discurso de que o Master poderia quebrar o oligopólio bancário e Lula, do alto de décadas de experiência em conviver com toda sorte de lobbies e sofismas, simplesmente teria “enxergado uma possibilidade de mudar a configuração do sistema financeiro brasileiro.” Imaginar que Lula cairia em uma narrativa dessas é minimizar décadas de experiência com toda sorte de raposas.
A peça que Rodrigues não encaixou
Todas essas peças foram mobilizadas, menos a principal — que estava na própria reportagem do UOL que ele utilizou como base.
O plano do BTG era o seguinte:
- O Master faria uma cisão parcial.
- Os ativos que não iriam para o BRB seriam transferidos para o BMI — Banco Master de Investimento.
- O FGC (Fundo Garantidor de Crédito) compraria 100% do capital do BMI por valor simbólico e integralizaria R$ 5 bilhões para cobrir os primeiros vencimentos de CDB.
- Em seguida, cederia essa opção ao BTG, também por valor simbólico. O BTG assumiria o controle total do BMI e receberia uma taxa de gestão de 1,25% ao ano sobre o valor contábil inicial dos ativos — não sobre resultados.
- Todas as despesas de recuperação seriam reembolsadas pelo FGC. E as contingências do BMI, do BTG e “de quaisquer outras sociedades do grupo do Banco Master e/ou de seus controladores” seriam indenizadas pelo FGC.
Em resumo: o BTG assumia o controle, embolsava taxa de gestão garantida sobre o estoque de ativos, tinha todas as despesas pagas e ainda ficava coberto por eventuais contingências judiciais dos controladores do Master. O FGC — financiado pelos bancos do sistema — bancava tudo.
Faltava apenas um detalhe para o plano ir adiante: a aprovação dos bancos S1, as principais instituições do país e os maiores financiadores do FGC.
Ou seja: o que estava na mesa era exatamente isso. Não a salvação do sistema financeiro — mas um arranjo pelo qual o BTG assumia um banco quebrado sem risco, com taxa de gestão garantida e todas as perdas socializadas pelo FGC.
A questão que fica
A narrativa de Rodrigues desenha Lula como o responsável pela continuidade do Master e pelo rombo subsequente. As incongruências do artigo são óbvias:
1. O plano do Master com o BTG é de 10 de abril de 2025. Ou seja, 4 meses depois da reunião com Lula, o plano BTG estava na mesa do Master,
2. Todo o sucesso do plano dependia da aprovação dos bancos S1 (Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Santander e BTG Pactual), principais financiadores do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Alguém poderia imaginar esses bancos dando dinheiro de graça para o Master e o BTG?
3. Apenas um apelo de uma autoridade maior poderia convencê-los. Essa autoridade seria o presidente da República. Por isso, a versão mais lógica é que Vorcaro foi atrás de Lula para que ele intercedesse junto aos demais bancos para doarem os recursos do FGC para o BTG. E tanto não conseguiram, que o plano BTG gorou. Primeiro, porque Lula pode ser tudo, menos ingênuo. Além de conhecer de sobra os jogos de lobbies, jamais iria interferir em uma operação privada: entre Vorcaro e o FGC.
4. A pergunta que o Poder360 não faz é a única que importa: a quem servia o plano rejeitado e a quem serve o Poder360? Uma coisa é certa: a fonte de Rodrigues é a mesma que informou (erradamente) a Lauro Jardim que Daniel Vorcaro teria financiado o filme de Lula.
Foto da capa: Jack Nicholson – O Iluminado – Crédito: Divulgação




