Da REDAÇÃO*
A diplomacia norte-americana, sob a gestão de Donald Trump, intensificou esforços para barrar a criação da Declaração Interamericana dos Direitos das Pessoas Afrodescendentes na Organização dos Estados Americanos (OEA). A proposta, liderada por Brasil e Colômbia, enfrenta uma ofensiva que combina alianças políticas com governos de direita e pressões diretas sobre nações vulneráveis do Caribe e da América Latina.
O projeto e o impasse diplomático
A iniciativa brasileira visa estabelecer um marco de proteção jurídica organizado em quatro pilares centrais: justiça, reconhecimento, desenvolvimento e interseccionalidade de gênero. O texto, composto por 28 artigos, vinha sendo negociado ao longo de 14 reuniões desde o ano passado, com consenso em mais de 50% do conteúdo.
Embora tenha se mantido ausente das discussões iniciais em 2025, o governo dos Estados Unidos decidiu intervir nas últimas seis semanas que antecedem a Assembleia Geral da OEA, marcada para o fim de junho, no Panamá. O objetivo é impedir que o documento seja levado à votação, retirando a pauta da agenda oficial do órgão.
Alianças e estratégias de contenção
Para esvaziar a proposta, Washington mobilizou o apoio de países com afinidade ideológica, como Argentina, Paraguai e El Salvador. Além do alinhamento político, a estratégia norte-americana incluiu advertências diretas a nações do Caribe, como Haiti e Jamaica. Segundo fontes diplomáticas, esses países teriam recebido ultimatos indicando que a manutenção do apoio à declaração seria interpretada como uma afronta aos interesses dos EUA.
O embaixador norte-americano na OEA, Leandro Rizzuto, tem sinalizado que o país não aceitará a inclusão do tema na Assembleia Geral. Essa postura reflete o histórico recente da gestão Trump, que já havia votado contrariamente em resoluções da ONU que classificavam o tráfico transatlântico de escravizados como crime contra a humanidade.
Reflexos na soberania regional
A resistência ao projeto brasileiro expõe a fragilidade da autonomia de diversos governos da região diante do poderio de Washington. Diplomatas brasileiros avaliam que o movimento não apenas trava avanços em direitos humanos, mas consolida uma “adesão automática” de certos blocos a uma agenda que negligencia grupos vulneráveis.
Apesar da pressão para o adiamento das discussões, os proponentes da declaração ainda dispõem de um mês e meio para tentar salvar o texto. No entanto, o recuo de países que anteriormente apoiavam a medida indica que a influência dos EUA pode resultar na paralisia completa do documento no curto prazo.
*Redator: Solon Saldanha
Foto: Embaixador dos EUA na OEA, Leandro Rizzuto. Crédito: reprodução Poder 360




