Por Solon Saldanha*
Ao recuperar a trajetória do Príncipe Custódio, obra propõe uma revisão da memória histórica de Porto Alegre e recoloca em evidência a presença negra na formação cultural da capital gaúcha.
Há livros que chegam apenas para ocupar prateleiras. Outros, porém, surgem para reparar silêncios históricos. “Príncipe Custódio – Distinto Morador de Porto Alegre” parece pertencer claramente a esta segunda categoria. Já pelo título, a obra anuncia um gesto de recuperação: trazer novamente ao centro da memória coletiva uma figura que transitou pela capital gaúcha deixando marcas profundas na religiosidade, na cultura popular e na própria formação simbólica da cidade.
O lançamento da obra em 13 de maio — data carregada de significados quando se fala da história da população negra no Brasil — não poderia ser mais simbólico. Ao recolocar em circulação a trajetória do Príncipe Custódio, o livro confronta um velho hábito brasileiro: o de apagar personagens negros fundamentais da narrativa oficial, relegando-os a notas de rodapé ou ao folclore superficial.
Príncipe Custódio não foi apenas uma personalidade exótica, como durante décadas muitos tentaram reduzi-lo. Sua presença em Porto Alegre ultrapassou o anedótico. Homem cercado por respeito, mistério e influência, tornou-se referência espiritual, política e cultural em uma sociedade profundamente marcada pelo racismo estrutural e pela tentativa constante de embranquecimento da própria memória urbana.
A importância de uma obra como esta reside justamente em sua capacidade de desmontar uma imagem caricaturada, propositalmente distorcida. Recuperar a trajetória de Custódio significa revisitar a Porto Alegre de outras épocas sob um novo ponto de vista: o daqueles que ajudaram a construir a cidade, mas raramente tiveram suas histórias narradas com a dignidade merecida.
Há ainda um aspecto particularmente relevante na iniciativa: o fato de ela surgir vinculada ao Coletivo de Negras e Negros do Sindicato dos Servidores e Empregados Públicos Federais do Rio Grande do Sul. Em tempos nos quais discursos antirracistas frequentemente são tratados apenas como pauta passageira ou disputa retórica, ações concretas de preservação histórica assumem enorme importância. Publicar um livro é também disputar memória. E disputar memória é disputar poder.
A autora Nandi Barrios vem se dedicando à recuperação de aspectos historicamente negligenciados da presença negra no Rio Grande do Sul, especialmente em Porto Alegre. Sua pesquisa sobre o Príncipe Custódio dialoga não apenas com a reconstrução biográfica de uma figura emblemática da cultura afro-gaúcha, mas também com a necessidade de questionar narrativas tradicionais que durante décadas minimizaram ou invisibilizaram o protagonismo negro na formação da capital gaúcha.
Mais do que uma biografia, “Príncipe Custódio – Distinto Morador de Porto Alegre” tem potencial para funcionar como instrumento de reflexão sobre pertencimento, invisibilização e identidade cultural. O resgate de personagens negros históricos não atende apenas à necessidade de corrigir injustiças do passado; ajuda igualmente a compreender o presente e as estruturas que ainda moldam a sociedade brasileira.
Ao lançar luz sobre um personagem tão singular, a obra convida Porto Alegre a olhar para si mesma. A cidade que tantas vezes cultivou uma autoimagem europeizada talvez precise, cada vez mais, reencontrar as raízes africanas que ajudaram a moldar sua cultura, suas crenças, sua linguagem e seus afetos.
Num país acostumado a esquecer depressa, livros assim cumprem uma função rara e necessária: devolver existência plena àqueles que a história oficial tentou transformar em sombra.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor. Redator da RED
A ilustração de capa foi criada pelo autor do texto, com IA




