Os Investimentos Diretos no País (IDP) por capitais estrangeiros foram decisivos para o desenvolvimento brasileiro no passado e persistem no presente. Emblemática é a troca de americanos por chineses na indústria automobilística eletrificada e europeus nas concessionárias resultantes de privatizações. O amplo mercado interno, apesar da desigualdade, é o maior fator de atração.
Entretanto, o papel do capital estrangeiro no Brasil sempre foi condicionado pela estratégia estatal e pela estrutura do mercado interno, e não autônomo. A atual recomposição entre EUA e China, além da Europa em concessões públicas, é parcial e setorial, não uma simples substituição.
O IDP foi sim decisivo, mas nunca foi isolado. Os Investimentos Diretos Estrangeiros (IDE) tiveram papel central em momentos-chave na industrialização na Era Nacional-Desenvolvimentista (1950–1980), com entrada incentivada de multinacionais, especialmente no setor automotivo (como Ford Motor Company e General Motors).
Por predomínio da produção voltada ao mercado interno houve forte coordenação do Estado com proteção tarifária e crédito do BNDES. O IDE foi complementar ao projeto nacional-desenvolvimentista, não seu motor exclusivo.
Na Era do Neoliberalismo, com abertura externa e privatizações (1990–2000), houve entrada maciça de capitais estrangeiros em telecomunicações, por exemplo, a Telefónica, energia, especialmente em campos de exploração de petróleo, e sistema financeiro, com o Banco Santander sendo o mais emblemático.
Houve aquisições de ativos existentes, em lugar de criação de novos. O IDE atuou como reorganização patrimonial, não necessariamente expansão produtiva.
Na Era do Social-Desenvolvimentismo, durante o boom de commodities (2003–2014), o IDE privilegiou investimentos em recursos naturais com participações acionárias em empresas de mineração, petróleo e agroexportadoras. Essa forte presença de multinacionais fez a integração do país ao ciclo global de commodities.
No presente, uma questão em debate é se há “troca de hegemonia” com o avanço seletivo da China, não substituição geral. Empresas como BYD e Great Wall Motors investem em veículos elétricos, aproveitam capacidade instalada existente e entram em nichos de transição tecnológica.
Foi simbólico a BYD, montadora chinesa, ter assumido o complexo industrial antes pertencente à Ford em Camaçari, na Bahia. A planta estava fechada desde 2021 e foi adquirida para produzir veículos elétricos e híbridos . A GWM (Great Wall Motors) comprou a fábrica antes pertencente à Mercedes-Benz em Iracemápolis, no interior de São Paulo, para produzir SUVs e picapes híbridas. A Mercedes-Benz havia fechado a unidade em 2020, e a GWM a comprou.
Mas os EUA e Europa ainda dominam amplos segmentos industriais. Portanto,
não há substituição completa, mas diversificação geoeconômica do IDE.
A Europa tem forte presença em concessões. Empresas como Enel atuam em energia e infraestrutura por terem participado de concessões e privatizações. O IDE europeu é dominante em utilities (ou utilidades públicas) com empresas prestadoras de serviços essenciais e contínuos para a sociedade, como energia elétrica, água, saneamento básico e gás natural. Essa infraestrutura é regulada.
Os EUA continuam relevantes. Mesmo com menor visibilidade, marcam presença em tecnologia, finanças, indústria, onde têm forte influência indireta via capital financeiro, ou seja, participações acionárias adquiridas em bolsas de valores, inclusive internacionais, onde empresas de origem brasileira listaram suas ações.
O fator decisivo é o mercado interno porque seu tamanho importa. O Brasil oferece população adulta acima de 160 milhões pessoas, urbanização elevada e mercado consumidor diversificado. Isso permite produção local em escala e amortização de investimentos
A desigualdade na demanda interna limita o consumo de massa homogêneo, mas cria segmentação de mercado, ou seja, não impede sua exploração, mas sim o reorganiza. Por exemplo, bens populares ganham em economia de escala por causa do volume consumido, enquanto bens premium propiciam uma margem de lucro alta. Para multinacionais, essa diversidade pode ser até vantajosa.
Uma comparação implícita com muitos países emergentes, eles têm custos baixos, mas não têm mercado interno relevante e dependem de exportação. O Brasil oferece demanda doméstica relativamente autônoma.
Mas há outros fatores igualmente decisivos, para o IDE, e por isso reduzir tudo à demanda interna seria incompleto. Os recursos naturais no agro, em energia, e em minerais atraem IDE específico.
A estrutura institucional também é fundamental. Os marcos regulatórios, embora ainda instáveis, se complementam com um sistema financeiro desenvolvido.
Outro fator-chave para atração de investimentos estrangeiros diz respeito ao câmbio e custos inferiores. Os ciclos de desvalorização da moeda nacional tornam os ativos no Brasil baratos para estrangeiros
Apesar da importância, o IDE apresenta padrões recorrentes com os limites existentes no Brasil como baixo conteúdo tecnológico local, pouca internalização de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e dependência de matrizes. Há integração parcial da economia brasileira com cadeias produtivas incompletas e baixa difusão tecnológica. A remessa de lucros implica em saída de renda para o exterior em vez de ser reinvestida para a expansão da capacidade produtiva no Brasil.
O IDE no Brasil opera dentro de um padrão de exploração de mercado interno, acesso a recursos naturais e arbitragem institucional – e não necessariamente implica em transformação estrutural autônoma.
O IDE se encaixa no circuito fiscal-financeiro mais amplo por complementar o financiamento estatal e bancário, embora não substitua a fragilidade do mercado de capitais e conviver com a financeirização.
Enfim, o IDE foi e continua sendo importante. Há mudança parcial na origem com maior presença chinesa. O mercado interno é fator-chave de atração. Mas o IDE no Brasil tem sido historicamente adaptativo ao ambiente interno, e não indutor de transformação estrutural profunda.
O Brasil atrai capital estrangeiro não apenas por ser grande, mas por ser um espaço onde é possível realizar lucros com relativa segurança, seja produzindo, seja explorando recursos ou operando serviços regulados. Isso explica a persistência do IDE, mesmo em um contexto de crescimento moderado, desigualdade elevada e estrutura produtiva incompleta.
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